153. A aldeia na Baía de Forge
Sabine, gaulesa de uma aldeia na Gerânia
Antes: 152. Duelo de Arautos
Na aldeia de pescadores, o gentil Leklerk ofereceu a hospitalidade da vila para os visitantes aliados. A todo instante, lembrava que os velgas tinham libertado a costa gaulesa do jugo alamano. Enquanto Krul conversava, Weiss investigava ao redor, tentando perceber qualquer sinal de Tarash. Haia e Mit Maikon fizeram o mesmo.
Pouco depois que o grupo chegou, surgiu na praia uma senhora meio gorda, de nome Sabine, acompanhada de três filhas adultas. Ela parecia desdenhar da liderança de Leklerk, dizendo que poderia oferecer a melhor hospedagem da aldeia para os visitantes.
– Viu algo de estranho por aqui, Leklerk? – Perguntou Haia.
– Sacerdotes de Hiniar estiveram por aqui há pouco. Estão caçando um demônio. Mas não vimos nada.
Aquela era uma aldeia pequena, com cerca de trinta cabanas apenas, feitas de madeira e teto de palha, com pequenas janelas redondas com cortinas de tecido, arquitetura típica dos gauleses. Havia no máximo umas duzentas pessoas no local.
– Ela tá por aqui. – Pressentiu o arauto de Hoguz.
Mesmo sem compreender exatamente o que Mit disse, Leklerk se espanta. O arauto de Hoguz circula procurando por crianças, calculando que Tarash àquela atura já deveri ater o corpo de uma menina de 6 ou 7 anos, talvez mais.
– O que houve? – Perguntou Haia, olhando fixamente para o líder da aldeia.
Mit tenta uma conexão com os animais rastejantes do local, e logo percebe que todos estavam evitando a casa maior da aldeia, justamente a de Sabine, que tinha oferecido hospedagem aos visitantes. Havia algo de muito ruim lá, e ele sabia exatamente o que era.
Quando dividiu as informações com o grupo, Haia resumiu o plano:
– Já sabemos onde vamos ficar.
Quando chegaram à casa de Sabine, a coroa gaulesa logo tratou de apressentar os guerreiro a suas filhas, Kristen, Ulan e Bianni. Era mulheres feitas, com filhos. Cada uma delas tinha dois ou três maridos, como era o costume do matriarcado na ilha de Galian, de onde vieram.
– Sabine, quantos quartos há na sua hospedagem? – Questionou Haia.
– Quantos forem necessários, jovem cavaleiro… – Respondeu a dona, tentando ser sedutora.
A cabana de Sabine era imensa, um verdadeiro casarão, a maior daquela vila de pescadores. Ficava num canto da pequena praia, bem de frente para a areia, onde estavam alguns barcos de pesca. Como já estava anoitecendo, ela ofereceu ao grupo os melhores quartos da casa, no segundo andar, que eram justamente os aposentos de suas filhas.
No primeiro andar da cabana, havia um grande salão que servia de refeitório e cozinha, e dava acesso ao segundo andar, ao porão no subsolo, e a um armazém anexo. Normalmente, Sabine recebia eventuais viajantes no porão, onde também guardava utensílios e alguns alimentos estocados. Mas a coroa gaulesa fazia questão de dizer que aquele grupo de hóspedes era especial.
No armazém, onde eram guardadas as ferramentas, também dormiam os homens jovens e adultos solteiros da família de Sabine, junto com os animais da casa. Alguns moleques, entre 12 a 17 anos, saem de lá para ver os cavaleiros do exército velga. Para eles, era como se fossem verdadeiros heróis lendários passando pela humilde e sem graça aldeia onde moravam.
Sabine conduziu os forasteiros ao segundo andar, onde havia um aposento grande para as crianças e jovens mulheres solteiras. No fundo, ficavam os quartos principais, usados por suas filhas e os diversos maridos. Alguns deles estavam sendo enxotados para que os cavaleiros velgas pudessem descansar. Um dos aposentos, que tinha sido esvaziado, não era grande, mas tinha conforto e aconchego com uma cama grande e uma beliche num canto para duas pessoas. Kristen pegou Mit pelo braço e levou para seu próprio quarto, já oferecendo sua cama arrumada para que o arauto pudesse descansar.
– Kristen, você conhece todo mundo aqui? – Perguntou Mit.
– Si, cavalier… Au fait, tu és un héraut? – Interessou-se Kristen, embolando um velgaulês.
– Sim, bela donzela… E você notou algum criança nova por aqui?
– Non, cavalier… No ha possibilité que cela arrive.
A cabana também tinha um terceiro pavimento, menor, onde ficavam os aposentos de Sabine e da vovó Edit, sua mãe. Naquele momento, uma revoada de insetos começou a tomar conta do segundo andar, o que incomodou Sabine. Haia também começou a escutar insistentes latidos de cães vindos do armazém. Otu e o guardião então desceram para investigar o local. Era tipo um celeiro. Um dos moleques observava atento, enquanto os cães continuavam latindo sem parar no interior do recinto.
– Aí, moleque… Tem gente morta aí dentro? – Perguntou Otu.
O garoto, que devia ter uns 12 anos, não compreendia a língua velga, mas começou a latir e apontar para dentro do armazém. Mit também já tinha descido, enquanto Weiss continuava coversando com Sabine no segundo andar, investigando cada aposento.
O arauto de Hoguz então decidiu entrar no celeiro e viu, num dos cantos, três cachorros latindo sem parar, enquanto olhavam fixamente para cima, como se tivessem visto algum bicho no teto. Mas o teto estava vazio. Seja o que estivesse ali, devia estar no segundo andar. Dois garotos pareciam tentar acalmar os cães, sem sucesso. Decidido a alcançar o quaro em cima do celeiro, Mit voltou rapidamente para o salão.
Mas agora Sabine já estranhava aquele comportamento bisbilhoteiro, e começou a ficar impaciente com o grupo:
– E então? Vão se hospedar aqui ou não?! Minha casa não é um circo de atrações… Ou escolhem um quarto e ficam, ou podem sair daqui!
– Sabine, temos que resolver um problema urgente antes… – Explicou Mit.
– Então vão resolver na cabana de Leklerk! – Indigna-se a dona da pensão, começando a se exaltar.
Outras pessoas começam a sair das cabanas, devido ao início de gritaria,
– Precisamos voltar ao segundo piso, me permite? E aí ficamos hospedado na sua casa, pode ser?
– Ninguém vai ficar bisbilhotando minha casa! Saiam daqui agora!
– Ou você cala a porra da sua boca ou arranco sua língua com uma flexa. – Ameaçou Weiss, mudando o tom da conversa.
– O quê?! Tá pensando o quê, seu macumbeiro de merda! – Gritou a coroa, revoltada.
Otu, que estava bem perto, pranchou a coroa com um tapa muito forte na têmpora, que a desmaiou imediatamente. Alertados pela confusão, os homens da casa saíram armados com facões, enxadas e ancinhos, em defesa de Sabine. Eram uns dez, entre jovens e adultos. Enquanto Haia e o vilando se preparavam para encará-los, Mit e Weiss correram novamente para o segundo andar, em direção aos quartos que ficavam sobre o armazém.
O arauto abriu a porta de um dos quartos e viu algumas meninas chorando. Uma delas tentou agredir Mit com uma vassoura, mas a tentativa foi apenas patética. Weiss olhou os demais aposentos, e só viu mulheres e crianças aparentemente comuns. No salão, Otu já tinha matado três gauleses furados no Pique do Tiwaz, enquanto Haia tentava apenas poupá-los, lutando com a clavícula quebrada. Agora já havia uma gritaria generalizada que chamava a atenção de toda a aldeia. Leklerk e o filho, entre outros da comunidade, já se juntavam à reação contra os forasteiros.
A situação começava a ficar fora de controle, e Weiss então decidiu matar todas as crianças dali, só por precaução. Foi alvejando todas no coração, uma a uma, para horror das gaulesas que assistiam à matança em choque. Enquanto isso, Haia e Otu continuavam contendo, até com certa facilidade, a reação dos pobres pescadores, que tombavam mortos em série.
Já tinham revistado todo o segundo andar quando Mit se deu conta. Os cães latiam para o alto. Tarash podia estar no último pavimento. Ele e Weiss então subiram o último lance de escadas e chegaram até duas portas. O guardião entra numa delas, e vê um aposento vazio. Era um quarto bem grande. Pela pintura pendurada numa parede, era o de Sabine. O arauto de Hoguz tentou forçar a outra porta, que estava trancada. Do lado de dentro, ouviram a voz de uma velha:
– Sortez!
Mit Maikon então arrombou a porta para testemunhar uma cena terrível: uma velha gaulesa estava sentada em uma cadeira de balanço, com olhos que pareciam vidrados, e apenas murmurava, enquanto acariciava o cabelo de um vermelho vivo da criatura aninhada em seu colo:
– Ma petite fille…
Agarrada à pobre anciã, estava uma pré-adolescente com chifres, asas e pele vermelha, sugando seu sangue através de uma mordida no pescoço.
Quando viu o arauto, a criatura o olhou de uma forma que ele não esqueceria jamais. Com certeza tinham encontrado Tarash.
Continua…
