140. Rumo ao covil do Tio Vito
Weiss Bier, arqueiro de Joy Divile.
Antes: 139. Toni perde a cabeça
Em Van Hal, quando se soube do triste destino de Ferro e sua equipe, uma patrulha liderada pelo próprio general Krul Petersen foi enviada para o resgate dos corpos. O gargo gigantrix foi sepultado com honras em sua querida cidadela plantada no centro do lago Hal.
Em sua primeira reunião de avaliação da operação no Mar de Hill, a Clave faz uma homenagem para Toni Ferro, que foi promovido à patente de Gigantrix post mortem. As missões de expulsão dos colonos tinham sido bem sucedidas, com diferentes custos. Pela primeira vez na história do continente, os velgas tinham o controle de todo o litoral norte do Mar de Hill, da Planície dos Ventos, no Velho Ocidente, às praias de Echo, nas margens da Floresta de Gladerhud, já no Oriente Esquecido. Postos de guarda permanente tinham sido montados ao longo da área.
Wheat Bier, Gian Partenopolus, Andressa de Aquitan e Donna Jorjina receberam a patente de Destinado, e seus nomes de família agora seriam incluídos na lista de codinomes das cavalarias, recentemente criada.
A família de Toni Ferro cumpriu com o pagamento do ouro extra que o oficial da Hokhe tinha prometido à equipe, o que fez com que Donna Jorjina pedisse baixa da cavalaria. Com aqueles 2 kabutz, compraria alguma terra perto dos gauleses, e se esconderia lá pra sempre.
Enquanto isso, em um salão no castelo de Aquitan, em Flamme, Andressa não conseguia deixar de pensar numa forma de resgatar seus companheiros desaparecidos. Naquele mesmo momento, Haia e Merlin já tinham se dado conta de sua situação miserável. Estavam presos em garrafas de vidro onde mal podiam se movimentar, completamente nus, numa espécie de prateleira. Acima de suas cabeças, apenas uma pequena passagem de ar através da boca estreita da garrafa. No fundo, havia um buraco pequeno no vidro, que logo presumiram servir para escoar os excrementos, e se horrorizaram.
A princesa de Aquitan convocou inicialmente aqueles que tinham participado da expedição à colônia vulkânica para o resgate. Seria uma missão particular, em que ela ofereceria 5 kabutz para cinco pessoas o grupo, além dela mesma. Gian Partenopolus, sempre olho nas carnes nobres e exuberantes da jovem sacerdotisa de Virgo, aceitou na hora. Mas Donna Jorjina avisou que finalmente deixaria aquela vida de guerra. E que nem fudendo voltaria para o mesmo lugar onde supostamente tinham sido pegos por Vitiferralis.
Wheat Bier, ainda se recuperando das costelas trincadas, declinou do convite, mas não deixou Andressa na mão:
– Tô cansadão, princesa… Costela fudida. Ainda me recuperando. Mas se você precisa de arqueiros, meu irmão Weiss irá com você. Pedirei que ele venha a Flamme assim que estiver livre.
– Preciso de dois arqueiros no grupo, Bier.
– Fique tranquila. Os melhores estarão aqui pra você.
Andressa era filha da Gigantrix Elena e do duque Kyrus, irmão do Rei de Aquitan. No momento, era a terceira na linha de sucessão do Reino, e primeira do ducado de Flamme. Seu clã tinha tomado posse há tempos imemoriais das terras férteis ao sul do Fiorde e da Floresta de Sherystone, e remontava à realeza do antigo Império Rubro, com raízes no lendário Reino de Azrael.
Weiss Bier e seu amigo Gabirutz, um tigunar caçador no oriente, recém migrado para Joy Divile em busca de trabalho fixo, agregado à família Dikristus, já tinham chegado a Flamme a uma semana, mas Andressa estava tendo dificuldades em completar o grupo. Apesar da generosa recompensa, quando ouviam o nome de Vitiferralis, todos sempre lembravam de algum compromisso inadiável. E para realizar o plano que tinha me mente, ela ainda precisaria de mais um guerreiro além de Gian, e outro conhecedor das artes místicas além dela mesma.
Para Weiss Bier, assim como o resto de sua família de arqueiros e criadores de pombo em Joy Divile, era mais uma oportunidade de boas histórias para contar nas tabernas para os amigos bêbados.
Quando Andressa já começava a desanimar, Eris Van Vossen chegou à cidade, após ter ouvido falar dos destinos trágicos de Ferro, Merlin e Haia, com quem a maga elemental tinha lutado nas guerras imperais em terras gaulesas, pouco mais de um ano atrás. A filha de Erik tinha decidido que ajudaria a jovem sacerdotisa, a quem ainda não conhecia pessoalmente, no resgate de seus companheiros.
Por motivo parecido, a campeã de Darklands, a vilanda Mortagwan, também se juntou ao grupo no dia seguinte. Haia Kahn tinha sido seu escudeiro no torneio dos Verofortes, e garantira sua segurança após a derrota para Xpeditus. Agora era a hora de retribuir.
Em linhas gerais, o plano de Andressa era simples: ir até o local onde eles foram capturados, procurar indícios e seguir os rastros até o novo covil de Vitiferralis.
– Boa. Chegando lá, esperamos ele sair. Depois invadimos, libertamos os dois e metemos o pé. – Concluiu Weiss.
– Podemos levar uns cavalos de isca. – Sugeriu Gian.
– Nada de isca. Furada atrair o velho. – Alertou o irmão de Wheat: – Isso não é pescaria.
– Concordo com o arqueiro, Gian. – Avaliou a sacerdotisa de Virgo.
– O plano é ótimo: rastrear, tocaiar, invadir, liberar e sumir. – Resumiu o Bier.
Dois dias depois, numa manhã já no fim do mês de Hiniar, o grupo partiu de Flamme em direção à fortaleza de Halte, e de lá para a Chapada de Hill, seguindo o mesmo caminho da expedição de Ferro. Muitas horas depois, passaram pela gruta onde tinham encontrado os jovens vulkânicos. Seguiram mais adiante, e pouco depois acharam as armas de Haia e Merlin caídas no chão pedregoso: os escudos e trífias da Bruma.
Andressa desmota, recolhe as peças e começa a performar um ritual que todos ali já conheciam. A sacerdotisa então volta à consciência parecendo completamente abalada:
– Temos de ir embora daqui agora. Vi o que aconteceu com eles. Não temos a menor chance contra esse feiticeiro.
– Viu pra onde foram levados? – Perguntou Bier, ignorando a preocupação.
– Sim, estavam conscientes, mas dominados, quando foram levados por dracos. Voaram em direção a uma caverna a leste daqui.
– Vamos pelo menos achar esse covil. – Desafiou Mortagwan.
– Tenho um mau pressentimento… – Disse Andressa, muito insegura.
– O que acha, Eris? – Pergunta Weiss.
– Mau pressentimento eu tenho toda vez que eu acordo, desde que minha irmã gêmea morreu. Tipo todo dia.
A resposta não foi muito otimista, mas a princesa de Aquitan aceitou seguir adiante para pelo menos localizar onde estavam presos. Se a situação ficasse mais perigosa, retornariam. Seguindo pelas trilhas da Chapada até a região da caverna que Andressa viu em suas visões, o grupo passou por uma gigantesca ossada de cobra, com cerca de uns 30 metros, ainda com restos de material mole em alguns tendões. O sangue no chão já estava seco.
– É o dlagão. – Brincou Weiss, nervosamente.
Tocando o osso, a sacerdotisa fechou os olhos e confirmou, para despero dos demais que aguardavam seus pressentimentos:
– Inferon.
Se já estava ruim encarar Tio Vito, enfrentar um dragão de fogo junto era fora de cogitação.
