164. Guerra em Shyne
Rainha Anni De Gris, de Viktoria
Antes: 163. Confronto no Deserto
Naquele mesmo dia, enquanto a equipe de Krul vivia uma saga com passagens na Gerânia e no Deserto de Vik Temi, além do Gardahal, uma batalha de enormes proporções acontecia em Shyne. No fim da manhã, já eram estimados cerca de trinta mil mortos, feridos e fugidos entre os alamanos, especialmente entre os mercenários. E pouco mais de dez mil mortos no lado dos velgas. Entre eles, Etelmirus Dikristus, irmão dos também falecidos Suva Kaun e Marimbas, que sempre levava uma gaiola com um curió para a frente de combate. Ao menos a diferença entre as forças tinha caído significativamente.
Jules Flanagan, aos 29 anos, trajava a armadura dourada do Megatrix, consagrada há séculos pelos sumo-sacerdotes das Onze Ordens. Liderando pessoalmente o primeiro pelotão na segunda etapa da batalha de Shyne, um dos mais antigos ex-cadetes da Academia de Flâmages agora pretendia romper as muralhas da cidadela, para a invasão final das cavalarias.
Após um início avassalador das tropas comandadas por Jules, no início da tarde Dokhe e Hokhe já tinham destruído todas as defesas da planície, e tomado conta do porto. Pouco depois, no entanto, com o avanço de tropas bárbaras inicialmene posisionadas no Bosque Morto, as forças de Ighan tinham equilibrado o combate, e resistiram ao sítio, ocupando o entorno da cidadela de Shyne.
Para alcançar seus objetivos, Jules contou com uma tropa vinda de Yaztrik, além de cinco mil cavaleiros da távola céltika, conduzidos pessoalmente pela Rainha Anni de Viktoria, mãe de Ighan, agora uma linda mulher de 44 anos. E ainda guardava na manga uma arma secreta: doze gigantes escravizados mentalmente pelos feiticeiros de Dankel, que eram usados para a proteção do tesouro dos senadores no labirinto dos Verofortes.
No fim da tarde, houve uma breve interrupção das ações, de ambos os lados. Mas a carnificina recomeçou no início da noite, quando o Megatrix aproveitou uma neblina densa, acompanhada de frio e uma chuva fina, para atacar com força total o grande exército liderado pelo também jovem Rei Ighan Pendragon, o Mestiço, autoproclamado Imperador do Oriente. Agora as forças velas tinham empurrado a defesa para o interior da cidadela.
Naquele ritmo, antes do fim da manhã, com certeza, a batalha chegaria à etapa derradeira, já nas portas do castelo do Marquês de Shyne. E Jules Flanagan contava com isso. A fase final do combate seria duríssima, provavelmente uma guerra de guerrilha na cidadela, e alguns Gigantrixes já cogitavam que Dokhe e Hokhe sitiasse a área por mais tempo, obrigando a uma rendição por esgotamento de recursos. Mas o Megatrix temia que o inimigo pudesse recompor a defesa se fossem muito cautelosos.
De fato, considerando o contexto da batalha naquele momento, se nenhuma intervenção externa ocorresse para o socorro dos bárbaros e seus aliados mercenários, Jules sabia que logo faria os inimigos baixarem a cabeça. E se abaixassem a cabeça, ele os poria de joelhos. E quando estivessem de joelhos, o Megatrix cortaria suas cabeças. Bastava romper as muralhas. E para isso precisava dos gigantes. Mas para usá-los, a missão de Krul tinha que ser bem sucedida.
E a intervenção externa veio, mas a favor dos velgas. Weiss Bier chegou ao acampamento em Shyne carregando uma porrada de armas, e completamente moído de cansaço. Nenhuma criatura do Gardahal tinha lhe incomodado naquela longa e silenciosa caminhada. Enquanto andava, pensou no quanto o trabalho de guardião era cansativo, mas também era animado. Teria muitas histórias pra contar na taberna de sua família em Joy Divile.
– Preciso falar com Jules. – Disse o guardião, quando apareceu do nada perto de um destacamento da retaguarda.
O Megatrix estava participando de uma reunião com os demais oficiais presentes na tenda de campanha, no meio de mais uma pequena interrupção das ações, à noite. Jules estava ansioso para saber se poderiam atacar com os gigantes, sem a preocupação de que Ighan fizesse uso da cornucópia para controlá-los. Weiss então sintetizou a missão para os oficiais, e o Megatrix ponderou:
– Podemos cumprir nossa parte do acordo, se vencermos. Mas se Vórtex entregar a cornucópia para Ighan, será quase impossível romper a muralha. – Avaliou Jules, que tinha uma enorme ferida na testa.
– Mas ele vai cumprir o acordo. – Garantiu o arqueiro de Joy Divile: – Ele fez um acordo com o guardião de Hagalaz, e sabe disso.
Os Gigantrix presentes estavam sujos, feridos e ensanguentados, e começaram a discutir entre si:
– Vamos confiar num mercenário que vende seus serviços para os bárbaros? – Questionou Martin McFerris, ressabiado, antes de perguntar: – E onde está Krul?
– Morto em combate, senhor, infelizmente. O general fez tudo o que podia para que tivéssemos sucesso na missão. – Respondeu Weiss, tristemente, baixando os olhos: – O Gargo Otu Bek também teve o mesmo destino.
Os Gigantrixes da Dokhe então se levantaram e fecharam os olhos por um tempo. Todos ali se levantaram a seguir, incluindo o Megatrix, e repetiram o ritual de luto da Antiga Religião.
– Senhores, temos de honrar a memória do General Krul Petersen, a quem eu tinha como um pai. – Clamou Jules: – Confiando ou não na palavra do mercenário, devemos a Krul e Otu a vitória.
– A vantagem agora é nossa. Temo que aguardar a manhã pode dar tempo para o inimigo se reforçar. – Suspeitou a general Elena de Aquitan.
– Não vamos aguardar a manhã. – Pontuou o Megatrix: – Vamos mandar uma equipe lá pra dentro do Castelo, para garantir que o acordo seja cumprido. E se não for, invadiremos.
Jules olhou para Weiss Bier, que àquela altura já torcia para descansar, mas percebeu que o Megatrix contava com ele para mais uma missão. Os sintomas da ressaca pesada da poeira cristal já estavam começando, estava absurdamente cansado da caminhada no Gardahal, e ainda tinha as pernas secas. Tava só o pó da rabiola, mas era o guardião. E ninguém melhor pra se infiltrar em qualquer lugar do que o guardião do Gardahal.
Ali mesmo reuniram uma equipe para a inflitração no castelo: além de Weiss, o Megatrix convocou a sacerdotisa Andressa de Aquitan, o Destinado Gian Partenopolus, que era nativo da região e conhecia bem o castelo de Shyne, e o Gargo Airish, um tigunar de Joy Divile, para quem ele concedeu a Espada de Hefestus trazida pelo guardião.
Enquanto isso, em um remoto rincão nos Piktos, Eris Van Vossen tratava dos ferimentos e diversas contusões de Mit Maikon, assim como de sua montaria alada gigante, o Raven pardo. Com a ajuda dos unguentos da feiticeira, o enorme pássaro estaria recuperado para voar na manhã seguinte. Já o arauto de Hoguz precisaria de mais tempo para se recuperar do que parecia ser um estado de coma. Owen Petersen então decidiu que seria melhor acamparem por ali, e tratou de providenciar uma fogueira e alguma carne de caça. De manhã, poderiam retornar a Darklands, que ficava ali do outro lado da cordilheira.
Continua…
