156. Krul Escorraçado

Tábua das Lendas, em Hanzi-Radnar

Antes: 155. A Roleta de Hanzi-Radnar

Apreensiva, a jovem ileana se aproximou da grande roleta feita de madeira, couro e metal, com signos sinistros cravados em cada casa. Girou-a com todo o cuidado do mundo, como se sua vida dependesse disso, e dependia mesmo.

Mas a roleta implacavelmente lhe presenteou com o signo do Grilhão, que indicava a escravidão. Destino que só não era pior que o signo da Caveira, que representava a morte. A plateia vibrou com o resultado, e vários Amigos mais salivantes já separavam moedas de ouro para comprá-la no leilão do mercado, o que viria a seguir. A jovem ileana começou a chorar. Sua última esperança de uma vida melhor tinha acabado.

Os Colegas a retiram da arena, enquanto Claude bate palmas. O Amigo dos Amigos continuou o show, pedindo para que a galera indicasse o próximo a girar a roleta. Após ser escolhido ruidosamente, o tigunar foi tentar sua sorte: Grilhão. Estava fodido também. A galera comemora. A mão de obra escrava daquele sujeito com certeza faria diferença na cidadela.

O próximo a roletrar foi o general de Darklands. Dependendo do resultado, estava pronto para melar o jogo, virar a mesa, meter o pé dali na marra ou morrer. Caiu o signo do Escorraçamento. “Not bad”, pensou Krul, na expressão dos bárbaros. A galera vibrou. Há algum tempo não tinham aquele programa no espetáculo.

Os Colegas então se aproximaram de Krul e amarraram seus braços junto ao corpo, assim como suas pernas, que foram conectadas por uma corda até um cavalo. O animal então foi solto pela arena, e começou a a galopar dando voltas ao redor da Roleta, arrastando o general da Dokhe pelo piso de saibro. Alguns anões entraram no local com baldes cheios de bosta e mijo, e começaram a arremessar os detritos no vulkânico, que se encolhia e tentava se proteger das escoriações. A galera se escangalhava de rir com aquela merda toda. E alguns Amigos aproveitavam para participar, arremessando ovos e tomates podres.

Mas o general era cascudo, e sobreviveu bem à provação com apenas alguns ralados mais feios, mas completamente emporcalhado. Congratulando Krul pela sorte, Claude o conduz até um grande salão de banho, onde recuperou suas armas e pertences. A partir de agora, ele era um Amigo, e se quisesse poderia viver ali para sempre, sustentado pela cidadela, sem nunca mais precisar trabalhar.

Enquanto isso, na arena, um dos gauleses teve que sair na porrada com o candidato velga, e o outro foi condenado ao estupro público, um dos destinos mais temidos e controversos da Roleta. Na luta, nenhum dos pobres coitados parecia levar jeito pra coisa. No entanto, em certo momento o gaulês baixinho conseguiu furar o olho do oponente com uma lança, o que fez o combate terminar devido ao desespero, hemorragia e, finalmente, morte do migrante velga.

Quando Krul deixou o salão de banho, Claude já tinha consultado os anciões e se ligado que aquelas insígnias com gargos rampantes eram de um oficial de altíssima patente:

– O que um general velga estaria fazendo em Hanzi-Radnar, senhor? Penso que não viverá entre nós. Ou estou errado?

– Claude… Na verdade vim atrás de ver com meus próprios olhos o que está escrito na Tábua das Lendas. – Respondeu Krul.

– Eu sabia que não seria apenas uma visita, senhor… A Tábua também promove a nossa cidadela. Na última lua, tivemos a visita ilustre de uma feiticeira muito poderosa. Ela nos encantou a todos, e se ofereceu a girar a roleta duas vezes. Na primeira, foi estuprada… E gostou! Poderia ter se tornado amiga a seguir, mas pediu para roletrar novamente! E na segunda vez, tornou-se Amiga dos Amigos! Simplesmente sensacional! É por isso que eu amo essa cidade!

– Deve ter sido uma noite especial. – Concordou o general: – Era bonita a tal feiticeira?

– Era maravilhosa! Fiz questão de entrar na fila para fodê-la. Foi tão intenso que passei a noite e o dia seguinte completamente estafado… A mulher é uma máquina! – Confidenciou o Colega, que sempre eram maioria na fila do estupro.

– Sorte dela e de quem comeu, né? Sorte para todos. – Ironizou Krul, sabendo exatamente o motivo do cansaço do cara: – A propósito… Me afeiçoei àquela garota que virou escrava. Saberia me dizer com quem posso negociar para comprá-la?

– Posso levá-lo ao comprador da escrava, general… E também ao templo, para ver a Tábua. Agora és um Amigo! Pelo menos enquanto não colocar o pé para fora da cidadela novamente.

– Vamos atrás da menina primeiro. Gostei mesmo dela. E acho que me trouxe sorte.

Claude então levou Krul até uma sala interna usada pelos Colegas, onde consultou os livros que registravam o destino da escrava.

– Está com a família de Jan Linus. Venha comigo.

Os dois então seguiram pelo interior da cidadela, que de fato era bastante limpa e organizada, o que contrastava com a imagem orgiástica que o general fazia daquele lugar profano. Quando chegaram lá, Lynn já tinha um aspecto bem melhor, pois tinham lhe dado um banho e trocado suas roupas, que agora eram sensuais e transparentes. No momento, era disputada pelos dois filhos adolescentes do sujeito.

Quando viu Claude chegar com o forasteiro, Linus perguntou o que ele queria. O Colega então lhe informou que Krul era um novo Amigo, e desejava comprar a escrava recém adquirida. O velho abriu um sorriso. Os meninos estavam loucos para brincar com a garota, mas ele tinha a intuição de que poderia ganhar um bom dinheiro a revendendo.

– Quanto seria? – Perguntou Krul

– Por 10 moedas de ouro você a leva. Paguei 5 nela.

– 8?

– Fechado. – Disse Linus, apertando a mão do general.

Krul entregou a quantia ao velho, que mandou chamar Lynn, para tristeza dos filhos.

– Muito obrigado. Penso que ela poderá gerar grandes Petersens. – Explicou o oficial, para surpresa da Lynn, que no fundo gostou da notícia.

– Agora podemos ir ao templo, senhor?

– Sim, vamos.

Lynn Haramis não parava de olhar para Krul, com uma expressão que misturava agradecimento, alívio, espanto e um pouco de medo. O general piscou para a jovem. Quando chegaram ao templo, ela teve que ficar do lado de fora, vigiada pelos Colegas que tomavam conta do local, pois era uma escrava.

– Algum interesse específico, general? – Disse Claude, apontando para uma parede de pedra gigantesca, com milhares de inscrições minúsculas, que tomava praticamente toda aquela enorme câmara sagrada. Era um bloco com mais de 20 metros de altura e 50 de largura, iluminado por piras acesas posicionadas em frente ao painel, no chão, a cada três metros.

– Quero conhecer a história de um cavaleiro de Hefestus que derrotou sozinho um dragão de fogo no ciclo Selar.

– Izakiel Vik Temi! – Exclamou Claude, com a resposta na ponta da língua: – Venha por aqui, que eu lhe mostro as inscrições!

Claude levou Krul para um canto da pedra e arrastou uma plataforma que funcionava como escada para que pudessem alcançar a altura onde a história do arauto estava registrada.

– Você lê escrita rúnica antiga, general?

Krul não fazia ideia. Falar, ele falava várias, mas mal lia o velga, sua língua mãe. E não escrevia nada. Escrever era coisa de magos e sacerdotes. Claude logo percebeu, e se ofereceu para ler os trechos importantes. Mas o general pelo menos reconheceu o signo de Hefestus naquela linha esculpida na pedra. O Colega então começou a narrar:

Izakiel Vik Temi atraiu Hossegor para uma planície desolada, num lugar que ainda era habitado por gigantes, e usou a Cornucópia Amestista para tentar controlar o dragão de fogo. Em outra linha, afirmava-se que ele levava a Espada de Hefestus, mas tinha perdido o colar de proteção anos antes. O arauto não sabia que Hossegor viria para a batalha com uma armadura feita de cristais de Kali, a pedra preciosa e radioativa que era um dos ingredientes da Aurora da Morte.

Usando a cornucópia, Izakiel conseguiu paralisar o corpo de Hossegor, mas não a mente do dragão, que conjurou a energia infernal através de secreções do próprio corpo reagindo aos cristais, exatamente no momento em que o arauto usava toda sua energia na espada de Hefestus. A explosão que se seguiu foi a maior registrada em Asgaehart até aquele tempo. Um pequeno sol brilhou no local e pulverizou toda a matéria num raio de centenas de quilômetros, criando o deserto conhecido hoje.

Exatamente no centro daquela enorme região arenosa e inóspita, estava o local conhecido como Vik Temi: uma faixa de areias ferventes e radioativas, que impediam qualquer tipo de vida no local, e ainda funcionavam como um sifão de magia.

– Deseja saber algo mais, senhor?

– Não, Claude. Obrigado.

– Pretende ficar aqui hoje? Já é noite, e temos um aposento preparado para o senhor… E sua escrava.

Krul dispensou a estadia. Tinha a informação de que precisavam, e agora o destino seria o deserto de Vik Temi. Com certeza era pra lá que a Quadra de Ases estava seguindo, quando os viram desembarcando na costa siméria, na manhã daquele dia. Àquela altura, provavelmente já estariam chegando no deserto, se fossem a cavalo. O tempo agora era seu inimigo.

Às portas da cidadela, Claude então se despediu de Krul e disse que não o consideraria um Inimigo, mesmo quando ele saísse de Hanzi-Radnar. Também garantiu estar do lado dos velgas na guerra que se travava àquela época. E desejou sorte ao general contra a feiticeira gostosa que trabalhava para os bárbaros.

– Espero que vocês encontrem a cornucópia antes dela… – Afirmou Claude quando os guardas abriram o portão principal da cidadela.

Quando o Colega trancou o portão, Lynn perguntou se devia seguir o general, e se ele a queria mesmo como escrava.

– Você será uma Petersen. – Definiu o coroa vulkânico, pronto para incluí-la em seu harém de esposas legítimas, o que era permitido pelo patriarcado de Darklands, mas apenas para os guerreiros. Assim como seu recentemente falecido amigo Toni Ferro, era um bode velho que gostava de capim novo.

Quando iniciaram a descida das escadaria, Krul viu novamente o pedaço de pernil podre, agora coberto por larvas, olhou para a novíssima conquista que caminhava ao seu lado, bonita, arrumada e cheirosa, e sentiu-se poderoso. Agora já era noite escura e precisava achar os caras, certamente. Mas antes daria um jeito de inseminar sua mais nova esposa ali mesmo nas escadas, ainda que fosse rapidinho.

Continua…

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