161. Ataque dos Demolobos

Demolobo

Antes: 160. Trabalho Forçado

Geran era a única cidadela civilizada naquela ilha onde aconteciam coisas que até os deuses duvidavam. Seu status político era de cidade estado livre, dominada pelos ricos do lugar, no estilo da cleptocracia de Dankel. Mas não tinha um Senado, nem distinções especiais de classe. Fundada por piratas gauleses e velgas no primeiro século, num enorme pontal de penhasco que avançava sobre o mar, tinha a vantagem de que nenhum poder, amigo ou inimigo, jamais cobiçou qualquer pedaço de terra na Gerânia. Aquele isolamento relativo permitia a manutenção de um certo espírito anárquico em sua sociedade, onde quem podia mandava mais.

Na prática, a cidade era comandada pelos líderes dos diversos clãs, que eram chamados de patriarcas e matriarcas, e que tomavam decisões na Assembleia dos Livres. A língua velga e seus dialetos eram amplamente utilizados, assim como o gaulês e até mesmo o idioma bárbaro. Os meninos informaram a Haia e Merlin que seus pais eram feirantes na cidadela baixa. Cidadãos livres, mas pobres.

A tal Assembleia ficava em um castelo encravado no lato de uma ilha rochosa costeira, ligada à cidade alta do penhasco por uma estreita ponte de pedra. Ao nível do mar, havia uma cidadela fortificada, histórica, que também servia como porto.

Quando Haia e Merlin chegaram até a casa humilde das crianças, localizada em uma vila nos arredores da cidade alta, foram recebidos com muita gratidão pelos pais. Tinham sido levadas quando estavam catando ovos de pato para o jantar, nas praias rochosas perto da cidadela. Já não tinham mais esperanças de que retornassem. Emocionado, o pai dos meninos clama:

– Os deuses vão abençoar a insígnia de vocês. – Disse apontando para o distintivo da Dokhe no ombro de Haia.

– Tome mais cuidado com as crianças. – Advertiu Merlin.

De lá, desceram para o porto, onde havia saídas frequentes para Cibel e Gaules. Para Fleissig, no entanto, só poderiam viajar na manhã seguinte. Havia muito receio em toda a região, por conta da guerra em Shyne. Haia e Merlin aguardariam por ali até a manhã seguinte, acampados no porto, se não ocorresse o que se deu a seguir, pouco depois que o sol se pôs.

O caos se instalou na cidade estado de Geran, por conta do ataque de criaturas demoníacas aterrorizantes: um tipo de lobo demoníaco, com chifres, garras, presas afiadas, asas de morcego e olhos vermelhos, que voava rasteiro e muito rápido. Os bichos estavam dizimando geral. E pareciam muitos, pelo menos uns dez.

– Caralho! – Exclamou Haia, quando viu a criatura de longe.

Alguns dos demônios já desciam da parte alta para a área do porto, onde estavam os cavaleiros da Bruma. Merlin viu quando um deles arrancou o braço de um tigunar com uma mordida, enquanto o pobre homem tentava fugir descendo para a cidadela baixa. Ao redor, perceberam que o clima já era de dedo no cu e gritaria.

Os demolobos já avançavam no porto, arrancando cabeças e decepando braços e pernas com as garras. Muitas pessoas já tentavam fugir de barco. O desespero era generalizado. Uma da feras avançou agressivamente na direção de Haia e Merlin, que botaram em ação um plano improvisado segundos antes: Merlin arremessou uma bruma de brilho, mas o bicho simplesmente a ignorou sem problemas, voando ligeiro, o que fodeu o plano em segundos.

Haia tentou se defender com o escudo, mas acabou ferido pelas garras do bicho, que lhe tiraram mais um pouco de sangue. Quando o demolobo deu a volta e retomou o ataque, o cavaleiro cravou no chão e acionou o estandarte do Tiwaz, que emitiu um campo esférico de luz azulada  transparente entre eles e a fera, num raio de 50 metros.

O bicho então se espatifou na barreira semi invisívekl, mas logo se recompôs, urrou de raiva e pegou impulso para voar para o lado, de forma a contornar aquela proteção. A situação já era demasiado crítica quando Haia e Mwerlin viram a própria Tarash se aproximando da cidadela.

Já era uma mulher feita, ou melhor, uma demónia feita, uma rainha súcubus, bea, poderosa e fatal, voando nua com sua pele vermelha, olhos flamejantes e asas de dragão. Aterrorizado, o necromante percebeu que ela podia lanças fluxos direcionados de energia infernal pelas mãos, como os da manopla desenvolvida por Imperatrix, e que ele carregava. Mas ele só tinha uma carga, enquanto as dela eram aparentemente infinitas.

Merlin logo avaliou que não tinham a menor condição de encarar aquilo. A olução seria meter quantas brumas de fuga fossem necessárias para meter o pé dali o mais rápido possível. E foi o que fizeram, praticamente esgotando o estoque de amabos, o que confundiu os bichos até que conseguiram se esconder na água, embaixo de um pier de madeira, no porto.

De lá, entocados em silêncio, protegidos pela noite que caía rápido, Merlin e Haia escutaram os sons de uma verdadeira carnificina causada pelos demolobos na população do porto de Geran. Os bichos parecem estraçalhar tudo que se movia: gente ou animais. Após um tempo, que não foi muito, já não se ouvia mais nada, nem choro, nem dedo no cu, nem gritaria. Com algum esforço, escutava-se apenas o surdo mastigar de mandíbulas triturando carne e ossos humanos.

Agoniados, os dois aguardaram por um longo tempo, até que finalmente ouviram barulhos diferentes, como se uma luta tivesse se iniciado. Com cuidado, Merlin tirou a cabeça para fora do pier, e conseguiu ver um cavaleiro escarlate, os bravos arautos de Milenor, em confronto com a fera. Se Templo ficava ali perto, no alto das Montanhas Escarlates, no centro da ilha.  

De longe, o necromante viu outros dois demolobos se aproximando. O arauto percebeu o perigo e se esforçou para matar a criatura demoníaca com que lutava com um golpe de espada que perfurou a goela do bicho. Um sangue escuro jorrava do ferimento do demônio, que se espatifou no chão. Então o arauto começou a ter dificuldades lutando contra duas feras.

Merlin e Haia decidiram sair do entoque para ajudar o Escarlate. Um dos bichos avançou na direção deles, e no primeiro ataque já conseguiu derrubar o cavaleiro e arrancar sangue do necromante, que imediatamente acionou o escudo de força do Tiwaz, fincando o estandarte no chão.

A fera demoníaca novamente voou para contornar a barreira translúcida, urrando de raiva. Enquanto isso, o Cavaleiro Escarlate, ferido e já aparentando cansaço, começava a levar um prejuízo do demolobo.

Merlin lembrou da manopla. Mas, ao contrário dos seres vivos, lembrou que no colegiado alguns ensinavam que em demônios a Aurora da Morte seria como um banho reconfortante. Em Tarash, talvez, pensou ele. Mas aquelas criaturas deviam ser híbridas. Quando a fera finalmente deu a volta e voltou a atacá-lo, liberou a energia infernal.

Os alguns no colegiado de Bruxel tinham razão. Ou quase. Não funcionou apenas como um banho, mas principalmente como um fermento ou anabolizante. A criatura urrou, mas de prazer, metamorfoseando-se numa besta ainda maior e mais apavorante, com jubas de um leão flamejante, mais chifres e uma sinistra garra de escorpião. Revigorado, o monstro atacou Merlin furiosamente com uma das garras, que lanharam seu rosto e o levaram a nocaute.

O necromante não teve tempo de ver o cavaleiro Escarlate ser morto pela fera com que estava lutando. Quando Haia se viu sozinho, de cu na mão contra duas criaturas, sendo que uma delas ainda mais monstruosa, por um momento pensou que era o fim. Mas aí viu três ravens escarlates chegando no porto com seus respectivos cavaleiros, e abriu novamente o escudo do Tiwaz, queimando sua penúltima carga de Xart.

Os Cavaleiros Escarlates então saltaram dos ravens e se adiantaram para auxiliar Haia. Os alados escarlates eram bem menores que os pardos de Hoguz, o que não ajudaria em um combate aéreo contra aquelas criaturas demoníacas. Merlin acordou, ainda grogue da porrada. Enquanto os três arautos de milenor enfrentavam as duas feras restantes, Haia correu até o cadáver do Escarlate morto e pegou sua espada lendária. Só de segurá-la, ele já podia sentir o poder divino.

Mas aquela vantagem seria passageira. Ao longe, todos avistam mais seis demolobos voando para lá. E o pior: a demobesta tinha acabado de matar um dos cavaleiros recém-chegados. Haia e Merlin se juntaram à briga, acionando os escudos ao mesmo tempo, o que por um momento impediu o ataque dos demônios, impressionando os arautos com o poder do Tiwaz.

Quando os demolobos se juntaram ali, e começaram a voar para contornar o campo de proteção, uma ventania começou a soprar forte na área.

– Tan Hauser! Graças a Milenor, meu amigo! – Gritou um dos cavaleiros Escarlates, aliviado com o início da intervenção mais do que especial do companheiro, antes de alertar aos demais aliados: – Agarrem-se!

A ventania logo se transformou em um vendaval, que continuou aumentando, até alcançar a força de um furacão, arrastando os demônios pra muito longe dali. Para não serem levados, Merlin e Haia se ancoraram nos estandartes, que estabeleciam uma conexão poderosa com o solo, quando ativos.

– Armis e Stepenhaus estão mortos. – Disse um dos cavaleiros, que se chamava Centurion, parecendo muito preocupado com a situação.

– Temos de sair daqui e voltar para o templo. Parece que o espectro escarlate estava correto. – Disse o outro, que chamavam de Ganga.

Tan Hauser continuava calado. Era um sujeito de poucas palavras.

– Vocês tem que vir conosco. Se estivermos certos, a ilha está condenada. O Templo Escarlate é o único local seguro agora.

Montados nos ravens escarlates, Tan Hauser, Centurion e Ganga levaram Haia e Merlin para o templo sagrado dos arautos de Milenor no alto do Monte Delírio, nas Montanhas Escarlates, bem no centro da ilha. Já era madrugada quando chegaram.

Deixe uma resposta