155. A Roleta de Hanzi-Radnar
A Roleta de Hanzi-Radnar
Antes: 154. Pernil podre é o caralho
Krul jogou uma moeda de ouro para o guarda, que se empolgou ao perceber que era uma legítima peça velga, muto apreciada na região. Ele então pediu outra para seu colega da outra torre, mas Krul respondeu que entregaria após a abertura do portão.
Os guardas se comunicam, e um deles desce. Pouco depois, eles escuta barulhos de trancas, e a pesada porta se abre. O guarda que desceu cobra a outra moeda de Krul.
– Se me disser quanto custa para entrar na cidade sem girar a roleta, lhes darei mais duas moedas de ouro. – Contrapropôs o general.
– Pensei que o nobre cavaleiro tinha palavra, mas pareces que és mesmo um mendigo* – Reagiu o guarda em sua língua, contrariado: – E não há como entrar na cidadela sem girar a roleta, senhor. Os Amigos não podem ser comprados.
A menina ileana continuava incrédula com a presença de Krul ali, e continuou perguntando por que ele se submeteria à roleta. Somente malucos e desesperados tentavam a sorte em Hanzi Radnar, um lugar lendário, que existia desde tempos imemoriais.
– Pergunta menos, garota. Não te interessa e é melhor que você não saiba. – Respondeu o general, antes de perguntar: – Você conhece alguém aí dentro?
– Não conheço ninguém. Mas pra mim é uma chance de mudar de vida. Minha vida era um inferno em Geran*.
– Então fica quietinha. E cola comigo que te ajudarei quando for possível.
– Você ouviu o que o guarda disse. Os Amigos são incorruptíveis. Eles não precisam de nada. Apenas manter a roleta girando todos os dias*.
– Garota, você é muito nova ainda. Sabe de nada. Sempre há corrupção, pois tem sempre alguém querendo mais do já tem, por mais que já tenha tudo. – Finalizou Krul.
Atravessando o portão de Hanzi-Radnar, os visitantes se encontravam em um grande salão da muralha, separado do interior da cidadela por um outro portão enorme, feito com grades de ferro. De lá podia-se ver a praça principal do lugar, um tipo de arena cerimonial com arquibancadas para o público, e ela, imponente ao centro: a temível Roleta de 10 casas, com seus símbolos enigmáticos. Também já se ouvia o burburinho dos Amigos espectadores tomando os seus lugares na arena, para acompanhar o espetáculo.
Aquele espaço funcionava como uma recepção, onde ficavam as pessoas que tinham chegado à cidadela no mesmo dia, antes do evento. Haviam cinco candidatos ali, contando com Krul e a jovem ileana, que se identificou como Lynn Haramis: um tigunar alto e magro, que falava um dialeto velga oriental, provavelmente da Costa Norte, e dois gauleses jovens, de aspecto mendicante, como o de Lynn. Um pouco antes do pôr-do-sol, quando se iniciavam as festividades, apareceu mais um candidato, de raça velga.
A hora da roleta acontecia todos os dias ao pôr-do-sol, seguida pelas punições e demais atrações daquele espetáculo bizarro.
O fluxo de migrantes girando a roleta diariamente sustentava a economia da cidade, afinal, 10% dos candidatos saíam dali com a pena de escravidão, por prazo indeterminado. E outros 10% eram obrigados à servidão na cidadela por um ano, antes de serem reconhecidos como Amigos, como eram chamados os cidadãos de Hanzi-Radnar. Tudo isso num sistema de voluntariado. Ninguém jamais era obrigado a estar ali.
Além dos Amigos, que não trabalhavam e eram sustentados pela força escrava e servil na cidadela, só haviam outras três classes naquele local profano: os servos, pelo prazo de um ano, os escravos, e os chamados “Colegas”, funcionários contratados pelos Amigos para os trabalhos burocráticos e de segurança, como aqueles guardas no portão. Estes tinham autorização limitada para circular na cidadela. Somente os Colegas podiam falar com os habitantes de fora, que eram chamados de “Inimigos”.
Havia uma razão doentia para aquela nomenclatura. A elite dos Amigos, que vivia lá há séculos, num estranho arranjo onde não existiam famílias, mas apenas uma grande comunidade baseada em vaidade, preguiça, gula e luxúria, compartilhava uma filosofia radical: somente a sorte importava. Mérito, sangue, dsetino, tudo era apenas ilusão. Havia somente o Acaso, que os Amigos personificavam como o desejo de Hagalaz. Para eles, os Inimigos eram a escória da humanidade, o povo voluntariamente iludido.
A maior parte dos resultados da roleta, no entanto, era voltado à diversão dos espectadores. Um conceito bem radical de diversão, diga-se. 10% encontravam a morte em execução pública, através de método a ser definido pelos Amigos. 20% tinham que lutar até a morte, seja com feras, ou entre si, se mais de uma pessoa obtivesse o mesmo resultado. 30% eram submetidos a um estupro, espancamento ou escorraçamento público, e se sobrevivessem eram reconhecidos como Amigos.
Apenas 20% não sofriam qualquer punição. Metade se tornava Amigo, e a outra metade virava “Amigo dos Amigos”, uma posição de honra, vivendo como um rei em Hanzi-Radnar, nas melhores condições. Uma casta privilegiada de líderes.
Quase no fim da tarde, um Colega apareceu naquela área, escoltado por mais dois guardas, e se apresentou aos candidatos, explicando detalhadamente as regras da roleta. Seu nome era Claude, e ele avisou que aquela seria a última chance de desistirem, mas ninguém deu pra trás. Agora, todos os pertences, armas e armaduras deveriam ser deixados ali, e os candidatos deveriam girar a roleta apenas com a roupa do corpo. Os que sobrevivessem, ou não caíssem na servidão ou escravidão, receberiam tudo de volta.
– Qual o preço para passar na roleta sem riscos? – Murmurou Krul para Claude, discretamente.
– O preço será definido por Hagalaz, candidato… Na roleta.
Após a porta de grades, havia uma passarela, com frisas nos dois lados, que levava à arena, do tipo anfiteatro. A plateia agora já estava animada com a aproximação da grande hora. Claude conduziu os candidatos até o centro, no que foram recebidos ao som de tambores e trombetas, com bastante efusividade.
Um dos Amigos que estava na primeira fila, a que devia ser reservada aos Amigos dos Amigos, se levantou e tomou a liderança da cerimônia, iniciando um discurso inflamado de apologia ao modo de vida da cidadela. Ao fim, com a plateia já inflamada, foi apontando um a um para os candidatos, para que os espectadores decidissem quem rolaria primeiro.
Lynn Haramis, a única mulher ali, foi a primeira escolhida. Krul só pedia aos deuses para não ser morto, estuprado, escravizado ou servo por um ano. O resto tava sossegado. Ou quase. Mas agora não havia mais jeito. Agora era a hora de roletrar.
Continua…
