150. A Libertação de Tarash

Lasansi, sacerdote de Hiniar na Gerânia

Antes: 149. Guardiões do Gardahal

O grupo liderado por Krul Petersen seguiu abrindo caminho mata adentro das encostas da praia, até acharem uma trilha que contornava os vales no interior da ilha. Após algumas horas de caminhada, começaram a ouvir uma estranha cantoria vinda de algum lugar por ali.

– Mantala. – Sussurrou Weiss.

– Tampem os ouvidos. – Aconselhou Merlin.

– Vou ver quem é. – Se adiantou Otu, esgueirando-se no mato, com o Pique na mão.

Otu avança com cuidado na direção do canto, até chegar a uma clareira, onde estava acontecendo um ritual. Várias pessoas encapuzadas se encontravam ao redor de uma pira enorme acesa, empunhando arcos. Em cima do fogo, uma cena horrível: bebês humanos tinham sido colocados para assar, e já choravam pelas queimaduras.

– Porra, sacanagem… – Sussurrou o vilando ao ver aquela cena maldita.

– Deixa rolar… – Disse Merlin, que acabava de se juntar a Otu.

– Não, cara… – Protestou o cavaleiro Hokhe.

– Não o caralho. Deixa essa porra rolar. São demónios. – Avisou o necromante.

Krul, Mit, Weiss e Haia já tinham se juntado ao grupo, e observavam a cena com horror, quando uma mulher ileana saltou do meio do mato, muito ágil, agarrou um dos bebês e fugiu subindo a montanha. Os encapuzados tentam flechá-la, e Weiss reage:

– Temos que ir atrás dela!

– Ou deixa ela por conta de Hagalaz. Não é nossa missão. – Disse Merlin.

– Por conta é o caraio. É um demônio, porra. – Insistiu o guardião: – Vamos segui-la.

Um dos encapuzados consegue finalmente alvejar a mulher, que cai no chão morta. Mas o bebê começa a se transformar na frente de todos ali, criando asas e alçando voo. Todos os que participavam do ritual saem em perseguição à criatura. Alguns choram e se lamentam.

– Não podemos mais perder tempo, galera. Temos de seguir pra cidadela. – Avaliou Weiss Bier.

– Pode ir pro limbo, pra eu fazer um servicinho naquela mulher? – Pediu Merlin.

– Ainda não. Vamos falar com eles. – Disse Weiss, se adiantando para a clareira onde acontecia o ritual, sendo seguido por Mit e Krul.

Quando se aproximam dos encapuzados, um deles estranha a presença de forasteiros naquele local remoto e questiona ao perceber as insígnias nos uniformes:

– São velgas?

– Somos. – Respondeu o guardião: – O que houve aqui?

– Sou Lasansi, sacerdote da Casa de Hiniar. – Disse o sujeito tirando capuz, em um velga perfeito. Era um homem de raça gaulesa.

– Lasansi, estamos aqui pela Tábua das Lendas, em Hanzi-Radnar. Pode nos ajudar?

– Temos agora uma ameaça maior, velga. Tarash está a solta!

– O bebê alado?

– Um demônio encarnado naquele corpo. Precisamos detê-la rápido, pois a cada hora ela crescerá o equivalente a um ano humano. Será adulta em menos de um dia, e aí será impossível impedi-la de procriar, com homens e animais, criando gerações de criaturas demoníacas.

– Puta que o pariu. – Lamentou Weiss: – E o que temos de fazer agora?

– Agora precisamos arrancar e queimar seu coração.

Mit Maikon tenta se conectar com os animais da região. Pequenos ratos do campo estavam assustados com uma criatura voadora com chifres que atravessou o vale na direção sudoeste, na direção de uma vila de pescadores gauleses no litoral. O arauto de Hoguz comunicou ao grupo sua descoberta, e um grupo de sacerdotes partiu para lá rapidamente.

Temendo pelo andamento da missão, frente ao que parecia ser uma prioridade absoluta, Krul sugeriu que pelo menos uma dupla fosse para a cidadela de Hanzi-Radnar, afinal já estavam muito perto:

– Algum voluntário?

– Não acho boa ideia nos separarmos. – Questionou Weiss, se voltando para Lasansi: – Se ajudarmos vocês, poderão nos ajudar com a tábua?

– Velga, capturar Tarash agora é questão de sobrevivência para qualquer ser humano. Não podemos perder tempo! Se ela começar a procriar, seremos caçados e escravizados pelos demônios!

– Tô nem aí. – Gracejou Weiss. – Vai poder nos ajudar?

O guardião sabia que tinha um trunfo na manga, ou melhor, na capa. Se fossem atrás de Tarash, iriam segui-la pelo Gardahal, o que lhes economizaria um tempo significativo na caçada.

– Calma, Weiss… – Pediu Mit.

– É muita historinha. Se não pode nos ajudar, avise agora. – Definiu o guardião: – Se não, acho melhor cada um ficar com o seu problema. Vocês com Tarash, e eu com Mantala. E ninguém ajuda ninguém.

– Tarash é mais perigosa que seus irmãos Vehogash e Armogash. Mas como debochas de nosso conhecimento, preciso lhe informar que a Tábua é um painel gigantesco, com milhares de inscrições minúsculas!

– Não preciso saber tudo da tábua, Lasiso… Apenas o que ela fala da Cornucópia Ametista.

– Sei que há versos sobre ela na Tábua, mas eu não os conheço. – Diz Lasansi, se voltando em gaulês para os demais sacerdotes, que respondem negativamente.

– E sobre a feiticeira extravagante, vestida de vermelho, saiba que seguiu de barco para a costa simeria ontem, junto com três homens.

– A Quadra de Ases. – Intuiu Mit.

Um dos sacerdotes se aproximou de Lasansi e disse que tinha informações sobre a Cornucópia Ametista. Gastando todo o seu idioma gaulês, Krul conversou bastante com o sujeito. Seu nome era Xevran, e ele tinha sido criado numa aldeia onde um velhíssimo druida contava a história daquele artefato mágico. Era a saga de Izakiel, o último arauto de Hefestus, o herói que matou Hossegor, o maior dragão de fogo do ciclo Selar.

Segundo a lenda, na batalha final, Izakiel teria usado a Cornucópia Ametista, além da lendária espada de Hefestus e seu colar de proteção. Desde então, a peça foi perdida. Xevran não sabia, ou não lembrava, pois era muito criança, onde a batalha final tinha se dado. Mas provavelmente a Tábua poderia indicar isso.

– Eu vou a Hanzi-Radnar. – Voluntariou-se Merlin.

– Eu vou atrás de Tarash. – Avisou Mit.

– Roleta é mó escarradeira. Vou com você. – Disse Otu.

– Ir à cidadela não é tão necessário. Podemos ir atrás de Mantala na costa siméria. Vamos pegar Tarash.

– Eu vou com você, Merlin. – Definiu Krul: – O resto vai pra caçada.

Continua…

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