145. As Ordenações Iniciais da Cavalaria Velga

Armadura do Megatrix, em Van Hal

Antes: 144. Casamento, brumas e o guardião

539 cl. Mês de Hagalaz. Inverno. As últimas missões enviadas pela Clave para o Mar de Hill tinham sido muito bem-sucedidas, apesar da baixas. Entre os mortos, alguns dos Gigantrixes que buscavam confirmar sua vaga na lendária távola de pedra, como Toni Ferro, morto por Vitiferralis, que tinha reaparecido depois de longa ausência, para terror de todos. E também o velho Darius Agazar, que mesmo desaconselhado pelos curandeiros resolveu partir para sua aventura derradeira, morrendo em combate como seu pai, o pai de seu pai, e assim por diante em sua linhagem.

A expulsão dos colonos vulkânicos tinha provado definitivamente a eficácia, eficiência e efetividade da divisão conhecida como “Krieg”, uma criação do General Jules Flanagan. Formada por pequenas patrulhas de até oito integrantes, por sua vez subdivididas por duplas ou DKs (a menor patrulha possível), a Krieg era uma força especializada em incursões, infiltrações e guerra de guerrilha, e agrupava múltiplas competências: guerreiros, magos, cavaleiros da bruma, arqueiros e sacerdotes, em grupos coesos, equilibrados e bem entrosados.

A vocação de Jules como reformador tinha gerado regras claras para o exército velga, que ainda não se reconhecia como um Império, embora já se estruturasse de fato como se fosse. Eram as Ordenações Iniciais da Cavalaria Velga, a unificação formal das regras para a Dokhe e a Hokhe. Com a recente criação da patente de Gigantrix, as 27 vagas na Clave passavam a ser fixas: uma cadeira para o Megatrix, a mística armadura dourada, o comandante máximo das duas cavalarias, cargo que estava vago há séculos; um general para a Dokhe, vaga hoje ocupada por Krul Petersen, e um general da Hokhe, o mais jovem da história, Jules Flanagan, então com 29 anos.

Agora as duas cavalarias tinham direito a doze Gigantrix na Clave, cada um deles representando um reino, ducado, marca ou condado dos velgas: quatro para Van Hal (a capital); três para Terras Altas, Darklands e Aquitan (reinos e ducados); 2 para Joy Divile, Aussflag e Luke (marcas), um para Bruxel, Fleissig, Echen, Mastrik e Halte (condados).

O resto do oficialato era composto por Gargo Gigatrixes, os responsáveis máximos pelas operações das cavalarias, cada um deles comandando uma fortaleza ou academia, e os Gargos, o cargo histórico dos oficiais velgas, símbolo de força e liderança, responsáveis pelas principais missões e operações do exército.

Anteriormente, Jules já tinha “criado” a patente de Destinado (sendo ele próprio o primeiro a recebê-la), para designar aqueles cavaleiros aspirantes ao posto de oficial. Os cavaleiros formados eram conhecidos há séculos por Maveriks, tal como a raça de cavalos velgas que montavam. Entre os recrutas, haviam os Flâmages da ACAFAM, jovens cadetes da elite velga, preparados desde cedo para se tornarem oficiais, os Vélites, assistentes escudeiros, e os Aprendizes, patente mais rasa do exército.

Com o domínio de toda a Chapada e a costa norte do Mar de Hill, em sua fronteira sul; o controle da Muralha de Azrael e do Vale dos Reis, a oeste; a retomada de Yaztrik e Danzig, e aliança com o Senado de Dankel, a leste, os velgas tinham alcançado uma hegemonia nunca antes experimentada na terra que chamavam de sua desde o início daquele Ciclo Lunar.

Mas faltava o grande desafio na fronteira a nordeste: Ighan Pendragon, o Mestiço, autoproclamado Imperador do Oriente, que ainda tinha em seu poder a histórica cidadela velga de Shyne. Dispondo de um tesouro gigantesco tomado de Dankel, ele contava com praticamente todos os exércitos mercenários disponíveis: gladiadores tigunares de Runa, renegados velgas do planalto oriental, tribos ileanas do oriente esquecido, bárbaros vulkânicos dos desfiladeiros, literalmente comprados a peso de ouro para a guerra contra a Tetrarquia encabeçada por Van Hal.

O trunfo maior de Ighan, no entanto, era sua patrulha de elite, antes conhecida como Pentagrama de Treva, famosa por ter esterilizado a cidadela de Darklands há 25 anos com uma Aurora Infernal. Desde a morte de dois de seus integrantes, há cerca de um ano, e a entrada de um misterioso sujeito mascarado com a impressionante capacidade de abrir portais dimensionais, as proezas do grupo começaram a circular nas tabernas de Asgaehart. O roubo do legendário tesouro dos senadores era a última história contada de boca em boca.

Em Dankel, tinham sido chamados de “Quadra de Ases”: o monstruoso Stonehand, que conquistou o público até morrer na semifinal do torneio dos Verofortes; a feiticeira Mantala, uma ex-aprendiz de Imperatrix; King Kraus, arauto de Helgar; e um mascarado desconhecido capaz de abrir estranhos portais. Jules Flanagan mantinha espiões da Bruma monitorando seus movimentos, pois sabia que Ighan apostava neles para dr seus maiores passos naquela guerra. Agora, a Clave teria de decidir como enfrentá-los.

A Clave de Van Hal existia desde o primeiro século, época da fundação da cidadela no lago Hal. Era uma enorme mesa de pedra em formato de ferradura, usada pelos chefes velgas, então invasores daquela região, para definir as estratégias em comum contra os selvagens ileanos, gigantes e outras feras que ainda habitavam aquela parte do continente à época. O chefe mais poderoso de cada reunião sentava na cadeira do Megatrix, sendo que os adeptos da antiga religião à esquerda dele, e os adeptos da religião dos onze deuses à direita.

No início, a Clave só se reunia em momentos cruciais, e não havia vaga cativa. Os 27 chefes guerreiros mais poderosos de Van Hal, Viktoria, Terras Altas e Aquitan simplesmente tomavam o seu lugar na mesa, instalada no salão nobre do Castelo de Van Hal. Darklands seria fundada depois. Mas, após as primeiras invasões dos bárbaros (alamanos, vulkânicos, tigunares e agunares, vindos do Mar Externum), no século II, Dokhe e Hokhe já estavam consolidadas e tinham seus próprios generais, que passaram a ocupar o lugar imediatamente ao lado do Megatrix à mesa.

Do primeiro século até meados do século II, quando a lendária armadura dourada foi forjada, a cadeira do Megatrix foi ocupada alternativamente pelos generais da Hokhe ou da Dokhe, apenas em momentos cruciais, e de forma temporária. E desde o fim das guerras de conquista da Terra Vélgica, e a morte do último comandante-em-chefe em 253 cl, aquela posição não era ocupada. Mesmo após as primeiras invasões bárbaras, e a queda do Reino de Azrael, dez anos depois da morte do último Megatrix, os velgas não sentiram necessidade de nomear alguém para aquela missão.

A queda do Reino de Azrael, povo que construiu a muralha para se proteger dos gigantes e selvagens que habitavam a Terra Velgica no fim do ciclo selar, há mais de 500 anos, também marcava o fim do antigo Império Rubro, e de certa forma, mesmo que involuntariamente, significava a independência e autodeterminação dos povos velgas.

E assim, em sua reunião mais importante dos últimos tempos, a Clave tinha decidido que Dokhe e Hokhe atuariam com o comando único de Jules Flanagan na batalha final contra Ighan pela reconquista de Shyne. Na prática, isso significava o retorno do Megatrix, ainda que o general da Hokhe ainda tivesse dúvidas se iria vestir a santificada armadura dourada.

Mas os tempos tinham mudado. E, se Jules comandaria as cavalarias no que poderia ser a batalha final da guerra, ao general Krul caberia uma missão tão decisiva quanto: liderar uma patrulha velga de elite contra a Quadra de Ases que serviam Ighan.

Continua…

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