152. Duelo de Arautos
Portão da cidadela de Hanzi-Radnar, na Gerânia
Antes: 151. A Névoa dos Condenados
– Não podemos levar essas crianças para a cidadela. – Constatou Krul, avaliando o que poderiam fazer: – Leve as crianças de volta a Geran, mago… Eu irei para Hanzi-Radnar sozinho.
Assim, enquanto Krul segue adiante para subir as escadarias, o necromante deixa a carroça por lá e retorna pela trilha com as crianças, rumo a Geran. No caminho, foi conversando com os meninos, que apesar de pequenos, já ajudavam os pais na feira da cidadela, vendendo tonéis e cantis. Aquela seria uma longa caminhada.
Após a subida, Krul chegou ao portal da cidadela de Hanzi Radnar, que era protegida por uma grande muralha. Foi recebido por dois guardas, no alto de torres seteiras. O general falava um pouco do gaulês usado pelos guardas, que mesmo assim começaram a zombar do visitante, vestido em trapos. O vulkânico tinha alguma dificuldade em compreender o que diziam, entre gargalhadas, quando um deles arremessou uma perna de javali assado comida pela metade, já meio podre. E ele diz que só vai abrir o portão se o visitante der uma bocada.
No Gardahal, Weiss, Otu, Mit e Haia seguiram por um terreno pedregoso onde se localizava a costa da ilha, enquanto a névoa branca voltava a descer da colina na direção deles.
– Aí não! Essa merda de novo! – Protestou Otu, bolado.
– Vai lá perto da fumaça e solta outro porradão daquele, Mit. – Sugeriu Haia: – Ou então vamos sair daqui.
– Calma. – Disse Weiss, que já tinha se afeiçoado ao local, que de fato parecia bem seguro. Pra ele.
– Odeio esse limbo. – Pontificou Haia.
A névoa continuava a se aproximar. O arauto de Hoguz seguiu o plano elaborado pelo cavaleiro da Bruma, e se adiantou na direção da fumaça. Olhou para trás e viu que já estava a uma distância segura dos companheiros. Cravou o tridente e lançou o pulso.
Dessa vez, no entanto, Weiss Bier não tinha deixado o limbo. Quando Mit usou seu poder no Gardahal, os olhos do arqueiro de Joy Divile se tonaram totalmente negros no momento em que ele perdeu a consciência, substituída por alguma outra entidade. Levitando, Weiss então exclamou com uma voz gutural:
– QUEM OUSA PROFANAR O SAGRADO GARDAHAL?!
Mit Maikon começa a envelhecer aos olhos de todos ali. Pele com rugas, cabelos grisalhos, até que a transformação tambem foi interrompida por uma outra entidade. Tomado pela Voz, olhos brilhando em verde flamejante, o arauto de Hoguz fez guarda com seu tridente, pronto para atacar o guardião.
Os dois arautos se encaram por um momento, até que Mit e Weiss voltam à consciência, para alívio de Otu e Hai, que já temiam o pior. A única diferença é que agora Mit Maikon tinha a aparência de um coroa de mais de 40 anos. Tinha envelhecido mais de uma década em segundos. Mas pelo menos aquela névoa maldita tinha sido novamente pulverizada.
Em Hanzi-Radnar, as moscas já tomavam o pedaço de pernil fedorento, e os guardas continuavam olhando de cima para Krul, se escangalhando de rir. Uma jovem de raça ileana também chegou ao local. Era bem nova, bonita, mas maltratada. Também estava lá para girar a roleta. Os guardas apontaram para a carne podre e insistiram: só abririam o portão para quem mordesse o pernil nojento.
Morrendo de rir, e parecendo bêbado, um deles tirou o pênis para fora da calça e começou a mijar na direção dos visitantes, que estavam em baixo, na frente do portão fechado.
– Et vis pluant? – Gritava o filho da puta, em gaulês, fazendo o colega se acabar de rir.
– Se respingar em mim… – Murmurou Krul, muito puto, se afastando da corrente de mijo, junto com a moça ileana: – Fica atrás de mim, gatinha…
A vontade do general era pegar aquela porra de pernil e arremessar para os caras na torre, e ainda mandar uma rajada na fuça daqueles filhos da puta.
– Vos volo ut pluant? – Perguntava o outro guarda bêbado, já começando a tirar o pau pra fora para mijar nos visitantes.
Mais uma vez, Krul teve de se afastar para não se atingido. Aquela porra era humilhante demais. Ele era o General da Dokhe, caralho. Sem saber o que fazer, a menina ileana se aproximou do pernil e olhou para os guardas. Teria de afastar as moscas para comer um naco.
No Gardahal, o grupo continuou na direção da aldeia, até que a névoa voltou a se acumular no alto da colina. Eles sabiam que aquela fumaça os perseguiria de novo, enquanto estivessem ali. Mas agora já tinham avançado bem. Quando a névoa os alcançasse novamnte, já seria a hora de voltar a Asgaehart.
Conforme o plano, saíram do Gardahal já era o fim da tarde, e estavam bem próximos a uma típica colônia gaulesa de pescadores, na Baía de Forge, na Gerânia. Chegando ao local, foram recebidos por um homem de meia idade, muito queimado de sol, que logo identificou as insígnias do exército velga nas armaduras:
– Bienvenue, guerriers. Je suis Leklerk, et voici mon fils Janluk !
O coroa estava acompanhado do filho, que já devia ter uns trinta anos.
Enquanto isso, em outro ponto mais ao norte, na mesma ilha, Merlin e as crianças alcançaram o Rio Sigred após algumas horas de caminhada. Lá, havia uma velha ponte de madeira quase em ruínas. Como a noite já começava a cair, o necromante preferiu encontrar um abrigo numa mata próxima, ao lado de um tronco de árvore. Aguardariam ali até o dia seguinte, pelo menos.
Continua…
