154. Pernil podre é o caralho
Pernil podre oferecido a Krul
Antes: 153. A aldeia na Baía de Forge
A criatura demoníaca percebeu que seria atacada pelo arauto, deu um grito e saltou voando pela janela. Mit hesitou por um instante em lançar o pulso destrutivo ali. Sem pensar muito, Weiss tentou acertá-la com uma flecha, mas errou. O guardião então entrou no Gardahal para ganhar tempo ao persegui-la, mas esqueceu que estava no terceiro andar de uma construção artificial, e despencou de uma altura de cinco metros, quebrando a perna na queda. Prejudicado, o guardião voltou a Asgaehart no lado de fora da cabana, e viu Tarash sair da aldeia voando baixo pela colinas, já com o corpo cada vez mais desenvolvido de uma jovem mulher.
Otu e Haia já tinham varridos os homens no andar de baixo, e agora apenas alguns jovens os cercavam, aparentando mais medo que vontade de lutar, e logo fugiram. Mas, do lado de fora da cabana, outros pescadores já se posicionavam com arcos para alvejá-los quando saíssem dali. Um deles viu Weiss caído, e acertou sua outra perna com uma seta. Com dificuldade, suportando a dor, o guardião voltou pro Gardahal, se arrastou para o lado uns metros, e retornou à aldeia em segundos, aparecendo magicamente do nada para matar o arqueiro com uma flechada certeira no tronco. Weiss então voltou ao limbo para cuidar rapidamente do ferimento, retirando o projétil de madeira da perna que não estava quebrada, e depois se arrastou de volta para o que seria o interior da cabana, onde estavam os outros.
Também prejudicado, Haia decidiu lançar uma bruma de fuga para facilitar a evacuação. Toda a área foi logo tomada pela escuridão. Weiss então retornou ainda se arrastando, com muita dificuldade para caminhar, sendo amparado por Otu. Os quatro conseguem escapar da cabana, inicialmente sem serem vistos. Mas alguns dos pescadores conseguem vê-los em fuga, e mais flechas são lançadas. Haia é alvejado no ombro, o mesmo que já tinha um osso quebrado. Mit também é flechado no antebraço, e grita para Weiss:
= Bota geral no limbo. Vou soltar o pulso!
O guardião abre a capa para Haia e Otu, e entra no Gardahal. Mit finca o tridente, emitindo aquela onda de impacto absurda, que varre o resto dos gauleses da praia, arremessando-os longe, além de dissipar a fumaça preta.
Weiss calcula o tempo necessário e volta a Asgaehart, apenas para trazer o arauto de Hoguz para o Gardahal, onde poderiam descansar um pouco, e cuidar dos ferimentos, usando toda a Placenta de Virgo que Haia tinha trazido. Aquele era um unguento reparador realmente mágico. Ainda assim, já estavam muito desgastados, puídos mesmo. Aquele encontro com Tarash na aldeia tinha prejudicado muito a equipe. Apenas Otu não tinha sido ferido com alguma gravidade.
– Nossa missão era pegar a Cornucópia e a Quadra de Ases… Vamos esquecer Tarash. Eu não vou mais atrás dela. – Lamentou o guardião: – Agora tá todo mundo fodido.
– Se você invocar aquela entidade de olhos negros, acho que poderia se recuperar imediatamente. – Sugeriu Haia, a Weiss: – O mesmo pra você, Mit.
– Só vou invocá-la se for preciso. – Informou o guardião, precavido.
Mit concordava. No Gardahal, ele perdia a conexão com o Raven pardo. Na verdade, assim como Haia Kahn, não gostava nada da sensação de estar ali:
– Não dá pra ficar aqui muito tempo. – Disse o arauto, olhando para a névoa branca que novamente se acumulava na colina: – Sempre acontece algum problema.
Otu continuava ajudando a carregar Weiss, que mesmo após os cuidados continuava bem fodido. Mit pediu:
– Weiss, pode abrir a capa? Não quero envelhecer novamente…
Quando retornam a Asgaehart, o caos e o choro ainda tomavam conta da pequena vila de pescadores, que agora eles viam de longe, do alto de uma pedra na encosta. Manco e cansado, Weiss era o mais desanimado ali:
– Se tivesse uma forma de voltar pra casa, eu aceitaria. Porra, foi muito tempo perdido ali. Levantaram cama, ajeitaram os quadros nas paredes, viram se tinha barata, se o café tava quente. Tomanocu…
Sofrendo com as duas pernas fodidas, entrou em contato telepaticamente com os mestres do templo. Saga o atendeu.
– Saga, nossa missão tem grandes possibilidades de fracassar. Estamos muito debilitados e atrasados em relação à Quadra de Ases. E não temos informações sobre a localização da Cornucópia Ametista. Talvez seja necessário um plano B.
– Hagalaz só faz o que já está escrito, guardião. Se assim o foi, era porque assim teria de ser. Mas alertaremos as ordens sobre o risco. O general ainda lidera a missão?
Weiss agradeceu, mas nem respondeu à última pergunta. Em frente ao portão da cidadela de Hanzi-Radnar, Krul Petersen ainda relutava em comer um pedaço de carne podre respingada de mijo e coberta de moscas. Aliás, cada vez mais tomada pelas moscas. Já era difícil ver a carne. E os dois filhos das putas na torre de guarda riam sem parar do pedágio que tinham inventado.
A menina que aguardava junto com Krul no portão se aproximou do pernil, espantou as moscas e, fechando os olhos, deu uma pequena mordida num ponta da carne, se esforçando para não vomitar a seguir. E os guardas se acabavam de rir com aquela humilhação, e ainda disseram que ela precisaria engolir. Mas, quando a pobre jovem conseguiu a proeza, os dois cretinos deciciram que ela só entraria se o homem ao lado dela comesse também, ou então se ele fosse embora dali.
– Maudits! – Indignou-se a ileana, cuspindo os restos daquela nojeira.
Agora ela olhava para Krul praticamente implorando para que ele comesse a carne pútrida. Era jovem, não mais que 18 anos, e até bonita. Devia estar fugindo ou muito desesperada para tentar a sorte na roleta. O general ficou comovido, e pensou alguma forma de ajudá-la. Na verdade, uma forma de se ajudarem. Krul então sugeriu que ela tirasse a roupa para tentar seduzir os caras, o que indignou a mocinha:
– Eu tenho um plano melhor: porque você não come a porra da carne?!* – Respondeu, usando gírias gaulesas, enquanto espantava novamente as moscas e levava o pernil até Krul.
– Esse pernil não é nada comparado ao que pode sair na roleta!* – Insistiu a refugiada.
Foi quando o general Krul Petersen, de Darklands, membro da décima quinta geração de guerreiros de seu clã, senhores dos vales do sul, e que já estava estranhamente fraquejando frente à tão reles ameaça, recobrou suas faculdades mentais e se emputeceu com tudo aquilo. Com um gesto de raiva e desabafo, tirou o trapo de mendigo que estava usando por cima de sua imponente armadura negra de oficial da Dokhe.
– Querem quanto de ouro pra me deixar entrar nessa porra, vermes?! – Exclamou, imponente, enquanto mostrava aos guardas um saco de pano cheio de moedas de ouro. Havia pelo menos um kabutz ali. Os guardas tinham parado de rir, e agora arregalavam os olhos numa mistura de espanto e ganância. E medo, quando viram o arco balestra do Tiwaz e sua aljava de flechas, que Krul carregava às costas.
Ao lado do general, a menina ileana era outra de olhos saltados, sem entender como alguém de tamanha importância estava ali na mesma situação que ela, sujeitando-se ao destino da roleta de Hanzi-Radnar:
– Ei, cara… O que você tá fazendo aqui!?
