128. Na pista do tesouro de Dankel

Senado de Dankel

Antes: 127. Ipa de volta aos trilhos

No portão da mansão, Merlin se fingeu de afeminado para responder ao questionamento do guarda com uma voz afetada:

– Tô só indo respirar um ar puro lá fora…

O guarda não se comoveu. Havia bastante ar fresco nos jardins. No salão, Ipa se animava com a prosa de Numbigus, e provocou:

– Você só pode estar brincando! É do mesmo Calto que estou pensando?

– Sim! Calto, o dragão do oriente! Aquele que seus pares velgas mataram aqui perto, no desfiladeiro de Kling, há uma década!

– Supondo que isso seja verdade… Onde guardariam algo tão valioso, por conta de tantas ameaças? Afinal, nem Calto conseguiu proteger o dele…

– O tesouro de Calto era enorme, mas o nosso tem mais de séculos! E está muito bem guardado… – Disse dando um risadinha, antes de sussurrar: – Você acha que construímos aquele labirinto gigante para quê? E temos gigantes e outras criaturas cativas para protegê-lo daquele tipo de gente que gosta muito das coisas dos outros…

Ipa sorriu vitorioso, enquanto Numbigus gargalhava com seu bafo podre.

– Pois é, tem que ser muito tolo pra achar que aquilo era só pra uma competição… – Concordou Ipa.

De um balcão no alto do jardim, Haia vê Janus passando pela Portaria de Wilsu e saindo da alameda dos senadores. Pouco depois que o senador que estava sendo chantageado deixou a mansão, Sensimila retornou. Merlin, que continuava por ali depois que foi barrado, viu quando ele adentrou novamente a propriedade de Boquissosi junto com dois assessores.

Quando Sensimila entrou no salão, comunicou a todos formalmente que a comitiva do Imperador tinha acabado de chegar em Dankel, para a assinatura do acordo. Todos os senadores tinham sido convocados para o salão nobre do Templo de Dankel. Numbigus fica exultante com a notícia, e pede licença a Ipa para cuidar de seus negócios. Sensimila informa que todos os demais podem continuar no baile, pois as cerimônias durariam três dias.

Os senadores começam a se retirar da festa. Suva Kaun, alucinado de álcool, e sofrendo aceleradamente os efeitos colaterais da poeira cristal, já se encontrava absolutamente seco e desidratado, sem qualquer gordura no corpo, em definiçao máxima, que também fervia em febre. Fora de si, o tigunar provoca uma pequena confusão ao partir para cima de Sensimila, dizendo que queria fumá-lo (?). Como ele era o campeão, todos por ali resolveram apenas contê-lo e abafar a gafe. O senador sai dali rápido, assustado com o comportamento bizarro do negão de Joy Divile:

– Xiii… Xiii… Me deixa fumar o sensimila, porra!

Estimulado pelo companheiro, Xpeditus também tinha perdido completamente a conexão com a realidade, e passou a vomitar palavras desconexas ofendendo a todos: os senadores, as prostitutas, servos, o campeão, seus próprios companheiros e até os deuses de Asgaehart. Ninguém entendeu nada. Mas, como ele não era o campeão, logo os guardas o cercaram. Em surto, o Para Hyba então saiu dali correndo completamente pelado, pulou uma janela e se picou do jardim para o mato, onde terminaria por se perder. No dia seguinte, acordaria no alto de uma montanha nos Piktos, sem lembrar de porra nenhuma daquilo.

Os senadores chegam ao congresso e encontram Ighan Pendragon com sua comitiva de generais, pronto para assinar o acordo. Janus não estava ali.  Ipa e Haia decidem sair da mansão, e encontram Merlin no portão, sem autorização para sair. Após um breve entrevero, uma bruma de sono é lançada, mas o guarda resiste. Ipa não perde tempo e alveja o homem, que grita antes de morrer, chamando a atenção dos demais.

Os três saem correndo pelo portão, perseguidos pelos homens de Boquissosi. Enquanto foge, Ipa ainda tem tempo de flechar outro guarda. Merlin arremessa mais algumas brumas de sono para trás, e consegue fazer dormir outro perseguidor. Eles então descem em veloidade o caminho pelos jardins e seguem até a praça das arenas, que naquele momento estava vazia. Havia algum movimento apenas nos camarotes, que ainda tinha alguma tocha acesa no interior, e de onde se podia ouvir vozes. Enquanto Haia e Merlin checam os arredores da praça, Ipa corre para lá e vê dois guardas conversando. Um deles tinha acabado de mencionar o nome de Janus.

– Preciso falar com Janus. É urgente. – Blefa Ipa.

Um dos guardas estranha o pedido. O arqueiro de Joy Divile insiste, de forma tensa, mas amistosa:

– O futuro de tudo depende de eu alertá-lo do que está acontecendo na mansão de Boquissosi.

Janus aparece por ali antes que o guarda possa falar qualquer coisa.

– Janus! Gracas a Hagalaz! – Exclama Ipa.

– O tesouro está seguro. Você é um mentiroso! Acabei de conferir cada moeda.

– Não menti. Ighan está nesse momento tentando tomar o Senado e o tesouro! Você tem que ir ao templo imediatamente! Se ele conseguir a maioria dos votos vocês perderão tudo! E sua família está a salvo!

– Qual a prova disso, forasteiro?

Ipa não tinha nenhuma. Mesmo assim lançou:

– Meus amigos as salvaram. Pode acreditar!

– Mentiroso!

O escudeiro do campeão não tinha como saber disso, mas naquele momento exato Ferro tinha acabado de chegar no portal externo da cidadela de Dankel, trazendo Lady Marissa. E numa casa de fazenda perto de Bruxel, Andressa já estava em local seguro com as filhas do senador.

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