171. Epílogo: os Arautos de Hoguz

Miki Maeda, arauto de Hoguz

Antes: 170. Fim da Guerra

Na manhã do dia seguinte, enquanto Jules terminava de reconquistar Shyne para os velgas, Mit Maikon acordou em Darklands, recebendo os cuidados dos graves danos sofridos na luta contra Stonehand e King Kraus. Resgatado pelo Raven, e logo depois ajudado por Owen Petersen e Eris Van Vossen, o arauto de Hoguz deu-se conta de que tinha perdido o Tridente no deserto de Vik-Temi, logo após a explosão que o deixou inconsciente.

Durante toda aquela semana, as celebrações pela vitória tomaram as ruas dos quatro reinos, adentrando o mês de Milenor. Os velgas festejavam nas ruas a vitória contra Ighan, mas poucos sabiam do que tinha acontecido na Gerânia, onde Tarash e seus filhos estavam confinados.

Quando finalmente sentiu-se recuperado, Mit Maikon reuniu alguns de seus companheiros para acompanhá-lo na missão de resgate do Tridente. Weiss Bier, o guardião do Gardahal, prontamente se dispôs a ajudá-lo, e ainda chamou outro de seus irmãos de criação, o vilando Witt. Para completar o grupo, o cavaleiro da Bruma Karl Hagen, irmão dos falecidos Henzo, também da Bruma, e Jon Hagen, herói escarlate da caçada a Calto.

Voando no Raven pardo, que também já tinha se recuperado, o grupo pousou no limite da área crítica do deserto, e Mit pode sentri que sua arma sagrada estava na região. Mais do isso, o arauto também sentiu uma energia familiar, mas diferente, e preferiu não alertar ninguém.

– Weiss, poderia ir ao centro do deserto, pelo limbo, para ver se meu tridente está lá?

A ideia era boa. O guardião então caminhou sozinho pelo Gardahal até o ponto crítico, que ainda apresentava os indícios da batalha e da enorme explosão: um enorme buraco cavado na areia, além dos despojos e fragmentos os corpos empedrados de Krul Petersen e King Kraus, espalhados por todo o lado. Mas Weiss também viu algo diferente: havia um guerreiro ali, um coroa vrúngio de aspecto cascudo, trajando uma armadura bem parecida com a de Mit. E também carregava um tridente. Sem falar mais nada, ele intuiu o que estava acontecendo, voltou ao Gardahal e caminhou de volta aos companheiros para levar a notícia.

– Cachorro grande. – Disse Witt, que adorava comprar o barulho dos outros, mas aquilo era coisa de outro patamar.

– E vão lutar até a morte… – Observou Hagen, que conhecia bem a lenda dos Arautos de Hoguz.

Mit Maikon então ouviu uma voz gutural em sua mente, e percebeu que já conseguia se comunicar mentalmente com sua contraparte:

“Então é verdade que somos dois”.

“Sempre imaginei que fôssemos” – Pensou Mit, já se preparando para encarar o destino inexorável dos arautos do Deus das Profundezas.

“Mas só pode haver um”. – Destacou o coroa.

– Podemos emboscar ele usando o limbo. – Sugeriu Weiss.

– Não, meu amigo… Chegou a minha hora. – Respondeu o arauto, resignado: – É como deseja Hoguz.

Mit então estendeu o braço e sentiu a energia de seu corpo fluindo na direção de se Tridente, que estava semi enterrado a centenas de metros dali. Como se estivesse sendo atraída por um forte magnetismo, a arma sagrada voou pelos ares até as mãos do arauto de Hoguz.

Os dois arautos então caminharam lentamente na direção do outro. Sentiam os efeitos deletérios do deserto, o calor, o cansaçõ, mas de alguma forma suas armaduras os protegiam da petrificação.

“Você deve saber que aquele que sobreviver vai absorver as energias do outro” – Pensou o oponente.

“Então que Hoguz faça o melhor sobreviver”.

“Precisamos disso. Quem sobreviver vai enfrentar um grande desafio. Assim está escrito”.

Onde estava escrito, Mit não sabia. Tinha passado os últimos anos estudando os velhos e empoeirados livros do Templo de Hoguz no Mar Exterior, mas eram muitos. Não tinha lido nem um décimo da imensa coleção de textos místicos.

“Qual desafio?”

“Os seres do Inthernum… Você não sentiu? Eles estão à solta de novo”.

Mit não tinha sentido. Talvez seu rival fosse mais bem preparado. Agora já podia ver bem suas feições: era um coroa forte, pele curtida, cicatrizes na cara. Aí lembrou que no duelo de entidades com Weiss, tinha envelhecido na aparêcia uns vinte anos. Assim pelo menos seu rival também poderia acreditar que lutaria com alguém mais experiente.

“Quem de nós sobreviver poderá montar a Garra de Hoguz, unindo os dois tridentes”. – Observou o coroa.

Outra novidade. Mit precisava passar mais tempo lendo aqueles livros.

“A Garra é a arma sagrada com o poder mais destruidor de todos”.

“Qual o seu nome, arauto?” – Indagou Mit, quando parou à frente do oponente.

Agora já estavam à média distância, uns vinte metros um do outro.

“Miki Maeda”

“Por que não podemos nos unir para enfrentar os demônios?”

“Por que para Hoguz, a soma de um mais um é sempre mais que dois”.

Mit não falava a língua do vrúngio, mas a comunicação entre eles acontecia de modo intuitivo e preciso. Aquela analogia dizia muito.

“Então vamos resolver logo isso” – Concluiu Mit, fazendo guarda: “Que Hoguz escolha o melhor”.

Maeda crava o tridente no chão do deserto e solta um pulso ultrassônico, no que Mit responde fazendo o mesmo. As violentíssimas ondas de choque praticamente se anulam quando se encontram, resultando apenas em uma leva brisa no rosto de cada arauto. Os dois então se aproximaram e começaram a se estudar, circulando. Mit resolveu tomar a iniciativa, e partiu para cima do coroa, que resistiu muito bem ao ímpeto inicial do velga, e logo conseguiu acertar o primeiro contragolpe mais duro, usando o cabo de sua arma. Ao longe, Weiss, Witt e Karl observavam a luta, aflitos.

Daí para adiante, Mit Maikon não foi páreo para as habilidades apuradas de Maeda lutando com o tridente. Após uma porrada mais dura, o velga foi ao chão, e quando tentava se levantar tomou outra na têmpora que o derrubou novamente, e o desnorteou completamente. Quase perdendo os sentidos, Mit observou Maeda se aproximando lentamente, pronto para desferir o golpe de misericórdia.

“Destrua os demônios, Miki. Que Hoguz esteja com você…” – Sussurrou Mit, antes de receber o tridente de Maeda cravado em seu peito.

– Mit! Um dia estarei contigo, meu amigo! – Gritou Weiss, quando percebeu  o que estava acontecendo.

Um grande fluxo de energia saiu do corpo de Mit Maikon, sendo absorvida pelas mãos do guerreiro vrúngio. A partri daquele momento, Mit também descobriria que seu corpo tinha morrido, mas sua consciência estava lá, muito viva, dividindo o mesmo corpo de Miki Maeda. Uma sensação estranhíssima, como se fosse uma esquizofrenia estrutural. E podiam falar os dois idiomas.

O arauto de Hoguz então decapitou Mit, porque sempre devia voltar ao Templo com a cabeça de um guerreiro orgulhoso. Com os dois tridentes, montou a Garra, e pode sentir o enorme poder da arma fluindo pelo ar. Havia dois Ravens pardos em seu poder, um macho e uma fêmea, e agora eles deveriam procriar.

Com muito cuidado, o arauto se aproximou da patrulha velga:

– Eu ainda estou aqui, pessoal. – Disse Miki, como se fosse Mit.

Os velgas estranharam, mas logo o arauto foi capaz de explicar o que tinha acontecido. Weiss então questionou se poderiam ir ao Templo de Hoguz com ele, já imaginando ter acesso aos textos sagrados da Ordem. A atual morada do arauto ficava nos Mares do Sul, numa ilha minúscula a sudeste do continente, muito depois da Bavária, no litoral da Terra dos Gigantes. Eles poderiam visitar a ilha, mas ninguém poderia pernoitar.

“Só preciso avisar uma coisa” – Disse Miki, em vrúngio, sendo compreendido apenas por Mit:

“Na viagem até aqui, tivemos de pousar várias vezes na Terra dos Gigantes para escapar de Inferon” – Alertou o arautto.

– É, pessoal… Ninguém vai querer ir ao templo não. – Avisou Mit/Miki: – A menos que esteja a fim de encontrar Inferon.

– Pensando melhor, poderia nos levar pra casa de Raven? – Disse Weiss.

– Bar dos Bier! – Exclamou Karl, convicto, antes de provocar os irmãos: – Primeira rodada por conta da casa!

A volta para casa foi tranquila. Montados em um dos Ravens de Miki, Weiss, Witt e Karl voaram para a Terra Vélgica, um dos únicos locais no continente que não era assolado por um dragão de fogo.

Em Van Hal, Terras Altas, Darklands e Aquitan, já se falava abertamente em um Império Velga, cujas fronteiras eram demarcadas pela Muralha de Azrael, o Mar do Norte, o Mar de Hill, o rio Hevan e os Piktos. Sem falar nos diversos postos da cavalaria espalhados além dos limites, na planície céltika, no Vale dos Reis, planalto gaulês e no Oriente Esquecido.

Não havia ainda um imperador, mas a união de Dokhe e Hokhe, consolidada nas Ordenações Iniciais da Cavalaria do Megatrix Jules Flanagan, tornava o exército velga a força militar mais temida de toda Asgaehart naquele momento.

Após sofrer por mais de um século com as invasões dos bárbaros, os velgas tinham conseguido retomar todas as suas cidadelas históricas, empurrando os alamanos para uma estreita faixa de litoral, no ocidente e no oriente.

Aquela era uma hegemonia nunca antes vista na região, já equiparada por alguns ao do antigo e extinto Império Rubro, que abrangia os atuais Países Rubros, Horion, Hogan e Saravessa, antes de serem conquistadas pelos bárbaros, além de Gaules, Nibel, Cibel e outros reinos antigos da costa nordeste.

Com a morte do General Krul Petersen, o Gigantrix Henzo Van Holland, filho do rei Hagen, de Van Hal, e irmão do príncipe herdeiro, foi escolhido pelo Megatrix como o novo General da cavalaria negra. Elena de Aquitan continuava liderando a cavalaria sagrada.

Mas, enquanto o povo e os guerreiros comemoravam uma nova era de prosperidade para os súditos do novo Império, os magos, sacerdotes, bruxas e feiticeiras dos quatro reinos estavam muito preocupados, devido aos acontecimentos terríveis ocorridos na ilha vizinha, a Gerânia. Os iniciados nas artes místicas já sabiam, naquele momento, que Tarash tinha dado à luz três filhas, lindíssimas e poderosas demonisas chamadas de Hasgash, Sugash e Sahash.

Pelo menos em tese, e por algum tempo, a mãe dos demônios e sua prole maldita estavam confinadas na Gerânia, cercadas por um campo de energia etérea do Hag Escarlate projetado sobre os mares. Mas a rainha diaba aprendia tudo muito rápido. Parada no porto de Geran, como se levitasse, Tarash olhou fixamente para o continente. Aquela ilha era pequena demais para ela.

FIM DE SAGA

Continua…

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