168. Escarlates versus Demônios
Tarash
Antes: 167. Infiltração na Cidadela
Nos arredores de Geran, quando os Escarlates viram os filhos de Tarash se aproximando, decidiram que lutariam no chão. Centurion sugeriu que usassem a estratéia de Maltus Horing, mas desistiram porque o grupo ainda estava longe do mar, e em desvantagem numérica. O risco do Hag ser interceptado na queda era muito alto.
Os Ravens escarlates já se mostravam incrivelmente agitados, como se tivessem fugindo de um dragão de fogo. Se pudessem, fugiriam dali o mais rápido possível. Quando se encontravam a pouco mais de meia milha do litoral, o confronto era inevitável, e eles decidiram lutar no chão, liberando os Ravens para fugir dali. Pousaram numa colina baixa, onde Centurion entregou o quarto do Hag para Tan Hauser, que ficaria incumbido de levar a peça ao mar, usando o poder do furacão para afastar os bichos. Os demais teriam que lutar com as feras.
O topo da colina tinha mato até a altura da cintura, e na direção da praia o terreno se tornava em um mangue, até chegar a uma extensa faixa de areia. Girando com velocidade sua Foice Escarlate, Hauser acionou o poder dos ventos, o que impedia qualquer aproximação pela sua frente, enquanto ao mesmo tempo caminhava em direção ao mar. Centurion, Zivi, Ganga e Haia teriam de cuidar dos flancos, dois de cada lado.
Como previsto, o demolobos se dividiram para atacar o grupo, mas a demobesta alçou voo para o alto, em direção a Hauser. O bicho conseguia subir mais alto que seus irmãos menores. Ganga então deixou o flanco e se aproximou por trás do portador do Hag, para protegê-lo, o que fez Haia Kahn ficar sozinho contra a aproximação de dois demolobos.
Ganga era um vilando gigante, e além da Espada Escarlate, usava um mangual enorme que produzia tremores de terra, o que não era nada funcional para enfrentar aqueles monstros alados. No primeiro ataque, a demobesta arrancou sangue de seu rosto com um golpe de raspão com suas garras sinistras, ferida que começou a infecionar imediatamente.
De um lado, Centurion e Zivi San conseguiram segurar o ataque de duas feras, mas do outro Haia Kahn foi nocauteado rapidamente após ser cercado pelos demolobos, que voaram em direção a Hauser. Ganga estava tomando um prejuízo, mas conseguia resistir aos ataques da demobesta. Zivi começou a levar vantagem em sua luta, mas Centurion sentia os efeitos da idade. Por duas vezes já tinha tentado ferir o bicho com o fogo da Espada Escarlate, sem ser efetivo, até aparar uma porrada com o escudo, que o levou ao chão.
As criaturas que passaram por Haia se aproximavam de Tan Hauser pelo flanco direito, o que obrigou o cavaleiro a mudar a direção do furacão, para afastá-los. Mas isso impediu seu avanço na direção do mar. Também golpeado no rosto, que começou a sangrar, Zivi passou o dedo na ferida e levou à boca, gesticulando negativamente com a cabeça para o bicho enquanto sorria, antes de atacá-lo com fúria.
O velho Centurion estava sendo literalmente fatiado aos poucos pelas garras e presas do demolobo, enquanto Ganga também sofria para manter a besta afastada. O pequeno Zivi, no entanto, pareceu ter descoberto a melhor técnica para lutar contra as criaturas, e anotou a primeira baixa no inimigo ao lançar duas lâminas que deceparam as asas de um demolobo, que tombou ao chão e recebeu o golpe de misericórdia da Espada Escarlate. Livre, Zivi San correu para a proteção do outro flanco, no mesmo momento em que Haia recobrou a consciência. Com isso, Tan Hauser pode voltar a descer a colina em direção da praia, protegido pelo furacão.
Lutando contra apenas um demolobo, Haia Kahn conseguiu contê-lo de início, mas Centurion já estava muito fodido, todo rasgado e com a lataria amassada. Seu rosto estava esmigalhado, uma pasta de sangue. Mas o velho era cascudo. Sabia que sua missão ali era engolir porrada até Hauser lançar o Hag ao mar. E engolia, junto com alguns dentes. Zivi, por outro lado, conseguiu derrubar outro monstro usando suas lâminas de arremesso, e começou a gostar da luta. Pensou que poderia fazer aquilo o dia todo, na verdade. Enquanto isso, Hauser já tinha chegado ao mangue, onde teve certa dificuldade para prosseguir. A praia agora estava bem perto. Entrou em contato com o Raven Escarlate, e apelou à montaria que o resgatasse. O animal alado levaria alguns minutos para chegar ali.
A luta de Ganga contra a besta também estava empedernida, ambos já bem feridos. Mas o bicho tinha gás infinito, e o vilando começou a ratear. Haia tomou uma porrada do demolobo, no mesmo momento em que Centurion foi novamente arremessado ao chão. Zivi então matou o bicho que tinha derrubado, ampliando a liderança na artilharia, e correu para tentar ajudar o decano Escarlate, mas foi em vão. Cansado, cheio de ossos quebrados e já sem enxergar quase nada, Centurion foi nocauteado pelo demolobo, que partiu para atacar Zivi.
Haia Kahn foi novamente ferido pelo demolobo, mas conseguiu resistir. Ganga, por outro lao, foi ao chão com um golpe poderoso da cauda da demobesta, mas não desmaiou. Hauser finalmente viu o Raven Escarlate se aproximando, parou de usar a foice e tentou correr da forma que era possível, pernas atoladas na lama, para alcancá-lo. Como já tinha arremessado suas lâminas, Zivi teve alguma dificuldade inicial para encarar o demolobo. Assim, enquanto lutava, deu um jeito de recolher suas peças, cravadas nas feras que tinha matado.
Caído no chão, Ganga não teve como resistir ao ataque da demobesta, que cravou o agulhão da ponta de sua cauda no peito do Cavaleiro Escarlate. Imediatamente, a maior das feras voou em direção a Tan Hauser, que tinha acabado de ser resgatado pelo Raven Escarlate. Mas agora faltava muito pouco para chegar, pois já estavam quase sobrevoando a faixa de areia.
Haia continuava levando prejuízo na luta e foi novamente derrubado pelo demolobo. Caído, lançou uma bruma de fuga que desorientou o bicho e salvou sua própria vida. Enquanto isso, Zivi derrubou mais um demolobo com um arremesso preciso, e Hauser já se preparava para lançar o quarto do Hag no mar, seguido cada vez mais perto pela besta.
O Cavaleiro Escarlate então retirou sua luva e ativou a peça mística com a energia do próprio corpo, segurando-a por um instante. Quando o Hag atingiu as águas do Mar Exterior, todos sentiram uma vibração que não emitiu exatamente um som, mas uma enorme pressão nos ouvidos, seguida de silêncio, e um fulgaz brilho cintilante sobre as águas.
Antes de alcançar a água, a demobesta desviou sua rota para o alto, interrompendo a perseguição, e emitiu um urro terrível de raiva, voltando sua atenção para Zivi. Os Escarlates tinham conseguido acionar a barreira, mas agora precisavam matar o resto das feras e escapar dali, se possível.
Se possível. Tan Hauser já estava voando de volta à colina para ajudar seus companheiros quando todos viram, ao longe, vindo de Geran, uma silhueta aterrorizante de uma criatura alada feminina, voando em direção a eles. Havia pouca dúvida de quem se tratava.
“Tarash” – Identificou Hauser.
“Agora fudeu!” – Avaliou Zivi, enquanto já se preparava para lutar contra a demobesta.
– Temos que meter o pé daqui! – Gritou Haia, logo após matar o demolobo que Zivi tinha derrubado, em meio à bruma de fuga que já começava a se dissipar.
“E os outros?” – Questionou Tan Hauser, para seus companheiros Escarlates.
“Estão todos mortos, Hauser. Com exceção de mim, que estou no Templo, cuidando de Soma, que ficou aleijado” – Informou Vom Hess, por telepatia: “Vocês precisam retornar”.
“Nada disso” – Pontuou Tan Hauser, enquanto observava Tarash se aproximar rapidamente.
“Não vamos conseguir chegar!” – Avaliou Zivi, dando tudo de si para esquivar dos golpes, completamente encagaçado com a situação.
– Chama o Raven e vamos pra água! – Apelou Haia, enquanto já corria, descendo a colina, em direção ao mangue: – O mar está bloqueado para os demônios. Ela não poderá nos seguir!
“Pode ser…” – Suspirou Zivi, aliviado com a sugestão, no momento em que levava uma lanhada da cauda de raspão no meio da cara. Se aquele agulhão pegasse em cheio, era vala certa. Quando a fera se adiantou para desferir um golpe fatal, o Escarlate foi salvo pelo furacão produzido por Hauser, que tinha pousado com o Raven na base da colina onde lutavam. A besta então foi lançada a centenas de metros com uma fortíssima rajada de vento.
Tarash agora já era bastante visível no céu, se aproximando rapidamente do local onde estavam. Uma visão apavorante, pois ela estava claramente prenha, gestando mais alguma criatura maligna em seu ventre inchado. Zivi então correu para lutar contra a fera que tinha derrubado Haia, e Tan Hauser tentou direcionar seu furacão na direção da rainha dos demônios. Mas, para estupor de todos ali, Tarash fez apenas um gsto simples com uma das mãos e abriu a ventania, seguindo reto em direção aos Escarlates, sem desviar seu caminho. Naquele mesmo momento, todos sentiram como se tivessem de resistir a um sono irrecusável. A demonisa estava tentando dominá-los mentalmente.
Haia e Hauser conseguiram resistir ao ataque mental, mas Zivi foi congelado, e acabou sendo morto pelo demolobo que estava enfrentando. A demobesta também já estava voltando para o local, furiosa. Desesperado, Hauser montou no Raven e alçou voo o mais rápido possível na direção do mar, antes que Tarash chegasse ali. Mais desesperado ainda, Haia já tinha alcançado o mangue, e disparava seguidas brumas de fuga para evitar ser visto e alcançado. Àquela altura, Tan Hauser já estava sobre as águas, a uma boa distância da praia.
Movido pelo pânico, Haia Kahn correu como nunca ninguém antes para superar a lama grossa do mangue, lançou mais uma bruma de fuga quando alcançou a areia, e se lançou ao mar em puro desespero, antes que a demobesta o alcançasse. Quando Tarash chegou à colina, abriu o peito o comeu os corações de Centurion, Ganga e Zivi San, usando suas unhas longas e afiadíssimas. A mãe dos demônios então voou até a praia e parou no limite da linha d´água. Haia Kahn já estava bem distante, nadando com o resto de suas forças mar adentro.
Nas mãos de Tarash, Haia pode ver as faíscas cintilantes daquilo que ele conhecia como Aurora da Morte, ou energia infernal. Mas, por algum motivo, a demonisa desistiu de tentar atingir o cavaleiro da Bruma, que se afastava cada vez mais a nado, e apenas ficou ali, observando impassível com seus olhos de predadora. Finalmente aliviado, Haia Kahn sentia-se como se tivesse sido convidado para uma festa onde todos tinham morrido. Mas pelo menos estava vivo. Ainda.
Continua…
