149. Guardiões do Gardahal

Formigas devoradoras de covardes, Gardahal

Antes: 148. Rumo à Gerânia

Mit Maikon sente, por conexão com o Raven pardo, que o animal estava muito agitado ao perceber o dragão de fogo. Krul aponta para um bando de areia numa ponta do literal, e pede que o arauto dê um voo rasante até lá, onde poderiam se refugiar no Gardahal. E o grande Raven ainda teria tempo de fugir na direção das montanhas.

A manobra sai como planejado, e apenas Haia Kahn acaba se machucando um pouco na passagem. De pronto, estavam no Gardahal, à beira do que evia ser o Mar do Norte. A paisagem ali era basicamente a mesma, um grande deserto à noite iluminado por uma infinidade de estrelas. Não havia sol, nem as luas. Mas, diferentemente do que já tinham visto antes, a ilha da Gerânia aparecia em relevo bem à frente deles, ainda que sem água alguma, apenas uma grande descida em depressão do que seria o fundo do mar.

Pouco tempo depois, caminhando pela enorme depressão do terreno em direção ao que seria a ilha, perceberam de longe uma ameaça. De início, parecia uma massa rasteira disforme, de cor escura, avançando na direção deles. Mais perto, puderam ver com clareza: uma multidão de formigas do tamanho de ratos, com olhos vermelhos vivos e ameaçadores, começava a se espalhar na área para cercá-los.

Mit Maikon tenta entrar em contato com os bichos, sem muito sucesso. Mas soube o suficiente: eram criaturas guardiãs daquela região do Gardahal, conhecidas como “formigas devoradoras de covardes”, pois atacariam ao menor sinal de medo em uma presa.

– Aí fudeu pro Haia. – Zoou Weiss.

Mit resolve seguir adiante, tentando parecer confiante. Mais à frente, já começam a se ver cercados por um mar aterrorizante de pequenos olhos vermelhos.

– Tá maluco. Temos que fugir! – Se apavora o vilando Otu.

– Já estão demostrando medo? – Preocupa-se Mit, ao mesmo tempo em que se vira para falar, o que as formigas entendem como um sinal de preocupação, e começam a cercá-lo.

O vilando da Hokhe, apesar do baque inicial, consegue controlar as emoções e passa incólume pela massa de insetos carnívoros, assim como Haia e Merlin. Mas Weiss também se impressiona com os bichos e, começa a ser cercado. Os mestres já tinham lhe falado das criaturas guardiãs, mas não daquele tipo de bicho. A pior situação, no entanto, era a de Krul. Tomado por uma fobia inexplicável, começou a mexer-se, o que atraiu rapidamente um grande número de formigas para si.

Muito agressivas, os insetos largam Mit e Weiss e começam a morder partes da pele do general da Dokhe, que reage desesperado, já temendo virar banquete. A questão é que todos ali sabiam que quem reagisse se tornaria automaticamente mais uma vítima.

Haia Kahn não consege deixar o general de sua cavalaria sozinho naquela situação, e resolve lançar uma bruma de brilho, que parece desnortear e paralisar os bichos afetados. Mas as formigas logo se voltam contra ele, pela reação defensiva. Agora ele também tinha que se debater para não ser mordido, assim como Krul, que àquela altura já começava a tirar partes da armadura, devido ao ataque.

Cansado daquela situação, Mit Maikon grita para avisar aos demais:

– Corram daqui, pois vou botar essas formigas pra voar!

Com excexção de Krul e Haia, que lutavam pela vida, os demais disparam dali em velocidade, de forma a evitar serem ejetados do chão pelo poder do arauto de Hoguz, que aguardaou os companheiros se afastarem. Quando Mit enfim cravou o tridente no chão, soltando aquele terrível pulso ultrassônico, o efeito nas leves formigas foi devastador, sendo algumas literalmente estraçalhadas e outras arremessadas a dezenas de metros de distância, neutralizadas. Um cheiro horrível tomou conta do ar no local.

Haia e Krul também são arremessados, mas sofrem apenas escoriações. Agora eles estavam numa clareira, livres dos insetos. Uma fuligem nojenta de pó de formiga triturada se espalhava nos rostos do grupo.

Depois de algumas horas de caminhada pela grande depressão, alcançaram  o que seria o litoral da ilha, que parecia ainda mais aterrador no Gardahal. No local onde deveriam estar as Montanhas Escarlates, só conseguiam ver colinas baixas, e uma enorme quantidade de raios caindo do céu. E um vento sinistro soprava insistentemente do interior para a costa, como se estivesse os expulsando de lá.

Seguindo adiante no que seria o caminho para a cidadela de Geran, o grupo começa a avistar uma fumaça branca, densa, que se originava no alto das colinas, se movendo na direção deles.

– Puta que o pariu. – Reagiu Weiss.

– Caralho, mais merda? – Indignou-se Otu.

– Devem ser os guardiões dessa área… – Entendeu o Bier.

– Isso aqui senpre vai tentar expulsar os intrusos. Você ainda não entendeu? – Falou Merlin, que quase não falava.

– Vamos sair daqui, galera. Já estamos na ilha. – Sugeriu Mit, vendo a fumaça branca chegar.

– Acho válido! – Concordou Merlin, assustado.

– Calma. Essa porra nao é porta de puteiro não… – Respondeu Weiss.

Naquele momento, a fumaça já tinha descido o morro completamente e se espalhava em várias frentes, a ponto de alcançá-los.

– Porra, galera! Vamos sair daqui! – Exclamou o arauto de Hoguz.

O guardião do Gardahal parecia ainda pensar em alguma alternativa. Mit então resolveu pedir na moral:

– Weiss, meu querido… Poderia abrir essa capa, por favor? Preciso sair pra mijar…

Sem tempo, nem opções, o guardião do Gardahal abriu sua capa e deixou que seus companheiros saíssem daquele limbo, um a um.

De volta à Asgaehart, agora se encontravam numa bonita praia no litoral da Gerânia. O clima era ensolarado, o que contrastava com a escuridão profunda do Gardahal. Bem ao longe, puderam ver o vulto de Gorgon voando no horizonte, retornando a Nibel. Mit conseguiu sentir que o Raven pardo estava em segurança, em algum lugar das montanhas gaulesas.

Hanzi-Radnar seria a próxima parada.

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