137. Ataque à colônia
Colono vulkânico no litoral do Mar de Hill
Antes: 136. Arqueiros em queda livre
Assim que bebeu o chá, o jovem apagou. Andressa então segurou sua cabeça e começou a recitar o encantamento de conexão mental. O transe veio rápido, e a sacerdotisa começou a falar palavras incompreensíveis para os demais, como se estivesse conversando com alguém invisível. Quando despertou, a princesa aquitana tentou resumir o que descobriu:
– Eles são de uma colônia ao sul, que não é o nosso objetivo. Esses moleques são andarilhos que passam o dia pelas montanhas, caçando pequenos bichos e coletando frutas. E ele conhece uma passagem secreta que leva das cavernas até a vila de pescadores onde mora.
– Você pode apagar a memória dele?
– Ele vai acordar vomitando e não se vai lembrar de nada…
– Então vamos largá-lo aí. – Desprezou Haia, já montando no cavalo.
– Tenho que repassar as informações desse garoto para o grupo que vai invadir a colônia dele. – Sugeriu Andressa: – Posso ficar aqui e tentar me comunicar com eles, quando estiverem mais perto.
– Vai ajudar um grupo e prejudicar outro, que no caso é o nosso. – Resmungou Haia.
– Se ela ficar aqui, então acho que alguém também deveria ficar com ela. – Sugeriu Gian: – Ferro?
– Aí tu me fode, Partenopolus… – Sussurrou o oficial.
– Sigam em frente, companheiros. Eu encontrarei vocês depois! – Disse a jovem sacerdotisa de Virgo.
– Pensando melhor, acho que devo proteção à Andressa. Ficarei com ela e vocês seguem adiante. O campeão lidera a missão partir de agora!
Deu-se então uma longa discussão sobre o que fazer com o moleque capturado. Donna avisou que poderia deixá-lo incapaz de se lembrar de qualquer coisa daquele dia, e Marimbas pensou em carregá-lo à força, como isca. Mas, como estava ferido, o tigunar foi desestimulado pelos companheiros. Iria atrasar o grupo mais à frente. Por Gian e Andressa, teriam deixado o jovem vulkânico por lá mesmo, mas Haia, Wheat e Marimbas temiam que ele levantasse alguma suspeita ao acordar sem memória. Donna resmungou:
– Tamo perdendo tempo com isso, porra.
Enquanto o debate rolava sem comum acordo, o arqueiro velga se emputeceu com tudo aquilo e flechou o moleque no coração.
– Cabô a discussão. – Disse Wheat Bier, arrastando o cadáver do pobre adolescente até jogá-lo do penhasco.
– Vai se fuder. Assassino de criança filho da puta. – Indignou-se Haia.
Wheat nem ligou. Ferro entregou a caixinha com a Aurora da Morte para Haia, que decidiu confiá-la a Merlin para o resto da missão.
Após mais algumas horas a passo, já bem à noite, o grupo consegue avistar o alvo. Do alto, conseguem enxergar algumas fogueiras numa pequena praia no litoral do Mar de Hill. Aqueles colonos eram bons navegantes. Tinham vindo de barco oriundos da ilha de Vulkan, há alguns anos. E continuavam atraindo mais gente. Se os velgas não fizessem nada, logo tomariam todo aquele litoral com suas horríveis habitações precárias, que não passavam de tendas rudimentares nas praias da região, além de outros abrigos improvisados nas cavernas das encostas rochosas.
Era uma noite calma. O vento frio cantava nas pedras, e as três luas em fase crescente iluminavam o Mar de Hill. Na praia só havia as fogueiras, tendas, redes de pesca e pequenas canoas na areia.
– Onde vamos plantar a caixinha? – Questionou Gian.
– Vamos seguir o plano do Ferro? – Sugeriu Donna.
– Vamos sim, JoJo. – Afirmou Haia.
– Então eu e Gian vamos traçar um perímetro ao redor da aldeia, na montanha, e cercaremos a colônia com um fogo tóxico, que gere alucinações. Assim, ninguém poderá escapar subindo a encosta. Haia e Merlin se infiltram dentro da colônia e armam a Aurora. Os dois arqueiros se posicionam cada um em uma ponta da praia, em alguma pedra no alto, para alvejar quem tentar fugir pelo litoral. – Essa era a ideia do Toni, lembra a coroa.
– Taí o plano. – Avalizou Gian: – Bora Jojo!
A coroa e o cavaleiro de Sunnig seguiram a cavalo por uma trilha nas pedras, até alcançarem um local onde teriam de continuar a pé. Marimbas e Wheat compartilharam duas trilhas de poeira cristal e seguiram com eles até uma posição mais baixa, para depois tomarem rumos diferentes até os cantos da praia. Haia e Merlin continuaram até o fim da trilha, já bem perto da aldeia, e se esconderam nas pedras. O arqueiro tigunar foi o primeiro a chegar num pontal no canto leste, onde achou uma ótima posição para a tocaia. Já Wheat Bier precisou caminhar pelos penhascos acima da aldeia por mais um tempo, até alcançar um platô nas pedras do canto oeste com boa visibilidade da praia.
Àquela altura, Donna e Gian já tinham espalhado um pó escuro preparado pela sacerdotisa em uma espécie de rastilho feito com gravetos, galhos e folhas secas, cercando a parte de cima. Usando brumas de brilho, combinaram sinais para indicar quando estivessem todos a postos, restando apenas a infiltração de Haia e Merlin.
Furtivamente, os dois aproveitaram que o local estava deserto à noite para se aproximar de uma das tendas toscas montadas na areia. Mais perto, ouviram os sons clássicos de um casal fazendo sexo: gemidos, respiração arfante, estalos. Haia lança uma bruma de sono no recinto, que faz efeito na mulher que estava na tenda, que apaga. Mas o homem dá um grito, se levanta nu ainda de pau duro e pega uma espada para lutar.
Haia invadiu o recinto e aproveitou o fator supresa para acertar um golpe certeiro no pescoço do vulkânico. Mas agora ele já ouvia outras vozes, de pessoas que tinham se alertado com os ruídos. O resto do grupo, que observava a situação de longe, começou a ver, uma a uma, luzes se acendendo em todos os abrigos da colônia.
– Acho que os caras fizeram merda. – Suspeitou Donna, para preocupação de Gian: – Acendemos logo a barreira de fogo?
Os agentes da Bruma saem da tenda e continuam se esgueirando pela areia, atentos à movimentação dos colonos que já se multiplicavam por ali, em alerta. Quando ouviram a gritaria causada pela descoberta do cadáver, Haia e Merlin correram para a maior das tendas montadas na praia, onde se esconderam embaixo de uma lona, e puderam ouvir o desespero dos locais. Ali era uma posição central na aldeia. Merlin pegou a caixinha, ajustou o mecanismo para que fosse acionado em trinta segundos, o que seria o suficiente para que se afastassem dali, e a enterrou na areia.
No pontal, Marimbas mordia a orelha, dedo coçando para começar a largar o prego. Quando Haia e Merlin saíram em disparada na direção do platô onde estava Wheat, foram vistos pelos colonos. Seis deles correram para persegui-los. Para os agentes da Bruma, aquela era uma corrida pela vida. Sabiam que não poderiam ser parados ali, ou então seriam desintegrados pela energia infernal. Wheat viu os companheiros fugindo e começou a alvejar os vulkânicos que os perseguiam. Um a um, os colonos foram caindo pela areia, flechados pelo arqueiro velga.
Quando a Aurora da Morte brilhou naquela praia remota do Mar de Hill, a cintilante luz hipnótica em tons de lilás e vermelho iluminou maravilhosamente a área num raio médio de cinquenta metros, bem irregular, mas o suficiente para evaporar tudo que era matéria orgânica atingida. Os colonos vulkânicos viviam com medo de muitas coisas, mas jamais tinham visto algo tão sinistro.
Continua…
