144. Casamento, brumas e o guardião

Jason Saga, sacerdote de Hagalaz

Antes: 143. O Manto de Hagalaz

Em Luke, no Mar do Norte, no torreão de Binus Ferro, o cavaleiro Haia Kahn fica sabendo dos planos do Marquês quando o mesmo chama sua filha mais velha, Anna, para conhecê-lo. Era uma jovem ruiva muito gostosa.

– Minha filha Anna tem um dote à altura de um oficial, desde que seja trabalhador, e não um vagabundo. Ela herdará o título de Marquesa.

– E Kiara, onde está? – Perguntou Haia: – Qual a idade dela?

– Kiara ainda é uma menina. Tem 16 anos. E seu dote é menor, e ela não herdará título de nobreza.

– O senhor me permitiria conhecê-la? – Salivou o Dokhe, para contrariedade de Anna, que sai da sala.

– Chamem Kiara! – Gritou o Marquês.

Kiara aparece no salão. Era uma loirinha ainda adolescente, mas já formosa. Quando vê Haia, e descobre que é de raça vulkânica, faz uma cara de reprovação, quase nojo.

– Gostou de Kiara, oficial? – Perguntou Binus.

– Sim, senhor.

– Então logo acertaremos os detalhes da união.

A jovem Kiara deixa a sala visivelmente contrariada.

Quando Haia contou para Merlin seu acerto com Binus Ferro, o necromante se interessou pela filha mais velha do Marquês, mas não deixou de sacanear a escolha do amigo:

– Quando eu pegar esse título de Marquês, tu ainda vai tá levando a Kiara pro parquinho.

Desde o sonho com Imperatrix, Weiss Bier andava pensativo. Sabia que, se procurasse aquele mosteiro nas montanhas, não seria uma visita curta. E ele não se sentia preparado para deixar aquela vida boêmia que levava trabalhando para a Hokhe. Mas não havia o que fazer. Sem avisar ninguém, montou em seu cavalo e rumou em direção às Darklands, que ficava a menos de um dia dali a galope, mais especificamente para a colina onde os sacerdotes de Hagalaz mantinham um templo muito antigo.

Quando chegou ao seu destino, Weiss encontrou quatro velhos sacerdotes, Yul e Hal Gurion, Ander Solus e Jason Saga, que já esperavam o que eles chamavam de “guardião”. O arqueiro de Joy Divile não se surpreendeu com a recepção, e logo já estava aprendendo sobre o Gardahal, nome milenar do lugar que ele até agora chamava de limbo.  Bier percebeu que aqueles homens também estavam preocupados, pois como disse Solo:

– Quando o guardião é convocado, algo muito grave está para ocorrer.

Os quatro anciões também disseram a Weiss que ele devia se preparar, pois o encargo seria tão pesado quanto o poder que aquele manto representava. Era mais do que necessário que ele passasse um bom tempo ali, aprendendo mais sobre os poderes do manto e o estranho Gardahal.

Perto dali, na cidadela de Darklands, Haia Kahn e Melvis Merlin andavam incomodados com a baixa eficácia das brumas. O Gargo Gigantrix Owen Petersen, sobrinho do general Krul e filho de Kal, era o atual responsável pela cavalaria de elite. Apenas uma dezena deles, agora incluindo Haia e Merlin, tinham a patente de Gargo. A grande maioria era de Mavericks, e alguns Destinados. Não eram permitidos Aprendizes, Vélites e Flâmages na Bruma.

– Fale, Gargo Kahn! – Comandou Owen.

– Precisamos intensificar nossos esforços para descobrir uma forma de proteção contra dominação.

– Teu companheiro Merlin é o mago mais experiente da cavalaria. Entendo que ele deveria levar essa demanda ao Colegiado de Imperatrix.

– Vou alinhar isso com urgência com ele.

Há pouco menos de trinta anos, era o próprio Vitiferralis e seu aluno Erik Van Vossen quem desenvolviam as armas da Bruma. Depois que Erik moreru e o velho enlouqueceu, o mago mais experiente da cavalaria fica responsável por preparar as brumas e continuar o aperfeiçoamento daquelas bombas arremessáveis.

Àquela altura, Haia Kahn já tinha consumado o casamento com a jovem Kiara, o que alimentava a zoeira de seus colegas da família Bier:

– Não sabia que Haia era estuprador de menor de idade. – Zombava Wheat quando via o vulkânico.

– Pois quando nascer meu primeiro filho, tu serás o padrinho! – Devolvia Haia.

Melvis Merlin também já tinha se arranjado com Binus, e garbosamente ostentava o título de Marquês, mesmo sem o ser. Anna Ferro era a herdeira da Marca em Luke, e o casamento com o necromante se daria em poucos dias. No colegiado de Imperatrix, em Bruxel, Merlin também reuniu alguns dos magos mais cascudos para melhorar as brumas e outros apetrechos da cavalaria de elite.

A bruma de fuga produzia uma fumaça preta densa, que durava cerca de cinco minutos e se expandia rapidamente para uma área com 50 metros de raio. Já funcionava muito bem. Já a de sono era um vapor incolor que só funcionava se fosse aspirado, ativa durante poucos segundos. Essa tinha falhado seguidamente nas últimas missões e merecia atenção. A bruma de brilho também funcionava a contento, cegando ou pelo menos ofuscando a visão de quem olhasse diretamente para aquele clarão que chegava a se expandir por 10 metros.

Finalmente, também havia as velhas brumas de fogo e as de ilusão, recé desenvolvidas, que liberavam gases que projetavam uma ilusão holográfica pré definida, podendo alcançar até 20 metros de altura, durante alguns minutos ou colapso por intervenção física.

Após aquela experiência traumática na garrafa, Haia e Merlin tinham entendido que a Bruma era o maior alvo do mago que tinha ajudado a criar aquela força especial. Não tinham mais tempo a perder. O vulkânico inclusive aprendeu a manipular as substâncias, em vez de ficar dependendo dos magos da cavalaria.

No mosteiro dedicado a Hagalaz que se erguia numa colina perto de Darklands, Weiss Bier estava praticando com os mestres há meses, e já conseguia se comunicar com eles por telepatia. Num dos exercícios, Jason Saga plantou sua voz na cabeça do nativo de Joy Divile:

“ Os guardiões sempre encontram o manto em momentos decisivos para a sobrevivência da humanidade”

“Não há registro de nenhum guardião?” – Comunicou-se Weiss, já conseguindo projetar seus pensamentos para os sacerdotes.

“Sim, há. Mas jamais tínhamos conhecido um guardião até agora”.

Agora era a voz de Hal Gurion que Bier ouvia:

“Reza a lenda que todas as criptas já estão preparadas, com seus mantos, espalhadas em locais remotos de Asgaehart, aguardando os guardiões do destino”

“E eles jamais se encontram”. – Completou Saga: “Cada um vem em seu tempo, um por vez, na ocasião certa”.

“Nenhuma das lendas conhecidas registrou guardiões na terra dos velgas”. – Retomou Gurion: “Mas algumas canções rubras falam do aparecimento de um guardião do destino na época da queda do antigo Império Rubro”.

Weiss calculou rapidamente que já fazia mais de 200 anos que o útimo guardião tinha aparecido. Quanto ao Gardahal, já tinha aprendido muita coisa, especialmente que o tempo naquela dimensão corria mais devagar: 1 hora lá era equivalente a cerca de apenas 1 minuto em Asgaehart. E também alertaram: de forma geral, aquele não era um lugar hostil, com exceção dos vales ao sul. Quando estivesse lá, jamais deveria ir aos vales do sul. “Só isso?”, pensou o Bier. “Tá ótimo”.

Continua…

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