135. O rio subterrâneo

Antes: 134. A patrulha de Ferro sobe a chapada

– Se Inferon está caçando a Boiúna, então deve estar procurando nas cavernas baixas da Chapada, onde elas habitam. Não deve estar atento para a trilha no alto das escarpas. É um risco, mas se continuarmos seguindo por terra, é a melhor opção.

– Bora pelas trilhas! – Concordou Gian: – Andressa, qualquer calafrio avisa, hein?

– Quê? Querem passar escondidinhos do dragão, no alto das encostas? – Estranhou Jorjina.

– Donna, loucura faz parte da nossa profissão. – Explicou o cavaleiro de Sunnig.

– Vocês têm noção do poder de visão, olfato e audição de um dragão de fogo? Sabem que ele também tem um sexto sentido misterioso?

– Não sei, mas imagino… – Respondeu Gian.

– Ele tá focado na cobra. Não vai se abalar por meia dúzia de pessoas ali na trilha. – Avaliou Haia.

– É nossa única chance. – Definiu a coroa.

Seguindo pelo alto da Chapada de Hill, em um caminho de área pedregosa e irregular que nem chegava a ser uma trilha, uma chuva fina insistente tornou a jornada ainda mais perigosa, pois um escorregão do cavalo ali seria fatal. No entanto, o medo de encontrar Inferon superava de longe o medo de cair nas pedras, o que fazia todos ali olharem mais para cima do que para baixo.

Pouco depois do meio dia, o grupo começou a escutar um vozerio adiante, que soava como o idioma vulkânico primitivo. As vozes logo cessaram, no entanto, quando provavelmente os responsáveis ouviram os passos de cavalos na pedra. Em questão de segundos, uma flecha era lançada na direção deles, estalando na pedra sem acertar ninguém.

– Caralho! – Gritou Marimbas.

Haia arremessou uma bruma de sono na trilha adiante, mas a fumaça se espalhou por ali sem alcançar ninguém. Outra flecha explodiu na pedra, e os cavalos começam a refugar, sentindo a ameaça. Andressa conseguiu ver de onde vinham as setas e apontou para uma pequena gruta acima deles, uns 50 metros adiante na passagem. Pelo menos três adolescentes vulkânicos estavam por ali.

Marimbas e Haia desmontaram dos cavalos e começaram a escalar a área de pedras, para chegar à caverna. Wheat Bier se mantinha com uma flecha armada, apontada para a entrada da gruta. O tigunar chegou ao local e viu três moleques assustados. Apenas um deles carregava um arco, e parecia ter apenas mais uma flecha. Marimbas então avançou para o interior da caverna, e o jovem vulkânico tentou alvejá-lo, sem sucesso. Os três se embrenharam pelo interior da gruta, sendo perseguidos pelo tigunar. Àquela altura, Haia também já tinha entrado na caverna, e Wheat já estava escalando a parede de pedras para chegar até eles.

Havia uma galeria interna estreita que seguia morro adentro, logo se tornando em um escuro absoluto. Mais adiante, o tigunar começou a escutar, além dos passos apressados dos moleques, um som de água corrente. Tateando o espaço, logo ouviu os moleques se jogando no que deveria ser um rio subterrâneo. Com cuidado, Marimbas chegou à beira de um poço. Pelo som da água que corria logo abaixo, não devia ser muito alto. Haia o alcançou logo depois, e acendeu uma bruma de fogo para iluminar o recinto. A queda até o leito dágua abaixo deveria ter no máximo uns dez metros de altura.

Wheat Bier também chegou ao local e, quando confirmou com os companheiros que os vulkânicos tinham se jogado naquele rio, pulou na água. Marimbas lançou-se a seguir. Não era fundo, mas o espaço para respirar era pequeno, menos de 15 centímetros até o teto de pedra. A correnteza inicialmente era leve, seguindo na direção leste, mas em questão de segundos foi acelerando, no que parecia ser uma sucessão de quedas de nível. O rio subterrâneo também foi ficando mais caudaloso, como se estivesse recebendo as águas de outros poços internos daquela montanha.

Wheat, que estava mais à frente, segurando o arco com uma das mãos enquanto tentava acelerar o nado com a outra, logo ouviu à sua frente o som de um dos moleques se debatendo na água. Àquela altura, a correnteza já tinha aumentado perigosamente. A água batia na altura do nariz do arqueiro, que buscou acelerar na direção do jovem vulkânico. O barulho do fluxo de água também aumentava a cada segundo e assustava, pois a impressão era de que aquilo desembocaria numa cachoeira.

Mas não era impressão. Quando a luz do exterior começou a revelar o que viria a seguir, Wheat já começava a tocar a perna do moleque fugitivo. Aquele rio substerrâneo se projetava como um grande salto dágua expelido do paredão da Chapada, o que não era incomum naquela região. Mas pela visão que se anunciava na saída da caverna, a cachoeira ali deveria ter mais de trinta metros de altura. Sair dali agora já seria um esforço considerável.

“Carai!”, pensou Wheat quando viu o abismo à frente. Agora, literalmente, era pegar ou largar.

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