165. Incêndio no Armazém
As Sementes do Desespero, no Gardahal
Antes: 164. Guerra em Shyne
A equipe liderada por Weiss Bier entrou no Gardahal já no início da madrugada, usando roupas civis, sem insígnias. Não puderam levar as armas do Tiwaz pois estavam descarregadas, e os sacerdotes de Travel levariam horas para energizar os cristais. Mas Jules concedeu a Gian uma lendária Espada de Agnix. Naquele momento, não poderiam perder tempo. Ao primeiro sinal de traição, o ataque final às muralhas de Shyne deveria ser iniciado.
As muralhas de Shyne estavam a pouco mais de 500m de onde estavam naquele momento, na linha de frente das tropas que sitiavam a cidadela. No interior da fortificação, o Castelo do Marquês de Shyne se destacava no alto de uma colina à beira mar, bem ao estilo velga. Depois que os bárbaros tomaram a cidadela, há mais de 25 anos, tinham construído uma fortaleza brutalista que ligava o castelo ao porto.
Como de costume, o limbo estava frio, escuro, desértico e silencioso. Assustador, para os marinheiros de primeira viagem. Ali, o relevo no Gardahal emulava com precisão o de Asgaehart. Os quatro então caminharam em direção à colina do Castelo, e Weiss sentiu que os guardiões do lugar estavam apenas os observando, por enquanto. Quando chegaram ao ponto desejado, Weiss apareceu em Asgaehart rapidamente, apenas para se localizar.
O guardião viu que a situação no interior da cidadela era de tensão e pânico. Uma dezena de soldados se deslocava de um lado para o outro. Um deles, alertado pela esttranha aparição, gritou:
– Fucking Freak Wicked Veggs!
Weiss então retornou ao limbo, caminhou alguns metros para leste, e voltou a Asgaehart. Agora estava bem no meio de um aposento com três crianças. Saiu rapidamente. Ainda não tinha um senso de autolocalização aprimorado naquela dimensão, como o de Vórtex. Mas treinaria o quanto fosse necessário para isso.
Caminho mais uns metros para o lado e repetiu o procedimento. Agora estava no interior de um aposento grande, onde um velho obeso de raça alamana estava dormindo, de boca aberta, numa cadeira de balanço rústica, ao lado de muitos barris. Pelo cheiro, era rum. E aquilo devia ser um armazém no castelo.
Sem perder tempo, Weiss matou o sujeito com uma flechada no coração, voltou ao limbo e trouxe Andressa, Gian e Airish para o recinto. A sacerdotisa se concentrou e percebeu que o resto do local estava vazio. Era um depósito de bebidas, com muito vinho, rum e aguardente. O gordo agora morto na cadeira era o responsável ali. Espiando pelas brechas de uma das janelas, Andressa viu a movimentação caótica no lado de fora.
Após uma breve confabulação, decidiram que Andressa deveria sair dali com as roupas sensualmente desalinhadas, e uma caneca de rum na mão, com o objetivo de dominar algum guarda que caísse na armadilha. Quando a sacerdotisa de Virgo deixou o recinto, não demorou muito para ser rudemente abordada por um dos guardas do castelo:
– Hey, bitch! Get out! – Gritou o soldado, já metendo a mão na bunda de Andressa, com um tapa: – All you veggs go home now!
A sacerdotisa de Virgo riu, fingindo estar bêbada, e levou um dedo à boca como se pedisse silêncio, de modo bem sensual. Aquela conexão visual era o que ela precisava para influenciá-lo sem que ele percebesse. Meio hipnotizado, o guarda diz a um de seus companheiros que vai levar a jovem para detenção e averiguação. Andressa então o conduziu até o depósito de bebidas, onde o bárbaro seria devidamente recepcionado.
Assim que entrou no armazém, o tigunar Airish agarrou o soldado por trás e o imobilizou com um mata-leão.
– Ninguém quer te machucar. – Disse Weiss, com uma flecha apontada: – Se gritar eu te mato.
– Só queremos fazer umas perguntas. – Disse Andressa, enquanto estabelecia uma conexão mental com o alamano.
A sacerdotisa de Virgo sentiu todo o terror do sujeito. Em relação ao que estavam buscando, o soldado tinha ouvido a conversa de alguns oficiais: a Quadra de Ases traria uma arma decisiva para a guerra. Mas ele próprio jamais tinha visto a Quadra, e não fazia ideia dos planos de Ighan para a batalha. Sobre o Imperador, sabia apenas que este andava sempre com uma guarda pessoal, os chamados Sentinelas. E cada um deles liderava uma tropa. Também podia ser útil sabe que um de seus primos, de nome Archibald, era o chefe do portão leste da cidadela. Além disso, Andressa sentia que o sujeito não parava de pensar que jamais deveria ter deixado Eredra, onde nasceu, para ganhar a vida como soldado em Shyne, terra dos velgas.
– Vamos botar fogo nessa porra. – Sugeriu Weiss.
– Mas não era pra gente passar despercebido? – Estranhou Gian.
– Incêndios acontecem. E precisamos dar cabo do defunto. – Respondeu o guardião.
– Vamos começar o picolé de fogo! – Brincou Andressa.
Naquele momento, um soldado alamano abriu a porta do armazém, despreocupado, já pedindo antes mesmo de entrar:
– Beer to me, Big Bob… Hey! What a fuck?!
Weiss tentou alvejá-lo, mas a flecha cravou na porta, resvalando sua garganta por milímetros. Andressa então desfez a conexão com o soldado imobilizado e olhou profundamente para o sujeito, que se deixou dominar e paralisou. Mas a confusão no local chamou a atenção, e logo ouviram os passos de pessoas correndo, assim como uma voz gritando do lado de fora:
– Hey Bigbob!? What happens?!
Um guarda entrou no recinto brandindo sua espada, sendo recebido por Gian. Airish estrangulou o guarda que estava imobilizando, e largou seu corpo no chão. Weiss lançou uma bruma de fogo sobre os barris no fundo do armazém, e abriu a capa para que Andressa escapasse ao Gardahal. Quando a sacerdotisa deixou Asgaehart, o o guarda dominado recobrou a consciência, e também partiu para a briga. Mas agora o tigunar já estava brilhando a Espada de Hefestus usando a própria energia do corpo. Com apenas um golpe, Airish explodiu os dois guardas que estavam no armazém, ferindo a si próprio e a Gian como efeito colateral do grande impacto. Muito sangue e partes de corpos humanos se espalharam por toda a parte, enquanto um incêndio já tomava o fundo do armazém. Airish e Gian então entraram no Gardahal, assim como Weiss Bier.
Dessa vez, no entanto, os guardiões daquele local não ficariam apenas observando os forasteiros. Pequenas joaninhas minúsculas começaram a brotar do chão, de todo o lugar, e avançaram na direção do grupo formando uma nuvem ameaçadora. Eram milhares, ou milhões.
– Lá vem pica. – Avaliou Gian: – Bora sair daqui?
– Andressa pode tentar se comunicar com elas? – Perguntou Weiss, enquanto os primeiros insetos já alcançavam seus companheiros, tentando entrar pela boca, nariz, ouvidos.
– Abre essa capa! – Implorou Gian, já no desespero, fungando, cuspindo e se batendo nas orelhas.
Quando Weiss abriu a capa, o cavaleiro da Hokhe foi o primeiro a sair dali, seguido por Airish. Andressa teve muita dificuldade, pois uma joaninha chegou a entrar em seu nariz. A sacerdotisa então se conectou aos elementais do lugar e sentiu que aqueles insetos eram “sementes do desespero”: uma vez implantadas no cérebro de alguém, levariam a pessoa à loucura. Usando toda a sua concentração, Andressa conseguiu se livrar do bicho, quase desmaiando a seguir. Amparada por Weiss, também deixou o limbo. E aí, por um momento, o guardião ficou ali no Gardahal, observando as joaninhas calmamente retornarem aos lugares de onde tinham saído. Estava começando a entender a lógica daquelas criaturas.
Continua…
