159. O Deserto dos Humilhados

Deserto dos Humilhados

Antes: 158. Merlin e Haia contra os vagabundos

Antes do sol nascer, o voo do Raven pardo atravessou quase toda a chamada Terra Vélgica, saindo de Van Hal, passando por Terras Altas, Darklands, os Piktos, sobrevoou o desfiladeiro de Aden e, ainda pela manhã, chegou a uma vila na costa do Lago Horanj, perto de Barbeij, onde se  encontraram com o cavaleiro da Bruma, que já estava por lá desde o fim da madrugada.

– Desde que cheguei aqui, ninguém entrou no deserto. – Afirmou Jan Roxetou: – Em Barbeij, ninguém viu nada diferente.

– Devem ter usado o portal daquele cara. – Lembrou Owen, que tinha ouvido os relatos de Haia Kahn sobre a missão em Dankel.

– Sem os estandartes, estamos expostos. – Percebeu Krul, se lamentando: – Eu devia ter pedido a Haia e Merlin para deixar pelo menos um deles com a gente…

– Fica tranquilo que general nunca erra, nunca esquece. Se não temos eles aqui, é porque não vamos precisar. – Incentivou Weiss.

Mas o general estava receoso de encarar a Quadra de peito aberto ali naquele lugar inóspito. Era de manhã, e só de olhar para o interior do deserto, já dava pra sentir o calor inferna que emanava de lá.

– O que acha de sobrevoarmos o deserto, Mit? – Questionou Krul.

– Seja quem estiver no deserto, vai nos localizar facilmente. – Respondeu o arauto.

Otu e Eris fumavam um cigarro de dente de leão atrás do outro, para conter a ansiedade. O vilando só pensava na Espada de Hefestus, podia sentir sua energia ali. Através dos sentidos de algumas víboras do deserto, Mit sentiu que havia muita movimentação na parte central do deserto, o que era bem incomum para elas. Seres vivos tinham entrado na área proibida, e nenhum tinha retornado. Tudo isso nas últimas 24 horas. Não era possível para Mit sentir se eram homens ou animais, mas se fossem humanos, seriam mais de vinte.

– Podemos tentar ober mais alguma informação em Rassan ou Runa. – Sugeriu Mit.

– Esses reinos foram tomados por bárbaros agunares e tigunares há alguns séculos. Acho difícil que tenha sobrevivido alguma memória sobre Izakiel por lá. – Respondeu o general: – A melhor opção é um sobrevoo.

– Nesse caso sugiro dividir o grupo em dois: alguns voam comigo, e outros seguem pela areia. – Disse o arauto.

– Não vamos nos separar. O Raven leva a gente até onde der. Essa porra de separar só fode a gente. – Reagiu Weiss: – Com todo respeito, general. SE não temos um plano melhor, vamos pra lá direto e sair na mão com os caras.

– Então bora. – Concordou Mit.

– Bora. – Definiu Krul.

Quando o Raven se aproximou da região central do deserto, onde as areias eram mais vermelhas, a equipe pode perceber, ao longe, um cenário bizarro: um sujeito monstruoso, com a pele empedrada, comandava o trabalho braçal de alguns escravos, que cavavam sem parar uma grande cova na areia. Alguns já estavam caídos, aparentemente mortos, pois ninguém conseguia suportar aquelas condições por muito tempo. Á exceção do sujeito pedregoso. À distância, um ponto de luz azul indicava que mais gente estava chegando para continuar a escavação, que já tinha grandes proporções àquela altura.

O Raven cinzento já começava a refugar, sentindo que a partir dali todos poderiam morrer rapidamente. E ainda estavam a uma grande distância daquele sinistro canteiro de obras nas areias escaldantes do deserto.

– Por que esse puto consegue resistir? – Questionou Weiss, já começando a sentir suas energias vitais sendo sugadas.

O resto do grupo sente os mesmo efeitos: cansaço, tonteira, a pele extremamente seca, como se estivesse empedrando. Antes da situação ficar crítica, Mit deu meia volta com o Raven, para que se afastassem dali rápido.

– Caralho, estamos virando pedra! – Exclamou o guardião.

– É desespero, Mit! – Gritou Otu, a milhão.

– Eles ainda não acharam a cornucópia. Ou não estariam mais cavando. – Deduziu Weiss.

– Temos que quebrar esse portal e matar o monstrão de pedra. – Resumiu Otu.

– Precisamo saber onde está a outra ponta desse portal. – Sugeriu Mit, enquanto retornavam, sem deixar de olhar ao longe para o centro do deserto: – Weiss, podemos ir pelo limbo até lá e alguém pega um dos mortos? Aí saberemos de onde estão vindo. Deve ser perto, pois são nativos ileanos.

– A ideia é boa, Mit. Mas quando chegarmos lá, é pau neles primeiro. Bora.

Weiss já tinha ouvido dos mestres no templo de Hagalaz que, quanto mais inóspita uma região de Asgaehart, muito pior seria o mesmo local no Gardahal. Por isso aconselharam a jamais ir para a Terra dos Gigantes, que no limbo eles chamaram de vales ao sul. O deserto de Vik Temi, pela lógica, não deveria ficar muito atrás. E cada área tinha sua própria criatura protetora, como eles já tinham percebido. O Gardahal só era mais ou menos acolhedor para o próprio guardião, alertava sempre Jason Saga.

O Raven então pousou no deserto, após se afastar alguns quilômetros. Ainda estava calor pra caralho, mas a pele tinha parado de esturricar. Assim que entraram no limbo, viram que também estavam em um deserto de areia, com muitas dunas, bem parecido coo o Vik Temi. Caminharam por algum tempo na direção pretendida, sem percalços. Mas aí viram um monte de areia com cerca de dois metros de altura se erguer à frente deles, avançando como uma onda ameaçadora na direção do grupo.

– Temos que matar esse minhocão! – Gritou Otu, que não fazia a menor ideia de como fazer aquilo.

Ao tentar se conectar com a criatura, Mit descobriu que eram os guardiões do Deserto dos Humilhados. Gigantescas centopéias carnívoras que engoliam, digeriam e por fim cagavam os condenados como um detrito de areia seca. E outros montes como aquele começaram a se levantar em todo o lugar por ali.

Se dessem mole ali, seriam engolidos, digeridos e cagados.

Continua…

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