129. Na câmara secreta
Mantala
Antes: 128. Na pista do tesouro de Dankel
– Se eu quisesse o seu mal, teríamos atacado você e seus guardas quando estavam desprevenidos. – Diz Ipa, no camarote das arenas.
Haia Kahn e Melvis Merlin chegam ao local naquele momento.
– Estamos aqui pra te ajudar. – Diz Haia, reforçando as palavras do arqueiro.
– Tu brincas com meu sofrimento… – Responde Janus, transtornado.
– Tive de matar dois guardas de Boquissosi pra estar aqui pra te alertar. Não temos muito tempo. Ighan vai se apossar de tudo.
– Estamos arriscando nossas vidas para te ajudar. – Completa Haia.
– Mas o tesouro está a salvo! – Diz Janus.
– Se assinarem o acordo, o tesouro será dele. – Insiste Ipa.
– O que vc acha que Ighan quer aqui, Janus? – Provoca Haia.
– Ele quer bloquear o acesso de vocês velgas ao oriente esquecido. – Responde o senador. Mas eu tenho muitos negócios com sua gente…
Haia força uma gargalhada, e escarnece:
– Ele quer o tesouro. Isso é o brinde.
– Janus, falarei mais uma verdade: ou você decide acabar com a festa de Ighan ou vamos ter que passar por você e nao deixar que ele se aposse de tudo. E sua decisão tem que ser agora.
– Eu trocaria todo o ouro por minhas meninas… – Desaba Janus, caindo de joelhos, sem saber o que fazer.
Janus se levanta, amparado por Haia, e fala que vocês podem matá-lo, pois ele já não acredita em mais nada. Por um momento, o senador desejou que o tesouro estivesse em perigo, para que tivesse esperança na história contada por Ipa Bier. Mas ele tinha acabado de sair da câmara do tesouro, e estava tudo lá.
– Você está sendo fraco. – Pontifica o escudeiro de Suva, se afastando uns passos enquanto arma uma flecha e aponta contra os dois guardas que estavam ali.
Haia abraça Janus e diz:
– Confia em mim.
Uns dos guardas se desespera e começa a gritar.
– Para de gritar, galinha! – Ordena Haia.
Merlin lança uma bruma de sono na direção dos guardas. Um deles dorme, mas o que estava gritando continua alerta, apenas mareado. Ipa acerta uma flechada certeira em seu peito, calando-o para sempre.
– Janus, onde está o tesouro? – Intima Ipa.
– Eu sabia… Vocês são ladrões, exatamente como os que acusam. Jamais levarei vocês às câmaras secretas, vermes. – Responde Janus, cuspindo no arqueiro de Joy Divile.
– Quer ver sua família? Me fala agora onde tá a porra do tesouro. Se não, juro que você nao vai ver familia e nem mais ninguém, nunca mais. – Sentencia o escudeiro do campeão:
– Só vou falar mais uma vez: se não abrir o bico vai morrer. – Ipa dá o ultimato, apontando uma flecha armada no arco para a cabeça do senador.
– Boqui está fechado com Ighan, sequestrou tua família, quer te fuder e você chama meu amigo de verme? – Insiste Haia.
– Coloca ele no saco! – Grita Merlin, para espanto de todos, pois era um cara de poucas palavras.
– Janus, Janus… Vai aprender da pior maneira que eu só falo a verdade. – Diz Ipa.
– Sei que vocês têm um necromante no grupo… – Diz o senador, aterrorizado, encarando Merlin: – Podem me matar e roubar minhas lembranças… Vou levá-los à câmara secreta. Quero ver a reação de vocês ao grandioso tesouro do Senado de Dankel.
– Vai ver não. – Comenta Ipa ao mudar de ideia, soltando a flechada fatal.
Merlin mastiga a raiz de Cidália com a cabeça de Janus nas mãos, recitando palavras incompreensíveis para os demais, e logo começa a ter as visões. Havia uma passagem secreta na sala íntima de um dos camarotes daquela arena, que levava a uma escadaria para a câmara do tesouro. Era preciso passar por paredes falsas, corredores e alçapões para chegar ali. Os gigantes e demais feras protegiam apenas a entrada secreta da câmara no labirinto. Merlin também viu Janus chegando a uma antecâmara e falando com dois guardas que estavam no lado de dentro, antes de abrir uma grande porta que revelava um imenso galpão subterrâneo, com um tesouro incalculável. O ouro acumulado em séculos estava fundido em barras. Milhares delas, empilhadas por todo o local, distribuídas em uma infinidade de plataformas com pequenas rodas.
Merlin então conduz o grupo pelas passagens que viu nas memórias de Janus, até que chegam a uma galeria com um enorme portal de metal, muito pesado. A câmara do tesouro ficava do outro lado. Quando eles se aproximam, escutam vozes de dentro fazendo perguntas num idioma que eles não conhecem. Mas Merlin se lembra que Janus disse apenas seu nome para os guardas. Sussurrando, ele aponta para Haia, que teria a voz mais parecida com a do senador, e lhe diz o que fazer:
– Janus. – Haia fala alto, para que ouvissem do outro lado.
Um ruído metálico de tranca sendo desarmada é ouvido. Haia e Merlin sacam brumas de sono, e Ipa engata uma flecha. Quando a porta se abre, eles veem com os próprio olhos aquele tesouro inacreditável, dois guardas se surpreendem com a comitiva indesejada. As brumas são arremessadas, mas não funcionam. Algo devia estar errado com aqueles preparados, pensou Merlin, antecipando o esporro que daria nos magos da ordem se conseguisse sair vivo dali. Ipa atira na direção de um dos guardas, mas quando a flecha atinge o que seria o seu corpo, a ilusão se desfaz.
A câmara do tesouro, na verdade, já estava quase vazia. Havia apenas mais uma dezena de carrinhos com as barras de ouro. E eram centenas. Uma feiticeira de roupas vermelhas, com um decote provocante, manipulava um totem que até então projetava aquelas imagens na direção de quem olhava da porta. Os corpos dos guardas estavam no chão, mortos. No fundo da galeria, um guerreiro vestido com uma armadura de arauto do Deus Helgar empurrava um dos carrinhos de ouro na direção de uma área difusa de brilho azul cintilante, onde um mascarado recebeu a carga e desapareceu como se tivesse ultrapassado um portal.
Seja quem fossem aquelas pessoas, já tinham levado quase todo o ouro dali.
Continua…
