169. A Ilha Regaria

Mar Ethereum

Antes: 168. Escarlates versus Demônios

No Castelo do Marquês de Shyne, o barulho horrível dos homens explodidos por Airish chamou a atenção dos demais guardas. Weiss, Gian e o tigunar estavam no interior de uma galeria interna da muralha, precariamente iluminada com esparsos archotes presos nas paredes de pedra, quando ouviram vozes gritando da direção contrária da escadaria de onde os agora esquartejados vieram:

– Hey Joe?! Whats happening?!

– Well… Everything fine no problem. – Respondeu Airish, gastando seu alamano: – Was my fart.

– Whos talking?! – Gritou a voz, cada vez mais alta, antes de alertar os demais:

– Bond! – Zoou Weiss, gritando de longe.

– É o bonde da piroca. – Completou o tigunar, agressivo.

– Hey guys! Joe e Jim has some trouble here! Cmon! – Alertou o guarda.

Agora os passos já se podiam ouvir próximos, apressados naquele corredor estreito. Gian continuava muito fodido. Sem alternativa, subiram a escadaria de onde os pobres Joe e Jim tinham vindo, e logo chegaram a uma espécie de hall, que dava acesso a uma escadaria em formato de caracol para a torre, à esquerda. Em frente, a galeria continuava subindo em degraus que se perdiam numa curva.

Quando os guardas encontraram os pedaços dos guardas, gritos de horror puderam ser ouvidos à distância:

– No! They killed Jim and Joe! Fucking Vegies!

Enquanto decidiam o que fazer, começaram a escutar passos vindos da escadaria que continuava a galeria. Agora estavam cercados.

– Fodeu. – Disse Weiss.

– É… Tirando você, acho que estamos mortos. – Disse Gian, já pensando se queria morrer ali ou tomado pelas joaninhas.

– Bora pro limbo. A gente corre na direção contrária e sai rápido. – Sugeriu o guardião.

Como a outra opção era ficar e lutar, e muito provavelmente morrer, decidiram voltar ao Gardahal. E então se supreenderam com Vórtex e Mantala, flutuando em seu Globo de Liz, esperando por eles.

– Precisam de ajuda, guardião? – Perguntou o Mensageiro de Azrael, irônico.

– Claro! – Gritou Gian, já temendo as milhares ou milhões de joaninhas que se levantavam das entranhas daquele chão desértico.

– Você pode ajudar? – Disse Weiss, que logo percebeu que o Mensageiro de Azrael ainda estava com a Cornucópia Ametista em seu poder. Se estava ali, o acordo estava sendo cumprido.

– Ela pode. – Respondeu Vórtex, apontando Mantala, que naquele momento gesticulava para criar dois outros globos que envolveram Gian e Airish e os ergueram do chão, em levitação. Imediatamente as joaninhas voltaram para as entranhas do deserto.

– Ih… – Reagiu Airish, percebendo que enquanto estivesse flutuando naquela bolha ele era na verdade um prisioneiro da feiticeira.

– Não se preocupe, negro. Quero mostrar a vocês um lugar. – Informou o mensageiro, enquanto cravava no chão sua adaga, que dessa vez projetou um hipercubo vibrante de tons violetas, cintilando como um portal entre dimensões.

– Ihhhhh! – Sobrerreagiu o negão, quando viu que o globo onde estava atravessaria aquela passagem tetradimensional estranhíssima, que brilhava em múltiplas camadas de realidades colapsadas naquele momento. Tudo isso à revelia de sua vontade. Vórtex foi o primeiro a atravessar o portal que tinha aberto, seguido por Airish e Gian, levitando em suas bolhas de energia. Mantala passou logo depois, seguida por Weiss.

Do outro lado, havia uma paisagem inacreditável: uma imensa planície plana e alagada com um fino espelho de água cristalina, sobre uma superfície branca que parecia sal. A temperatura era ótima, contrastando com o frio do Gardahal, e a luz parecia a de um crepúsculo ou alvorada sem o sol, nem as estrelas, nem nuvens, nem vento, no céu. Apenas um lindo domo de suaves tons alaranjados e violetas.

Weiss, Airish e Gian ficaram impressionado quando viram aquela pintura real. Mantala desceu Airish e Gian ao nível da planície e desfez os Globos de Liz. O aroma no ar também era algo de espetacular, quase inebriante de tão cheiroso. Vórtex começou a caminhar em direção ao norte, onde podiam ver, ainda muito ao longe, algo que parecia ser um barco.

– Hoje vocês conhecerão meu doce lar. – Disse Vórtex.

Após algum tempo de caminhada, os cinco chegaram a um pier solitário à beira de uma praia de areias macias que anunciava um gigantesco mar de águas absolutamente mornas e calmas como uma piscina. Havia um bote ancorado ali, e o Mensageiro de Azrael logo assumiu um dos assentos na pequena embarcação. Mantala entrou a seguir, e logo os cinco estavam remando, guiados por Vórtex, cruzando calmamente aquelas águas cristalinas.

– Como está a guerra, Vórtex? – Questionou Weiss, tranquilo por saber que Ighan não tinha a cornucópia.

– Está quase feito, guardião. Vejo que seu Marechal está cumprindo nosso acordo.

No horizonte, uma pequena ilha começava a aparecer aos navegantes. Uma praia paradisíaca, palmeiras, um rio cristalino. Aquele lugar era deslumbrante. Vórtex levou o bote até um pier de madeira ricamente talhada, onde um pequeno banquete em uma grande mesa redonda os aguardava. Nada muito pesado, apenas guloseimas, sucos, frutas e nozes. Mas em muita quantidade. Um verdadeiro exagero.

– Sejam bem-vindos a Regaria! – Anunciou o mensageiro, quando pôs os pés no pier.

– És um homem de palavra. – Reconheceu Weiss.

Do pier, seguiram por uma linda trilha arborizada que cortava um gramado verdejantemente aparado, e as pessoas começaram a aparecer, por entre as bucólicas e diversificadas construções no local: coretos, fontes, caramanchões, anfiteatros, pórticos, ricamente decoradas e ajardinadas, com flores e frutas de todo o tipo. Alguns riam, bebiam, petiscavam, fumavam, conversavam, cantavam, dançavam, tocavam música e faziam sexo, muito sexo. Sem pudores. Mantala então os deixou, juntando-se a um grupo de lindas mulheres que se divertiam tocando liras perto de um chafariz.

– Aqui vivemos em puro prazer. – Explicou Vórtex, enquanto seguia trilha acima, em direção ao que parecia um imenso templo com colunas clássicas: – Aqui permitimos quase todos os pecados, menos a avareza, a ira e a inveja.

– Por isso precisam do ouro. Bancar isso aqui não deve ser barato. – Avaliou Weiss.

– O pagamento de Ighan poderá custear isso aqui por mais um bom tempo.

– Em que dimensão estamos?

– Nós a chamamos de Mar Ethereum, pois é um local intermediário entre Asgaehart e a casa dos deuses. Assim como o Gardahal é um plano entre Asgaehart e o Inthernum, morada dos seres demoníacos. E eu nem preciso dizer que aqui é um lugar muito mais seguro.

– Como você aprendeu a vir para cá?

– Os Mensageiros precisam viajar muito, guardião… Mas não vai demorar até que você mesmo aprenda sobre os pontos de interseção no Gardahal.Há diversas maneiras de se chegar até aqui, além da que aprendi com a Adaga Vórtex.

Enquanto Gian parecia hipnotizado, Airish agora já começava a ficar desconfiado de toda aquela regaria. Mas aí três jovens ileanas lindíssimas saíram do Templo e vieram recepcionar os novos visitantes e saudar seus mestres, o que desarmou o coração do negão.

– São suas servas? – Peguntou Weiss.

– Jamais. Ao contrário da escória de Hanzi-Radnar, não temos escravos ou serviçais aqui. Todos estão aqui por livre arbítrio. Tudo chega aqui pronto, é consumido e descartado. Não há manutenção, e ninguém precisa trabalhar.

As jovens, trajadas sensualmente em túnicas transparentes, conduziram os visitantes para uma suntuosa sala de banho, que nada devia às famosas termas do Senado em Dankel. Lá, Weiss, Airish e Gian foram tratados de seus ferimentos com uma pasta espumante com resultados ainda mais rápidos do que a placenta de Virgo. Milagrosamente mais rápidos. Mas havia um pequeno inconveniente: a substância só funcionava ali.

Nos demais espaços daquele luxuoso Templo, as pessoas estavam entregues à diversão, à preguiça, à gula e à luxúria, espalhadas em redes, tapedes, almofadas e esteiras. Muitas drogas eram consumidas, uma  música agradável podia se ouvir, e o sexo rolava livre por todo o lado. Uma grande escadaria de mármore conduzia ao salão principal. Vórtex então anunciou os visitantes a Bran Sailer, rei da ilha Regaria. Ele estava em um trono, com três mulheres lindíssimas a seus pés, seminuas. Dois grifos assustadores também estavam deitados no recinto, em descando, como se fossem uma guarda pessoal do monarca.

– Salve o mensageiro de Azrael, que traz boas novas para a Ilha de Regaria! – Saudou o Rei: – Digam-me, senhores… Vieram para ficar, ou estão apenas de passagem?

– Estamos de passagem. – Respondeu Weiss.

– E planejam ficar quanto tempo? Se o Mensageiro de Azrael os trouxe aqui, são bem-vindos!

– Por pouco tempo, infelizmente. Quem sabe numa próxima vez.

– Diga a ele sobre as regras da ilha, Vórtex… – Pediu o Rei.

– Não deve haver uma próxima vez, guardião. – Explicou o mensageiro: – Poderão ficar o tempo que quiserem, mas se saírem daqui, não poderão voltar nunca mais. E quando forem embora, não poderão levar nada daqui. Essas são as regras.

– Mas e você? E Mantala? – Questionou Gian.

– Pelo Código de Regaria, somente cinco pessoas podem sair e voltar daqui livremente: o mensageiro, o mago, o guerreiro, o arqueiro e o cavaleiro. Por isso nos chamavam de Pentagrama. Nem o Rei pode sair daqui, se quiser voltar depois.

– Entendi. Se algum dia voltarmos, tenho certeza de que não será como convidado. – Respondeu o guardião, enigmático.

– Me dá só um tempinho aqui pra eu me divertir com uma deusa dessa, amigo Bier… – Sussurrou Gian, já se chegando em um grupo de lindas mulheres que aplicavam massagens umas nas outras em uma cama enorme.

Bram Sailer então bateu palmas, e uma música mais animada começou a tocar no recinto. Duas das mulheres que o cercavam começaram a praticar sexo oral no rei, se revezando ali na frente de todos. Airish continuava desconfiado, e evitou se misturar aos locais.

– Por que você me trouxe aqui, Vortex? – Questionou Weiss, se aproximando do mensageiro.

– Você precisava conhecer o motivo por qual lutamos, guardião. Enquanto vocês se arriscam por honra e uma bandeira, eu aprendi há muito tempo que a única coisa verdadeira é a satisfação pessoal.

– Mas sempre haverá luta. E precisamos tomar partido, porque assim Hagalaz o quis.

– Isso é uma ilusão. Nada o impediria de se juntar a nós. Com os poderes do guardião do Gardahal, a nossa Quadra de Ases seria imbatível. Com a morte de King Kraus, temos uma vaga aberta. E tu ainda serias o arqueiro de Regaria, podendo ir e vir quando quisesse. Aqui é onde vivem os fortes, os belos e os sábios!

– Fico lisonjeado pela oferta. Mas, assim como você, eu também trabalho para mim mesmo. E se o objetivo de vocês é manter isso aqui, definitivamente não é pra mim. Costumo ficar de saco cheio das coisas rapidamente. – Recusou Weiss, antes de perguntar: – E Mantala? O que ela ganha ou faz aqui?

– A feiticeira é a mais ambiciosa de nós. Ela só se interessa pelo poder, e tem usado nossa ilha para seu projeto pessoal. É uma relação de simbiose, benéfica para ambas as partes.

Weiss conhecia algumas pessoas que eram exatamente assim, o que obviamente não era o caso de seus companheiros. Quando olhou para o lado, Gian já participava de uma orgia com pelo menos três mulheres. E Airish ainda tentava resistir aos próprios hormônios, enquanto recebia uma reconfortante massagem nas costas de uma vilanda cavalíssima. Então o guardião fingiu que se aproximaria de uma das moças, para se afastar um pouco de Vórtex, mas sempre mantendo o mensageiro, e a cornucópia, à vista. O guardião circulou pelo Templo e tentou discretamente entrar em contato mental com os sacerdote de Hagalaz.

Quando Hal Gurion o atendeu, o guardião logo percebeu que algo estava diferente: no Gardahal, ele se comunicava com os mestres em Asgaehart, sentindo como se precisasse esperar um bom tempo por cada resposta. Ali, ao contrário, era o inverso: Gurion que parecia demorar um pouco para compreendê-lo.

“Acabei de conhecer Bran Sailer. Sabe quem ele é?” – Pensou Weiss.

“Bran Sailer?! Ele está vivo?!” – Surpreendeu-se o Mestre, com algum lapso de tempo.

“Sim. Vive como rei em uma ilha chamada Regaria, numa dimensão entre Asgaehart e o Ethereum. O que pode me dizer dele?”

“Sailer foi dado como morto logo após a exconjuração da primeira encarnação de Vehogash, no antigo ciclo selar. Era um bruxo poderoso, e também já foi um arauto de Helgar, há alguns séculos. Ele o convidou para ficar?”

“Sim. E Vórtex quer que eu me junte à Quadra de Ases”.

“Ele tentará seduzi-lo. O guardião deve saber o peso de sua responsabilidade, mas o destino a Hagalaz pertence”.

“Ele não vai conseguir. Nós vamos embora daqui”.

Weiss então se aproximou de Gian e o chamou para saírem dali. Com certeza Vórtex cumpriria o acordo. Meio contrariado, o cavaleiro da Hokhe aguardou uma das moças concluir a mamada para se levantar, bastante satisfeito. Na saída, chamaram Airish e pediram a Vórtex que os levasse de volta.

– Obrigado por tudo. – Disse Weiss: – De nossa parte, o acordo será cumprido. Não atacaremos até amanhacer.

– Parece que o acordo já foi cumprido, guardião… – Disse Vórtex, enigmático, enquanto cravava sua Adaga no chão, abrindo novamente aquela estranha profusão de formas cintilantes em tom violeta, vibrando como se estivesse rasgando o tecido da própia realidade.

Antes de passar pelo portal, Weiss Bier deu uma última olhada para aquele ambiente onírico, e pensou alto:

– Ilha da Regaria… Lugar bom.

Um segundo depois, já estavam no velho, escuro e frio Gardahal, e as malditas joaninhas se preparavam para atacar novamente.

Continua…

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