131. Fim de Festa

Execução de Boquissosi, em Dankel.

Antes: 130. Ladrões do tesouro

Em Dankel, logo após a execução pública de Boquissosi e Sensimila, no início da madrugada, Haia Kahn voltou à praça e procurou Myla na tenda das bruxas. Ele teve de acordá-la.

– Preciso saber se há uma forma de salvar um amigo viciado em poeira cristal, que já está em estado terminal.

– É o Arley? – Perguntou a bruxa.

– Não… Esse nunca mais se vicia em nada. – Respondeu Haia, antes de informá-la: – ´~E o campeão do Veroforte.

– Traga-o aqui.

Quando Suva kaun Dikristus desceu à praça, já não conseguia mais articular pensamentos. Febre de 45 graus. Pele finíssima, gordura de 0,1%, revelando somente os músculos e todos os vasos sanguíneos saltados do tigunar. Era um aspecto deprimente: tinha secado tudo, e agora definhava a olhos vistos. Tudo isso acelerado por uma quantidade cavalar ingerida de álcool, que só não o levou a coma por força do efeito contrário da dosagem crítica de poeira cristal consumida.

– Não há o que fazer, cavaleiro… A alma desse guerreiro já foi encomendada por Hagalaz. – Diagnosticou Myla ao avaliar o campeão, que naquele momento já tinha o rosto parecido com o de uma caveira.

– Tem que haver uma forma. – Protestou Haia.

– Melhor aceitar, cavaleiro.

Quando Mortagwan finalmente deixou a mansão de Boquissosi e encontrou o resto do grupo, já recuperada dos danos da luta, se intrigou com o cetro recolhido por Merlin:

– Eu sei de quem é esse totem. Já a conheci, se é que vocês me entendem. À época, era apenas uma jovem ambiciosa, uma aprendiz do colegiado de Imperatrix em Bruxel… – Rememorou: Foi ela quem me ensinou como roubar energia trepando com os outros.

– E você pode me ensinar? – Animou-se Merlin.

– Eu lhe ofereci durante a viagem, mas você não quis…

– Peraí… Você não mencionou que ensinaroa nada. – Protestou Merlin.

– Mas para aprender, ainda assim terá de sofrer a experiência…

– Nesse caso, estou literalmente dentro.

– Então na viagem de volta, no acampamento, começaremos o treinamento. Mas você vai precisar de alguns dias para dominar o processo.

– Tranquilo. Não tenho pressa. – Respondeu Merlin.

– Ele é borracha fraca, Mortagwan. – Caçoou Haia.

Por agradecimento à intervenção contra a assinatura de um acordo que seria claramente desvantajoso para a cidadela de Dankel, e ainda sofrendo pelo enorme desfalque provocado por desconhecidos, Numbigus e Andleh selaram um acordo com Ferro, Gargo Gigantrix da Dokhe. Uma guarnição do exército velga entraria em Dankel e ficaria lá de forma permanente, lotada como um posto avançado. Apenas para alerta e proteção da região. A independência da cidadela seria garantida pelos velgas.

Os senadores convidam Ferro, Haia, Ipa, Mortagwan e Merlin para mais um dia de festa na casa do falecido Boquissossi, que a partir de agora seria a mansão dos Verofortes. A residência oficial do campeão durante cerca de 21 anos, até o próximo alinhamento equilátero das três luas de Asgaehart, quando seria realizada a próxima edição. Ninguém poderia ter previsto, no entanto, que o primeiro campeão aproveitaria tão pouco a regalia.

Reduzido a uma camada quase transparente de pele finíssima esticada sobre vasos sanguíneos pulsantes, fibras musculares ressecadas e ossos ressaltados, o campeão teve um último momento de lucidez pré-cadavérica, quando pediu aos companheiros que levassem seu corpo e o enterrassem em algum terreno da cavalaria sagrada, ao lado dos bons que já tinham ido. Também deu ordem para que todo seu ouro fosse destinado à construção de um ginásio de lutas.

A partir dali, os bardos cantariam a lenda do primeiro Veroforte, o tigunar Suva Kaun, campeão de Joy Divile, representante do reino de Van Hal, Destinado da Hokhe, que sucumbiu na cerimônia do título, intoxicado de poeira cristal e encharcado de vinho. Tinha ido aos tudo. virado a noite comendo, bebendo, fumando e fodendo forte, até que secou completamente, definiu… e morreu.

– Por mim vamos embora agora. – Opinou Merlin.

– Eu vou ficar, galera. – Decidiu Ipa.

– Vai com Hagalaz, parceiro. Te entendo. E vou aliviar teu lado com os bigode grosso… – Disse Ferro.

– Podemos dormir aqui esse resto de madrugada e sair pela manhã. Menos perigoso. O que acham? – Sugeriu Mortagwan, querendo aproveitar mais um pouco das mordomias.

Merlin ergueu a sobrancelha para Ferro, que decidiu:

– Então vamos agora. – Disse o oficial, já começando a preparar seu cavalo.

– Há muito tempo não temos tantas baixas… – Lamentou Haia, enquanto arrumava, junto com Merlin, o cadáver de Suva embalado em uma mortalha, que iria pendurado no cavalo do tigunar.

Além do campeão, Arley e Pet também tinham morrido na missão, e Xpeditus tinha sumido pelo mato. O cinturão teria de ficar em Dankel, exposto na mansão dos Verofortes. Acompanhando o cadáver de Suva, apenas uma medalha cerimonial de ouro, que lhe foi entregue postumamente pelos senadores.

Enquanto isso, no desfiladeiro de Áden, as tropas de Krul Petersen tinham cercado as de Ighan, e o autoproclamado Imperador resolveu bater em retirada para Danzig. Sentindo o bom momento, Krul decidiu marchar adiante e sitiar o condado vassalo de Viktoria. Com moral baixa, e abalada por algumas deserções, as tropas leais a Ighan foram massacradas em menos de dois dias pela cavalaria negra, que retomou a cidadela céltika do jugo bárbaro, restabelecendo o domínio dos velgas. Ighan tinha conseguido fugir durante a batalha, sendo ajudado por piratas ileanos do Mar do Leste, que o levaram de volta à Saravessa.

Já na manhã seguinte, enquanto retornavam para casa a passo, seguindo pela trilha que cortava os vales dos Piktos até Aussflag, nas Darklands, Ferro se questionou em silêncio o que Ighan poderia fazer com todo aquele ouro. Pagar muitos mercenários, por exemplo. O vira-lata tinha perdido uma parte da batalha, mas ganhado outra.

Já Merlin pensava que tinha sido uma péssima ideia Ipa ter ficado em Dankel. Mas era quase autista, ou pelo menos não se importava. Foda-se quem queria ficar. De fato, por insistência de Lady Marissa, no dia seguinte, antes do funeral, um necromante conseguiu registrar os últimos momentos de Janus, o que levou à uma sentença sumária de morte para o arqueiro de Joy Divile.

E numa colina dos Piktos Orientais, a léguas e léguas dali, o Para Hyba agora se embrenhava nos matagais, completamente nu, junto com os demais bichos, ainda surtado pelo efeito de drogas e álcool. Tinha regredido, pelo menos temporariamente, a um estado de selvageria. Enquanto Xpeditus urrava como um animal após ter caçado com as próprias mãos um cabrito montês, que agora ele estripava com os dentes, os senadores tiveram uma surpresa quando foram à cela de Ipa para conduzi-lo ao enforcamento, que seria a última atração pública do Festival Veroforte. Usando as próprias roupas, o arqueiro de Joy Divile tinha feito uma corda e se enfocado usando uma grade da masmorra. Morrer não tinha como evitar, mas atração de circo é o caralho.

Continua…

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