170. Fim da Guerra
Tan Hauser, Cavaleiro Escarlate
Antes: 169. A Ilha Regaria
Na Gerânia, a madrugada já começava a se esgotar quando Tan Hauser resgatou Haia Kahn, que àquela altura já estava exausto de nadar no Mar Exterior. Só a presença de Tarash e seus filhos por ali já tirava o fôlego de qualquer um. Voando no Raven Escarlate, o arauto de Milenor conduziu a montaria alada pelo Mar de Galen, até alcançar o centro da ilha em grande altitude. Quando tiveram que descer ao Templo, que ficava no alto das Montanhas Escarlates, no entanto, um dos demolobos já tinha os farejado até lá, e agora estava pronto para uma emboscada.
“Von Hess… Estamos chegando ao Templo, mas mal acompanhados…” – Pensou Tan Hauser, contatando o companheiro.
“Tente atraí-lo para o Pontal do Oriente. Estarei preparado aguardando vocês”.
Hauser compreendeu o plano imediatamente. Com um rasante, fez uma curva arrojada fazendo o Raven passar por um penhasco próximo aos fundos do Templo de Milenor. Quando a fera o seguiu, pronta para atacá-los, Von Hess arremessou seu Arpão Escarlate flamejante diretamente no crânio da criatura, que despencou morta, caindo centenas de metros até o chão pedregoso aos pés do vale.
As missões dos Escarlates tinham sido todas bem-sucedidas, mas a um custo altíssimo. Ao sul, Maltus Horing tinha se sacrificado. Para leste e oeste, apenas Von Hess e Soma tinham voltado vivos, sendo que este último estava incapacitado, e não mais poderia empunhar as armas de arauto. E na missão do norte, somente Tan Hauser e Haia tinham escapado vivos.
Agora apenas dois Escarlates estavam aptos a deferder o Templo, numa ilha infestada por demônios, e sem o Hag, que agora estava sendo usado para impedir as criaturas infernais de se espalhar por Asgaehart.
Quando Hauser finalmente pousou com o Raven, Hess fez o convite ao cavaleiro da Bruma:
– Estive ainda há pouco com o Espectro Escarlate. Ele quer que você nos ajude a reconstruir a Ordem.
– Seria uma honra. – Disse Haia: – Mas precisarei me desligar formalmente da cavalaria negra.
– Não se preocupe. Avisaremos aos sacerdotes de Milenor nas Terras Altas. Eles sabem da prioridade.
Haia então pensou por um instante, e teve a impresão de que fazer a Ordem Escarlate sobreviver àqueles tempos já seria de muito bom tamanho. Os primeiros raios de sol já começavam a brilhar no horizonte, anunciando dias, e talvez anos ou décadas, muito difíceis para os arautos de Milenor.
Naquele mesmo momento, Weiss Bier, Airish e Gian Partenopolus apareceram numa praia ao sul do litoral de Shyne, saindo do Gardahal. Finalmente se encontravam em território amigo. Mas o guardião não deixou de perceber que em Asgaehart tinha se passado bem mais tempo do que sentiram na dimensão da Ilha Regaria. Lá, a distorção temporal funcionava ao contrário do limbo, embora fosse menos gritante. Mas Weiss calculou que devia ser pelo menos o dobro essa diferença. De toda a forma, já era quase de manhã, e certamente em breve Jules comandaria as forças velgas na incursão derradeira. Tomando alguns cavalos de um posto da retaguarda, os três galoparam rumo a Shyne. Afinal, nenhum deles queria estar longe para testemunhar a vitória final contra os bárbaros.
De fato, assim que o dia raiou, Jules Flanagan liderou as tropas unidas da Dokhe e da Hokhe numa operação militar sem precedentes, aquela que seria a última batalha da guerra mais mortífera da história de Asgaehart. Não haveria cerco, nem sítio, nem negociação. Ighan estava finalmente encurralado, e para os velgas agora era tudo ou nada.
Ao comando do Megatrix, as tropas avançaram em fúria contra as defesas da fortaleza. Os gigantes, posicionados na vanguarda, foram muito bem sucedidos no trabalho bruto de abrir passagens em trechos da muralha para o interior da cidadela, mas acabaram trucidados. As perdas eram muitas, dos dois lados, e os combates se espalharam por todas as praças, ruas e becos do lugar, derramando sangue e cabeças cortadas numa velocidade impressionante. Uma verdadeira carnificina se instalou no local.
Entre os mortos na primeira etapa da invasão estava Tijolus Bek, irmão de Otu. Wheat Bier, primo de Weiss, levou uma flechada no olho, mas sobreviveu miraculosamente. Weiss, Airish e Gian chegaram ao local quando as tropas velgas já lutavam no interior da cidadela. Assim que viu seus companheiros em ação, lutando ao seu lado, o Megatrix se animou:
– Weiss, o acordo foi cumprido!
– Como eu tinha previsto, senhor.
– E Airish, eu não poderia esperar nada diferente de um arauto de Hefestus! Tu vais agora comigo na linha de frente!
– Em frente, meu capitão! – Comemorou o tigunar, já avançando contra os bárbaros que resistiam na cidadela.
E Airish foi. Mas foi com tanta empolgação que logo em seu primeiro confronto cercou-se de cinco soldados alamanos e exagerou muito na energia usada para brilhar a poderosa Espada de Hefestus. A explosão literalmente pulverizou os inimigos, mas foi tão forte e incontrolável que também arrancou um pedaço de sua perna direita. O tigunar então caiu desmaiado, sangrando abundamente por onde antes havia um joelho.
Quando viu o companheiro naquela situação, Weiss imediatamente tomou um atalho pelo limbo e chegou até Airish. Com alguma dificuldade, arrastou o corpo do negão até um beco e aplicou um torniquete improvisado e o resto de unguento que ainda tinha sobre a ferida. Mas era certo que a carreira militar do tigunar havia chegado ao fim, se sobrevivesse.
Com fúria assassina, as tropas velgas subjugaram os bárbaros na colina interior da cidadela de Shyne, e avançaram sobre o castelo, com o próprio Jules Flanagan à frente, já desmontado. A partir dali, teriam de subir escadarias e lutar no interior dos recintos, se fosse necessário.
Junto com o Megatrix, subiram Gian Partenopolus, Gabirutz, Weizen Bier, que era outro dos muitos primos de Weiss, e um cavaleiro novato chamado Huno. Nas escaramuças que se deram com a guarda pessoal de Ighan, que àquela altura consistia na principal defesa do castelo, Jules e Huno foram feridos, mas Gian acabou morto com uma flechada na goela, quando tentava alcançar uma das torres.
Agora o pequeno grupo velga já tinha alcançado o hall principal, e rumavam para o salão nobre no andar superior, onde supostamente Ighan teria se refugiado para resistir. Na luta que se deu contra os guerreiros mais fiéis do Rei Mestiço, Gabirutz teve o braço esquerdo decepado, o que lhe obrigou a deixar o combate, sentado nos degraus de uma torre, enquanto tentava estancar o sangramento. Weizen Bier foi morto com um golpe que rasgou seu abdomen de cima a baixo, assim como o pobre Huno, degolado.
Andando por sobre uma pilha de corpos, somente o Megatrix estava de pé, ainda que mancando um pouco, para subir as escadarias e alcançar o salão nobre do Castelo de Shyne. Jules Flanagan já esperava ter de enfrentar Ighan Pendragon, mas se surpreendeu com o local vazio. Foi somente após vasculhar todo o recinto que o Megatrix percebeu que as vestes imperiais de Ighan estavam ali, largadas no chão. Quando desceu novamente ao hall, Jules então notou que um dos cadáveres da guarda pessoal, na verdade, era o do próprio Imperador, que tinha decidido lutar sua última batalha anonimamente junto a seus comandados, usando armaduras comuns. Naquele momento, pela primeira vez, o Megatrix o respeitou.
Vencida toda a resistência, o Megatrix ordenou os serviçais do castelo, que àquela altura se encontravam abrigados em seus aposentos, rezando para todos os deuses e entidades que conheciam, para que o levassem ao salão do tesouro. No local, ao lado dos carrinhos de ouro roubados de Dankel, Jules encontrou um bilhete, escrito na linguagem velga local:
“Glorioso Imperador do Oriente: Pela sua posição inferior na guerra, e risco de não cumprimento do acordo, decidimos rescindir de forma unilateral nosso contrato. Por isso, aqui abrimos mão da metade do tesouro que seria nosso pagamento, mas decidimos roubar a outra metade. Assinado: A Quadra de Ases”
Jules não pode deixar de dar uma risada quando leu o bilhete. Vórtex precisava daquele tempo para pegar metade do tesouro, em meio ao caos da guerra. O Megatrix então mandou chamar Weiss Bier, afinal Ighan enfim havia sido derrotado, e agora restava pagar o preço de Vórtex pela cornucópia Ametista. Quando o guardião entrou no Gardahal, o mensageiro de Azrael já estava o aguardando, com a cornucópia nas mãos.
– Parabéns pela vitória, “gargo”… – Disse Vórtex com desdém, enfatizando a patente de Weiss na cavalaria velga.
– Parabéns pelo bilhete. Um demônio não faria melhor. Mas vim aqui comprar essa cornucópia, como combinamos.
– Quero o resto do ouro. Você sabe que será muito bem utilizado.
– Estamos acertados.
– Quero o salão do tesouro trancado até o meio dia, para que eu possa transportar o ouro de lá. E então deixarei a cornucópia com vocês.
– Não. Você deixa a cornucópia agora comigo. Eu garanto que o salão ficará trancado.
Vórtex encarou Weiss por um momento, com uma expressão entre enigmática e desafiadora, e fincou a Adaga no chão, abrindo um de seus portais. Antes de passar por ele, no entanto, o mensageiro deixou para trás a reluzente e poderosa peça cor de violeta, no chão arenoso do Gardahal. O guardião então tomou a Cornucópia Ametista em suas mãos e retornou a Asgaehart.
– Parabéns, Imperador dos Imperadores! – Disse Weiss se ajoelhando com uma das pernas enquanto oferecia o artefato mágico ao Megatrix.
– O primeiro Imperador Velga ainda está para nascer, guardião. E o fardo da armadura de Megatrix já é pesado demais. Muito mais do que sonhei, e mesmo do que mereço. – Respondeu Jules quando pegou a Cornucópia Ametista e ajudou Weiss a se erguer novamente.
Após mais de duas décadas, Shyne tinha voltado ao controle velga. A Clave ainda teria de decidir o que fariam com a família mestiçada do atual Marquês, mas era quase certo de que seus parentes exilados em Joy Divile retornariam ao poder, retomando os títulos de nobreza usurpados pelos alamanos. Uma nova era histórica se anunciava no horizonte, uma era em que os velgas dominavam completamente todas as terras entre a Muralha de Azrael, a oeste, o Mar do Norte e o Bosque Morto, ao norte, o Rio Hevan e os Piktos, a leste, e o Mar de Hill, ao sul. Além das alianças firmadas com gauleses, no Velho Ocidente, e com Dankel, no Oriente Esquecido, fortalecidas com o estabelecimento de postos avançados das cavalarias em todo esse imenso perímetro. Uma era imperial.
Continua…

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