162. O Guardião e o Mensageiro
Vortex com a Adaga do Mensageiro
Antes: 161. Ataque dos Demolobos
No limbo, Weiss se impressionou com a visão de Mantala usando mais uma de suas magias incríveis, e perguntou-se como aquilo não era uma profanação do Gardahal, e por que Olhos Negros não tinha reagido. As centopeias de areia já estavam se levantando novamete, mas na direção deles, ignorando os outros dois visitantes do limbo.
Ainda bem distante de onde estavam, viram quando o portal cintilante lilás se apagou. A feiticeira e o mascarado continuavam lá, no entanto. Ela, literalmente flutuando em um globo translúcido. De alguma forma, os seres guardiões do Gardahal não a percebiam dentro daquela bolha de energia. Já ele andava por lá despreocupado, como Weiss.
– Saiam daqui. – Disse o guardião, enquanto tentava contatar telepaticamente os mestres do Templo.
Quando seus companheiros deixaram o Gardahal, as centopeias se recolheram. O limbo voltou a ser o lugar calmo e silencioso de sempre. Weiss então se conectou com Jason Saga:
“Quem mais além de mim tem a permissão de Hagalaz para andar no Gardahal?” – Questionou objetivamente.
“Somente o guardião e os mensageiros têm autorização do anjo negro de Hagalaz para entrar na dimensão sagrada” – Respondeu o sacerdote.
“Quem são os mensageiros?”
“Uma ordem mística. Há mais de quinhentos anos, o anjo negro de Hagalaz permitiu que os anões de Blantor construíssem as Adagas Vortex, um punhal que, quando cravado na terra, abriria um portal para o Gardahal. Com dois punhais, seria possível abrir portais dimensionais dentro de um mesmo lugar, de um ponto a outro, seja em Asgaehart ou no Gardahal. Os portadores dos punhais foram conhecidos como Mensageiros de Azrael, reino que estava lutando contra a primeira vinda do demônio chamado de Vehogash. Após a derrota do príncipe das trevas, o anjo negro permitiu que os punhais ficassem com os mensageiros, desde que jamais profanassem o lugar” – Explicou o mestre.
“Acho que encontrei um deles aqui” – Disse Weiss.
“Na batalha final contra as hordas demoníacas, quando as Colunas de Echen foram destruídas, acreditava-se que todos os mensageiros tinham sido mortos, e os punhais destruídos” – Disse Saga, surpreso com a notícia.
“E esse cara tem dois punhais…” – Refletiu o guardião, antes de continuar: “Por que o mensageiro traria uma feiticeira para cá? E por que ela não está sendo detectada?”
“Só há uma outra possibilidade: ela deve ter aprendido esse conhecimento no próprio Gardahal: o Globo de Liz” – Sugeriu Saga.
“O que é isso?”
“Uma punição do Vale dos Abandonados. O Globo impede que qualquer coisa do ambiente externo o penetre, mas permite que energias possam sair de dentro dele” – Disse Saga, completando: “Um mago poderia fazer levitá-lo sobre a terra e sobre os mares”.
“O que posso fazer para vencer o mensageiro?” – Perguntou Weiss.
“Não acho que o guardião deva lutar com um mensageiro, meu jovem”.
“Dever é forte… Mas talvez seja inevitável”.
“Talvez. Siga seu destino, guardião. Que Hagalaz o guie!”
“Obrigado, Saga”. – Disse Weiss, sendo que resmungava internamente do tanto que ainda teria de aprender sobre aquela dimensão.
Com calma, o guardião do Gardahal então caminhou calmamente até onde o mascarado e a feiticeira se encontravam. Ela parecia em transe, flutuando no alto, sentada em posição de lótus. Quando Weiss já estava bem perto, o mascarado falou com ele, em velga, mas com forte sotaque gaulês:
– Eu estava ansioso para conhecê-lo, Gardien… Vejo que tem trazido seus amis para o nosso lugar preferido.
– Devia ter ido ao bar dos Bier em Joy Divile. Tô sempre lá.
O mensageiro sorriu com a piada, mas não deixa de devolver a provocação:
– Bom que estejas de bom humor. A vinda do guardião sempre precede grandes tragédias.
– E qual seria a grande tragédia? Minha única pista de tragédias leva até você e seus amigos. Como o sequestro e morte daqueles inocentes.
– Não tenho amigos. Sou um mensageiro de Azrael. O que faço aqui é apenas um trabalho. E ninguém é inocente.
– Trabalha pra ela agora? – Diz Weiss, indicando Mantala?
– Não. Eu trabalho para mim mesmo. E ela tem seus próprios objetivos.
– Mas alguém está pagando vocês.
– Sempre há quem possa pagar.
– Sempre há quem trabalha por moedas. Uma queda deprimente para um mensageiro.
– Minha vida tornou-se muito cara através dos séculos, guardião. Confesso que talvez seja uma falha de caráter.
– Parabéns. Já a minha vida nunca custou muita coisa… Qual o seu nome, mensageiro?
– Pode me chamar de Vórtex. É o nome dessa adaga, você já deve saber. Mas cabe muito bem para a minha personalidade.
– Quanto você quer para trocar de lado, Vórtex?
– Mais do que poderiam pagar. Lembra do tesouro que roubamos em Dankel? Ighan nos ofereceu a metade. Seriam pelo menos mais dez anos sem que eu precisasse trabalhar.
– E se eu lhe garantir quinze anos?
– Tu não conseguirás. Todos eles torraram suas fortunas com a guerra< _ Argumentou Vortex, concluindo: – E amanhã tudo dependerá de quem ganhará essa guerra.
– Nós ganharemos.
– Pode ser. Mas eu não preciso lutar com você, guardião. E acho que a sua luta também não é essa.
Weiss tirou o capuz e voltou a Asgahart. Para seus companheiros, que tinham retornado antes, nem um minuto havia se passado. Mas eles ainda estavam distantes dali. Krul, Otu e Mit tinham decidido correr na direção da escavação, suportando os efeitos adversos. Eris e Owen ficaram na retaguarda, no limite da zona crítica. Otu mandou mais uma dose de poeira cristal, o que praticamente o deixou anestesiado e completamente enfurecido. Até mesmo Krul, sentindo o drama da situação, pediu duas doses para o vilando e meteu o nariz no pozinho azulado.
– Que isso, meu general! – Surpreendeu-se Otu.
O guardião agora se encontrava à borda do grande buraco na areia que agora era escavado apenas pelo monstruoso Stonehand, que já tinha quase toda sua pele petrificada, e pelo arauto de Helgar, King Kraus. Imediatamente, Weiss começou a sentir os efeitos de ressecamento na pele, e sua força sendo drenada. Nenhuma magia funcionaria ali. Qualquer ação teria de ser na grosseria. Resolveu também que daria uma cafungada máxima na poeira cristal para garantir um último levante.
Quando Stonehand finalmente pareceu desenterrar algo, Weiss engatilhou uma flecha e mirou no coração do gigante, cujo tronco ainda não tinha se petrificado completamente. O tiro seria certeiro, se King Kraus não tivesse reagido imediatamente arremessando sua espada para desviar a seta. Agora Weiss podia ver bem: Stonehand tinha achado a espada de Hefestus. Só faltava a cornucópia.
Continua…

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