166. As Quatro Partes do Hag Escarlate

O Hag Escarlate

Antes: 165. Incêndio no Armazém

No início daquela madrugada, Haia Kahn e Melvis Merlin tinham chegado ao Templo Escarlate na Gerânia, levados pelos arautos de Milenor após um confronto mortal contra feras demoníacas. Eram doze os guardiões do Deus do Tempo, mas uma das vagas já estava aberta, e dois cavaleiros tinham morrido na luta contra os demolobos. E os nove restantes estavam reunidos no Templo, para decidir o que fazer.

Centurion, o cavaleiro mais velho, logo entrou no Santuário Escarlate, uma câmara no Templo acessível apenas aos arautos, e onde ocorriam as manifestações do Espectro Escarlate, o espírito que orientava a Ordem. Quando retornou, o arauto decano estava visivelmente apreensivo:

– O espectro confirmou a profecia. A Ilha será condenada por meio século. E se não tomarmos uma medida drástica, toda Asgaehart será tomada por Tarash e seus filhos.

Os demais cavaleiros estavam tensos, enquanto Centurion continuou:

– O espectro ordenou que o Hag Escarlate seja usado.

Todos ali se espantaram, pois o Hag era a peça mais poderosa daquele Templo. Talvez fosse a peça mais poderosa de toda Asgahart. Um símbolo místico, composto de material desconhecido, estranha mistura de metal e cristal de um vermelho vivo, formado por quatro peças destacáveis. Cada uma delas deveria ser lançada o mais rápido possível nos quatro mares que cercavam a ilha da Gerânia, de forma a conjurar uma barreira invisível que impedisse Tarash e sua prole de saírem de lá.

– Mas, Centurion… Sem a presença do Hag aqui no Templo, como a Ordem poderá sobreviver? – Avaliou Ganga, sem receber uma resposta.

Os Escarlates já discutiam como se dividiram para a missão, quando Centurion questionou Haia e Merlin.

– Podemos contar com vocês?

O DK da Dokhe aceitou de pronto o desafio. De onde estavam, no centro da ilha, os voos para leste e oeste seriam um tiro curto, de pouco mais de 10 quilômetros, com algum risco de topar com as criaturas demoníacas. Centurion escalou dois Cavaleiros para lançar um quarto do Hag em cada costa: no Mar de Galen e no Mar da Gerânia. Para o sul, em direção ao Mar do Norte, cujo voo seria mais longo, mas possivelmente tranquilo, pela provável ausência de demônios, seguiriam apenas Maltus Horing e Melvis Merlin. De lá, o necromante da Bruma poderia seguir para casa. Como seu estandarte do Tiwaz já estava completamente descarregado, Haia o entregou para seu companheiro, que poderia entregá-lo o mais rápido possíve para os sacerdotes de Travel.

Lançar a peça do Hag no litoral norte é que seria pica. Àquela altura, Tarash e seus demolobos estavam aterrorizando a região, e procriando. Procriando sem parar. Por isso, seriam cinco naquela missão. Quatro Escarlates: o próprio Centurion, Tan Hauser, Ganga e Zivi San, e Haia Kahn. Quando estava deixando o templo, voando na garupa do Raven do arauto mais velho, o cavaleiro da Bruma perguntou:

– Como matar ou deter Tarash?

– Quando ela era apenas um embrião, os sacerdotes de Hiniar tinham a fórmula. Mas agora… Que Hagalaz nos proteja a todos. – Respondeu Centurion, resignado.

Em cerca de meia hora, chegariam ao destino. Mais ou menos o mesmo tempo em que Maltus Horing e Merlin levaram para alcançar o Mar do Norte, ao sul da ilha. Mas os dois logo sentiram que o clima na região estava diferente. Os animais noturnos estavam bem mais quietos do que era de costume. Quando sobrevoavam a floresta, logo após descerem as montanhas, a poucos minutos da costa, o Escarlate viu dois demolobos voando por perto, a estibordo, e se aproximando na direção deles. Aquelas criaturas desgraçadas já tinham chegado ali.

Maltus Horing, que tinha poderes elementais de comunicação com os animais, tentou obter ajuda, mas todos os bichos ali estavam aterrorizados demais para atendê-lo. Ele teria de dominá-los mentalmente para obrigá-los a agir, o que não conseguiria fazer com mais de um ao mesmo tempo. O Cavaleiro Escarlate então pediu a Melin para se segurar, e alçou voo com o Raven para uma grande altitude. Os demolobos pareciam não alcançar o mesmo teto, e passaram a acompanhá-los voando bem mais baixo.

– Essa missão é minha, Merlin. Vou saltar com o Hag na mão. – Avisou Maltus, já começando a descer com o Raven, assim que avistou o mar: – Quando eu mergulhar, o Raven Escarlate o levará para o continente.

Era madrugada, mas o céu estava be iluminado por Luna, a lua azul de Asgaehart. Sela e Heva estavam alinhadas no horizonte, em fases minguantes. Assim que o Raven desceu a uma altura de cem metros, os demolobos voaram para atacá-lo, uivando de raiva, e Maltus pulou. No mesmo instante, Merlin lançou uma bruma de fuga, o que escureceu tudo ao redor do cavaleiro em queda. Protegido pelo breu, o arauto de Milenor alcançaria o mar em poucos segundos, enquanto o Raven se elevou novamente ao alto.

Merlin então ouviu um estranho som de tensão energética, como se toda aquela água embaixo deles estivesse vibrando, e um fulgaz brilho cintilante tomou o céu, o que literalmente incinerou os demolobos, que voavam desorientados no escuro. Mas Maltus Horing tinha abraçado seu destino. Mesmo com a armadura escarlate, um mergulho na água daquela altura era o mesmo que cair num chão de pedra. E ele ainda tinha acionado o poder de um quarto do Hag em contato com a água, o que tinha liberado uma energia monumental pelo ar.

Enquanto voava pelo Mar do Norte em direção ao continente, Merlin olhou para trás e viu os despojos do Cavaleiro Escarlate brilhando na água. Por um momento, até pensou em catar suas coisas, mas preferiu seguir adiante. Em Fleissig, o necromante da Bruma deixou os estandartes do Tiwaz no templo de Travel e se informou sobre as movimentações na guerra, mas decidiu passar o resto da madrugada ali. Estava cansado demais. Na manhã seguinte, rumaria a Joy Divile, se ainda precisassem dele.

Já na missão dos Escarlates para o norte, a conversa era bem diferente. Comunicando-se através de um elo mental, em que tinham incluído Haia Kahn, os arautos do deus do Tempo planejavam suas ações enquanto voavam para o norte.

– Vamos ser honestos, cavalheiros. Se partirmos direto para a costa de Geran, a própria Tarash pode nos receber. Se tentarmos lançar a peça nas águas mais ao norte, seus demolobos nos caçarão pelas montanhas. Preferem a agonia rápida ou lento sofrimento? – Questionou Centurion.

– Mais ao norte. Depois pegaremos Tarash. – Disse Zivi San, que era um ileano pequeno, mas absurdamente rápido. Além da Espada Escarlate, carregava uma grande variedade de lâminas de arremesso.

– Pegaremos? O inverso é bem mais provável, Zivi. – Respondeu o arauto mais velho.

– Se encontrarmos Tarash, melhor. Não devemos perder mais tempo em lançar a proteção do Hag sobre a ilha, pois em breve aquelas criaturas escaparão para o continente. – Pontificou Tan Hauser.

Com exceção de Zivi, o resto dos arautos de Milenor concordou com Hauser, que também carregava um tipo de foice enorme, a arma que usava para conjurar ventos e furacões.

– Então vamos a Geran. Em frente, como deve ser. Somos os arautos de Milenor, os cavaleiros da Ordem Escarlate. – Decidiu Centurion, mantendo o rumo de sua montaria alada.

Em poucos minutos, o grupo já conseguia ver as muralhas da cidadela litorânea. E também viu uma alcateia de cinco criaturas demoníacas alçando voo para alcançá-los. Não era Tarash, mas apenas seu cartão de visita.

Continua…

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