160. Trabalho Forçado

Mantala no Globo de Liz

Antes: 159. O Deserto dos Humilhados

– Só lembro que não posso usar o pulso aqui… Não quero ficar com aparência de 70 anos. – Disse Mit, relembrando o episódio anterior.

– Posso volta pra Asgaehart e você usa. – Sugeriu Weiss: – De arco e flecha não vai rolar de encarar uma porra dessa.

Uma das centopeias já tinha se elevado sobre a superfície, e agora avançava sobre o grupo. Outras continuavam por baixo da areia. Eram muitos. Precisavam sair dali naquele momento. Então o guardião abriu a capa e a equipe retornou a Asgaehart. Estavam no limite da área crítica, mas podiam suportar. Weiss e Mit então puseram em prática o plano que tinham combinado: correram na direção do centro do deserto, até quando puderam suportar, e entrarm no limbo.

De volta ao Gardahal, no Deserto dos Humilhados, não encontram nenhum sinal das centopeias. Resolvem aguardar por um instante, quando sentem a areia abaixo deles começar a tremer.

– O bicho tá vindo de baixo com a boca aberta pra nos engolir! – Advertiu Mit: – Na boa, isso é um recado pra gente não vir mais pra cá…

O guardião entendeu e abriu a capa. Quando retornaram, tiveram novamente de correr pra caralho de volta aos companheiros para não ficarem fodidos. Estaca zero.

Apesar do revés, Krul estava confiante. Não tinha usado ainda nenhum tiro do arco do Tiwaz. E levava 15 amigos de ferro. Ferro grosso. Otu apelou para uma cafungada de poeira cristal, e ofereceu um teco ao general, que guardou no bolso para o caso de necessidade.

Weiss contatou o Templo, questionando se era possível ao guardião invocar voluntariamente o anjo negro de Hagalaz. Hal Gurion respondeu:

– Não deseje isso. Mas sim, é possível.

– Pelo que zela o anjo negro?

– O anjo negro de Hagalaz zela para que as coisas sigam como devem ser. É o guardião do destino. A porta final. Personifica o poder supremo. Mais forte do que tudo que vive.

– Tem hora que só um desses resolve. – Concluiu Weiss.

– Acho que a melhor ideia é você ir sozinho pelo limbro, amigo. – Sugeriu Mit.

Weiss olhou para o grupo e colocou o capuz, transportando-se para o Gardahal. Foi caminhando pelo deserto com a capa aberta, postura cheia de marra, de forma a mostrar que o guardião de Hagalaz tinha chegado na parada. Nenhuma criatura se moveu por lá. Então ele caminhou mais ou menos até onde achava terem visto a escavação em Asgaehart

Quando o guardião retornou a Asgaehart, estava à beira de um buraco enorme. No fundo, o monstro de pedra continuava comandando o trabalho escravo de pessoas que saíam de um portal azul. Já eram centenas os mortos espalhados no buraco. Alguns tinham virado pedra, que já se esfarelava. Perto de onde estava, viu um resto humano petrificado. Provavelmente era de um pé. Resolver catar o fóssil e voltou ao Gardahal aparentemente sem ser notado.

Retornando ao local onde a equipe se encontrava, Weiss entregou o pé fossilizado para Eris, que começou seus trabalhos de clarividência. Após alguns minutos, a feiticeira elemental afirmou: eram mesmo nativos ileanos que estavam sendo capturados de algum local próximo, provavelmente nos arredores de Barbeij.

Mit então chamou o Raven, e eles partiram sobrevoando os arredores do deserto de Vik Temi em Barbeij, procurando pela outra ponta do portal azul. A oeste da cidadela, numa pequena aldeia de pescadores mais isolada, puderam vê-lo, de muito longe. Mas logo foi apagado. Deviam ter sido vistos também. Ou pressentidos.

Quando chegaram à vila costeira, minutos depois, de humildes lavradores e pescadores, havia muitas mulheres nas ruas, chorando, alguma transtornadas. Tinham sequestrado quase todos os homens e jovens da aldeia. E eram apenas três os sequestradores: uma feiticeira vestida de vermelho, que os enfeitiçou. Um mascarado, que abriu o portal. E um guerreiro brutal usando as armas mortais de um arauto de Helgar. Fizeram os escravos passar por um portal azul, de onde nenhum tinha retornado até agora.

– Por favor, ajudem-nos a salvar nossos homens e meninos! – Implorou uma das anciãs, que falava o velga, quando viu a chegada de Krul e seu grupo.

– Conte-nos para onde foram, mulher. – Pediu Krul.

– Depois que fecharam o portal, seguiram a cavalo na direção de Barbeij. – Explicou a velha, ainda chorosa.

– Minha senhora, infelizmente esse portal levava pro meio do deserto de Vik Temi. Sinto muito pelo seu povo. Mas vamos atrás de quem fez isso para impedir novas matanças. – Lamentou Mit.

A anciã desabou com a notícia. Novamente montados no enorme Raven pardo, não precisou de muito tempo para avistarem novamente o portal, em outra aldeia pequena próxima, com pessoas sendo conduzidas até ele. Mais uma vez, assim que tiveram o avistamento, o brilho se apagou. Mas agora estavam ainda mais próximos, e havia uma diferença na cor do portal, que tinha um tom lilás. Quando chegaram ao local, o mesmo roteiro: sequestros, choro e ranger de dentes. Mas os cavalos dos forasteiros tinham sido deixados na aldeia.

– Eles foram no portal dessa vez. – Disse Weiss.

– E foram pra outro lugar. Não pro deserto. – Arriscou Mit.

– Com certeza. – Disse Krul.

Eris Van Vossen se afastou do grupo e tentou se comunicar com os espíritos elementais da região, tentando obter alguma informação que fosse relevante, mas não obteve sucesso.

– Temos de pensar com calma… – Disse Weiss, sem saber o que fazer: – Da outra vez, fecharam o portal e saíram a cavalo. Dessa vez entraram no portal.

– É, galera… Temos de voltar pro deserto. – Avaliou Mit: – Ficar nessa de gato e rato não vai dar em lugar algum.

– Se ninguém tiver outra ideia, vamos voltar ao deserto. – Perguntou Krul: – Pelo menos o gigante alamano ainda está lá, com certeza.

– Curioso pra saber como ele aguenta ficar lá… – Comentou o arauto de Hoguz.

– Curioso pra saber como ressuscitaram aquele monstro depois do Veroforte… Completou Owen: – Tiveram de colar a cabeça.

– A pele dele agora parece ser feita de pedra. – Testemunhou Weiss.

– Talvez ele seja agora um tipo de morto-vivo… – Cogitou Mit, antes de perguntar: – Eris, você conhece algo que possa nos proteger contra aquelas mazelas?

– Não há nada aqui que possa nos ajudar. Só há esqueletos e fósseis. Esse deserto é uma tumba gigantesca a céu aberto. – Respondeu a elemental.

Naquele momento, Otu já tinha se entupido de poeira cristal para além de todos os limites, o que era uma sentença de morte. Mas ali, naquela hora, tinha a força de um urso grande. Já quase no fim da tarde, o Raven então voou até onde conseguiu, quando puderam ver ao longe, novamente, o brilho do portal, novamente na cor lilás, bem no fundo de um enorme buraco escavado na areia. Apenas dois escravos continuavam ali, cercados por centenas de cadáveres petrificados e outros já desfeitos em forma de areia.

Quando pousaram, entraram imediatamente no limbo. Antes de começarem a correr na direção da escavação, no entanto, Krul, Mit, Owen, Otu, Eris e Weiss se espantaram com uma visão que jamais aguardariam no Gardahal: o portal lilás estava ali, na mesma posição que em Asgaehart. Perto dele, Mantala flutuava no interior do que parecia ser uma bolha transparente, em posição de lótus, que levitava a uns seis metros do chão.

Continua…

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