151. A Névoa dos Condenados

Névoa dos Condenados, Gardahal

Antes: 150. A Libertação de Tarash

Krul e Merlin continuaram subindo a trilha que atravessava o planalto pelos vales até que alcançaram o enorme platô circular conhecido como Grid Les Path. Mais à frente, no topo de uma colina, ficava a cidadela de Hanzi-Radnar. Quando chegaram mais perto da entrada da larga escadaria que circundava o monte, avistaram três viajantes maltrapilhos, que puxavam uma carroça. Eles vinham do outro lado da ilha.

Merlin pede para Krul esperar, e se desloca do caminho à cidadela, desarmado, para se encontrar com os andarilhos. Os sujeitos param a carroça, desconfiados. Eram três ileanos magros e sujos. O necromante tenta se comunicar, mas eles só falavam o idioma nativo dos povos selvagens do continente. Krul, que era vulkânico, conhecia um pouco da língua, então se aproximou e conversou o suficiente para saber que vinham da cidadela de Geran, a maior da ilha, e tentariam a sorte na roleta. Não tinham muita coisa a perder, a não ser a dignidade.

– Eles querem saber por que estamos indo pra Hanzi-Radnar. Não parecemos necessitados… – Disse Krul para Merlin.

Como estavam esfomeados, Merlin cedeu-lhes um pouco da sua ração de biscoitos secos, e sugeriu:

– Diga que somos curiosos.

– Eles também disseram que lá só há gente muito má. – Observou Krul.

Mas disso eles já sabiam. Merlin sugeriu que eles se disfarçassem e se juntassem ao grupo, para não chamar a atenção na cidadela. Krul voltou a falar com os ileanos para que emprestassem alguns trapos que estavam na carroça. Não foi preciso muito tempo para que percebessem que os três andarilhos estavam resistindo a mostrar o que estavam levando. Sem pestanejar, o necromante disparou uma bruma do sono, que apagou os três imediatamente. As melhorias tinham funcionado.

Quando levantaram uma lona da carroça, surpreenderam-se com duas crianças velgas amordaçadas, presas numa gaiola de metal. Deviam ter entre sete a nove anos, no máximo. Quando foram soltas, começaram a falar apavoradas numa língua rubra, que Merlin conhecia. Eram de Geran, e tinham sido raptadas pelos três vagabundos em uma feira da cidadela.

– Vamos pegar os trapos desses caras pra entrar na cidadela. – Sugeriu Merlin.

– Esses vermes merecem morrer. – Decretou Krul.

Animado com a sentença, Merlin degolou os três sujeitos e mastigou a Cidália. Entre histórias sórdidas da vida de três vagabundos que não valiam o chão onde pisavam, descobriu que iriam vender as crianças para o povo da cidadela, que as colocaria na famigerada roleta.

Enquanto isso, no Gardahal, o resto do grupo voltava a encarar aquela densa fumaça branca que se movia na direção deles. Eles então caminharam na direção da vila de pescadores para onde Tarash tinha seguido, com a fumaça no encalço. Quando a névoa já se encontrava a menos de cinquenta metros, começaram a identificar rostos distorcidos formados pela fumaça. Eram figuras humanas, e pareciam atormentadas.

– Parados! – Gritou Otu: – Encosta todo mundo aí, porra!

Não havia onde encostar, mas todos compreenderam o apelo. Weiss Bier então tentou se impor como guardião:

– Eu sou o escolhido! Vou proteger a fronteira! Deixem-nos, que não faremos nada!

Com exceção de Weiss, as névoas começam a circundar e tentar entrar nos corpos de quem estava ali, por qualquer orifício disponível, especialmente nariz e boca. Otu é o primeiro a ser dominado, e cai desacordado. Haia consegue resistir, mas Mit também se vê invadido pela fumaça.

O vilando então acorda, e começa a falar em um tom estranho, para alguém que eles não conseguem ver:

– Puta que pariu, Zik! Era verdade! Consegui escapar desse vale maldito num corpo novo!

Otu, ou quem quer que estivesse controlando aquele corpo no momento, olhou para os companheiros e começou a correr para fugir dali. Quando Mit perdeu a consciência, no entanto, começou a vomitar a fumaça, e a VOZ assumiu o controle. Seus olhos brilharam numa cor esverdeada, e o arauto fincou o estandarte no chão para liberar um violento pulso ultrassônico.

Sentindo-se ameaçado, Weiss não pensou duas vezes. Tirou o capuz e voltou para Asgaehart. Agora sabia que precisaria esperar algum tempo para voltar, se não sofreria o impacto.

No Gardahal, as névoas foram varridas para longe, assim como Otu e Haia, que se machuca na queda, quebrando a clavícula e caindo desacordado. Mit voltou ao controle de seu corpo, mas Otu continuava dominado, e tentou novamente fugir.

O arauto de Hoguz foi atrás deles, e os dois iniciaram uma luta empedernida. Mit logo viu que não teria chance alguma de agarrar aquele gigante sozinho, então tentou miná-lo a golpes de tridente. Durante a luta, o arauto tentou se comunicar com alguma das criaturas do lugar, mas logo desistiu quando percebeu que o monstro conectado também fazia força para dominá-lo. Aquele lugar era muito sinistro.

A briga seguiu encardida, e Mit acabou engolindo duas porradas doídas do gigante vilando. Estava levando um prejuízo, e começou a temer perder controle novamente para a entidade. Mas, naquele momento, Weiss Bier apareceu novamente no limbo, de surpresa, ajustou sua posição voltando à Asgaehart por um tempo, e retornou ao Gardahal na frente de Otu, desferindo-lhe uma potente joelhada no saco antes de sumir novamente.

O vilando caiu no chão rolando de dor, mas não apagou. Mit aproveitou o momento para tentar agarrá-lo de novo, mas o bicho era um touro de forte. Weiss então voltou para o limbo e se jogou nas pernas de Otu, somando-se ao esforço de contê-lo. Foi preciso um bom tempo até que o arauto ajustasse o estrangulamento, apagando o companheiro. A fumaça com rosto distorcido então foi expelida de sua boca, e o gigante voltou à consciência quando acordou do mata-leão.

Mas, no alto da colina, a névoa das almas condenadas voltou a se aglutinar, e já começava a descer novamente.

Continua…

Deixe uma resposta