139. Toni perde a cabeça

Antes: 138. Massacre na aldeia

Já era quase de manhã quando Ferro chegou à praia onde estavam numa caravela da Poster, junto com a equipe de Elena de Aquitan, que também tinha completado sua missão com sucesso, especialmente depois que lhe entregaram as informações que os moleques tinham. Ao contrário de seu estado falante característico, no entanto, o oficial não disse uma palavra à sua equipe quando os viu, apenas apertos de mão, abraços e acenos efusivos de agradeciemnto. Mas sem abrir a boca.

– Qual foi, Ferro? – Estranhou Haia: Cadê Andressa?

Ferro apenas apontou com o queixo a jovem sacerdotisa de Virgo, que também tinha chegado com o grupo de sua tia.

– Precisamos conversar em reservado… – Insistiu o cavaleiro da Bruma.

O oficial da Hokhe então arrastou Haia para um canto da praia, levando uma tocha acesa e um graveto. Na areia, escreveu:

“LÍNGUA MOLE”

– Comeu ela pela terceira vez?! – Entendeu Haia.

“ORAL”, escreveu Ferro, completando: “MAS VALEU”.

A gigantrix Elena de Aquitan, mãe de Andressa, ofereceu levá-los de volta na caravela da Poster em que sua equipe estava embarcada. Mas os cavalos teriam de ficar. Não havia como trazê-los à praia.

– Jojo leva os cavalos. – Sugeriu o cavaleiro da Bruma.

– Tu quer que eu volte sozinha pela trilha, fio? Nem fudendo. – Respondeu a coroa, já embarcando num bote que seguia para a caravela, onde Ferro e Andressa já tinham se instalado.

– Magali vai contigo. – Ironizou Haia.

Gian também resolveu subir à bordo do bote, seguido por Wheat Bier.

– Vamos por terra, brou. – Sugeriu Marimbas: – Não vou largar os cavalos.

– Não gosto de barcos. – Insistiu Haia, pela terceira vez naquele dia.

Percebendo a resistência de parte de sua equipe, Ferro saltou do bote e começou a subir a trilha. Sem dizer uma palavra, apenas se despediu com ternura da princesa Andressa e fez um gesto para que Haia, Marimbas e Merlin o seguissem.

O bote já remava rumo à caravela, quando o tigunar percebeu o quanto ainda teriam de subir naquela trilha pedregosa, e depois ainda cruzar todo o caminho de volta sozinhos, e achou melhor desistir:

– Bora com a maioria, galera.

– Peidou? – Reagiu Haia.

Marimbas então desistiu de desistir. Enquanto retornavam, já nopasso com os cavalos, o vulkânico divertia-se zombando da condição do líder da missão, que seguia calado, pensativo e melancólico:

– Essa língua assim não vai te ajudar muito na Clave não, hein?

A viagem de volta da caravela de Elena de Aquitan transcorreu sem maiores ocorrências. Tiveram apenas um encontro fortuito com um barco de guerra vulkânico, com cerca de 20 arqueiros, fugindo de alguma colônia atacada pelos velgas. Não tiveram chance alguma quando Yul Hodrazar, velho mago elemental que também era o comandante da nau velga, conjurou uma onda gigante que virou a embarcação dos vulkânicos.

Já na trilha de volta pela Chapada de Hill, no início da tarde, Ferro, Haia, Merlin e Marimbas começam a ver, à beira do caminho, pequenos rodamoinhos de vento, que faziam girar a poeira e pequenas folhas secas do lugar. Desde a Era dos Dragões, os velgas sabiam que aquele era um péssimo sinal.

– Vitiferralis! – Exclamou Haia, em pânico, já começando a sentir uma pressão aburda nos ouvidos.

Logo à sua frente, o cavaleiro da Bruma então testemunhou horrorizado a cabeça de Toni Ferro literalmente explodir pelos ares, espirrando sangue e miolos por todos os lados, inclusive nos companheiros, exatamente como os bardos cantavam que tinha acontecido há cerca de uma década com o herói Vandu, o criador da Academia de Flâmages, e pai dos irmãos Gigan.

Sem saber ou mesmo ver o que estava os atacando, Marimbas engatilha o arco e tenta suportar a pressão na cabeça.

– Porra! Eu vou te matar, filho da puta! – Gritou o tigunar.

O velho mago apareceu do alto, envolvido por um redemoinho maior, e pousou na frente dos três que continuavam montados, pois o cadáver sem cabeça de Toni Ferro já tinha despencado. Ele parecia ainda mais sinistro e mais maluco do que contavam as lendas. Sem que Tio Vito precise abrir a boca, Marimbas escuta a voz do velho em sua cabeça:

“Eu só quero os cavaleiros da Bruma. Se você negro me deixar pegá-los, pode ir embora. A outra opção é morrer”.

Haia e Marimbas tentam atacar Vitiferralis, mas não têm a menor chance de resistir ao feitiço de controle mental do poderoso mago. Merlin, que dali era o mais treinado para aquele tipo de enfrentamento, consegue resistir ao domínio, com enorme esforço mental. Meio zonzo, ele vê a cabeça preta de Marimbas também explodir em pedacinhos. Numa última tentativa desesperada, o necromante tenta lançar uma bruma de ilusão preparada com a imagem de Inferon, o que chega a ser patético frente ao conhecimento do mais velho aprendiz de Imperatrix.

Quando Tio Vito chegou mais perto, Merlin já estava completamente zoado para resistir ao domínio. Ele e Haia só acordariam no dia seguinte, presos em apavorantes garrafas de vidro.

Continua…

Deixe uma resposta