158. Merlin e Haia contra os vagabundos
Vagabundo ileano
Antes: 157. Equipe (quase) reunida
Quando a equipe de Krul Petersen chegou à Van Hal, no meio da noite, o general convocou dois novos integrantes para substituir Haia e Merlin:
O Gargo Gigantrix Owen Petersen, seu sobrinho, atual chefe da bruma, e a “ruiva” Eris, filha do lendário Erik Van Vossen, uma sacerdotisa elemental da deusa Virgo.
Após uma breve conferência, Weiss Bier pediu à Eris para dar um jeito em suas pernas, caso contrário não poderia seguir. A feiticeira elemental lhe informou que poderia curá-lo rápido, mas suas pernas secariam, a área dos ferimentos se cobriria de quelóides, e a pele ao redor se deformaria. Força e a mobilidade não seriam prejudicadas. Com essa garantia, o guardião se submeteu ao tratamento com os unguentos especiais da filha do falecido Erik, e viu suas pernas serem magicamente curadas, ao troco de uma aparência prejudicada.
Os dois pareciam bem preocupados com a missão no deserto:
– A parada está num sifão de magia. Magos serão prejudicados. – Pontuou o guardião, agora recuperado.
– Pois pode ser o contrário. Lá já deve ter captado muita energia mística. É possível que um conhecedor das artes fique ainda mais forte perto desse lugar… – Disse Eris.
– Se é sifão, rouba magia. Eu não iria lá se fosse você. – Replicou Weiss, provocando: – Mas é contigo mermo. Eu não sou mago, nem sacerdote.
– Nem eu. Mas você é um arauto. E sua capa também tem magia… – Observou Krul.
– Se for assim, você também não pode ir lá carregando esse arco balestra do Tiwaz. – Disse Weiss.
– Pois é. Todos estamos expostos. Temos de achar um jeito de evitar esse sifão e rastrear a cornucópia. Senão vai rodar geral. – Definiu o general.
– Mas o importante era saber a localização. – Continuou Eris: – O sifão deve ser causado pela cornucópia!
– Também acho. – Concordou Krul: – Mas preciso dormir um pouco. Hoje já fui quase devorado por formigas, arrastado por um cavalo e escorraçado por anões. Já deu. Mande algum batedor da Bruma para lá agora, Owen. Depois nós o encontraremos.
– Temos apenas um homem de plantão, senhor. Todos os outros foram mobilizados na campanha de Jules. – Respondeu Owen: – Mandarei ele pro deserto agora.
– Se estiverem viajando a cavalo após o desembarque em Eredra, a Quadra de Ases deve ter chegado ao Viki-temi agora de noite. – Observou Mit.
– Uma hora de descanso será suficiente. Partiremos antes de amanhecer, no Raven. – Afirmou o general, já se retirando para um aposento confortável na sede da Dokhe em Van hal, onde passsaria a próxima hora internado com a jovem Lyn Haramis, fazendo muitas coisas, menos descansar.
Naquela mesma madrugada, Jules Flanagan comandaria o ataque decisivo a Shyne. Usando muitas brumas de brilho e fuga, além de bombas com óleo incendiário, o Megatrix não chegou a surpreender o Rei Mestiço, mas demonstrou coragem e bravura indômitas, e que aquela não seria apenas mais uma batalha.
Enquanto isso, na Gerânia, antes dos primeiros raios de sol da manhã seguinte, Merlin resolveu atravessar a velha ponte de madeira sobre o Rio Sigred, com as crianças. Era uma construção bem velha, apodrecida, toda tomada por vegetação. Quando se aproximou, Merlin viu dois vagabundos de raça ileana dormindo entocados na copa de uma das árvores que crescia em um banco no meio do rio, e que na atual circunstância servia de apoio para a ponte.
O necromante então se ligou que tinha sido uma ótima decisão não atravessar aquela ponte à noite. Os sujeitos estavam ali provavelmente de tocaia para pegar os incautos. A passagem era estreita, com cerca de um metro e meio de largura. Com cuidado, Merlin conduziu as crianças para um entoque atrás da vegetação que tomava a margem do rio.
Quando o sol se levantou, os vagabundos acordaram. Merlin então espiou quando um deles desferiu uma bordoada no outro, e começaram a discutir. Pouco depois, os vagabundos deixaram a ponte em direção à Hanzi-Radnar, passando em frente aos arbustos onde Merlin estava escondido com os moleques velgas. O necromante pensou em atravessar a ponte, mas resolveu continuar ali entocado, pois eles poderiam voltar.
Naquele momento, Haia Kahn já estava seguindo na mesma trilha, no rastro de Merlin. O cavaleiro da Bruma estava atento a armadilhas, e cerca de uma hora depois, percebeu um leve movimento num arbusto a vinte metros, à beira da trilha. Quando começou a entender o que estava ali, tomou uma pedrada na cabeça extremamente doída, que o deixou zonzo a ponto de cair no chão, e quase o nocauteou.
– Taquiupariu! – Reagiu Haia, quando viu o vagabundo ileano segurando o estilingue que tinha lhe varado a pedrada.
Um outro vagabundo saiu do mato e partiu para cima de Haia, com um porrete na mão. E o primeiro já preparava outra pedra na atiradeira. O cavaleiro então lançou uma bruma de fuga, que escureceu tudo ao redor, e mais outra bruma de sono, que não os atingiu. Haia escutou os vagabundos gritando entre si, num dialeto velga do oriente. Aproveitando a confusão, ele se escondeu atrás de uma pedra à beira da trilha, em meio à vegetação arbustiva.
Só então Haia percebeu que o sangue jorrava de sua testa, por causa da pedrada. Olhou pro estandarte do Tiwaz que carregava. Não tinha usado nenhuma das cargas até ali, esperando o confronto com a Quadra de Ases, mas já estava todo arrebentado. Quando a bruma de fuga dissipou completamente, algus minutos depois, os vagabundos já não estavam mais ali. Resiliente, continuou seguindo atrás de seu DK.
Naquele momento, os ileanos tinham voltado pela trilha ao abrigo da ponte, onde foram novamente vistos por Merlin, que ainda estava escondido. Os dois vagabundos continuavam discutindo muito entre si. Pouco depois, Haia apareceu ali, e Merlin conseguu alertá-lo antes de que ele atravessasse a ponte. Os dois se reuniram no entoque, e o necromante explicou ao companheiro a situação ali.
Os cavaleiros da equipe de elite conversaram sobre o que fazer para avançar, sentindo-se meio constrangidos em usar o poder dos estandartes do Tiwaz, capaz de deter um dragão de fogo, contra mendigos vagabundos e suas pedradas de estilingue. Mas o fato é que até agora aquilo tinha sido inútil, apenas um trambolho sendo carregado para todo o lado. Decidiram então atacar de surpresa lançando brumas de sono, que apagam os dois sujeitos.
O abrigo dos mendigos ileanos fedia a mijo e merda de gente. Só havia trapos e quinquilharias ali, além de armas muito rústicas, como estilingues e porretes. Um dos ileanos levava três moedas de prata, que Haia confiscou, e só. Em meio à copa da árvore, que invadia a lateral da ponte, os vagabundos tinham improvisado um piso com ripas de galhos e palha, absurdamente fedorento.
Merlin degolou os dois, mas não se interessou em ver suas memórias. Quando as crianças velgas viram os cadáveres, puderam reconhecê-los como membros da gangue que tinham os raptado em Geran. Os dois ileanos que Krul tinha matado antes, no Grid Les Path, haviam sido incumbido de vendê-las em Hanzi-Radnar.
Após finalmente atravessarem a ponte sobre o Rio Sigred, Haia e Merlin seguiram pela trilha que descia o planalto, e chegariam à cidadela de Geran antes do sol se por.
Continua…
