136. Arqueiros em queda livre

Moleque vulkânico

Antes: 135. O rio subterrâneo

Sem se importar com a queda iminente, Wheat esticou o braço com que nadava à frente e agarrou o pé do adolescente vulkânico, que tentou se debater para livrar-se, mas não teve sucesso. Agora era tarde demais. Os dois seriam lançados pela cachoeira. Marimbas, que seguia logo atrás, até pensou em nadar para o lado e tentar se agarrar nas pedras, mas acabou deixando-se levar:

– Madeiiiiiiiiiiira! – Gritou o tigunar em queda livre.

O arqueiro de Joy Divile caiu por alguns segundos antes de se chocar contra a superfície dágua, afundar muito e ser engolido pelo imenso espumeiro da cachoeira. Obviamente não tinha conseguido ficar agarrado ao moleque quando caiu, mas tinha conseguido o que queria inicialmente. Agora precisava se manter vivo e achar o jovem vulkânico, vivo ou morto. Vivo seria bem melhor para os planos que tinham.

Marimbas também despencou e sentiu o impacto da queda. Tanto ele quanto Wheat devem ter quebrado algumas costelas, mas suportaram bem a dor e conseguiram nadar para respirar um pouco.

– Cadê o moleque? – Gritou o tigunar, quando viu Wheat.

– Não sei. Deve ter se afogado.

– Ele tá ali. – Apontou Marimbas para o corpo do moleque, submerso a uns vinte metros de distância de Wheat Bier.

– Já era, cara. Ele vai morrer. – Decretou o arqueiro velga de Joy Divile: – Não vou me arriscar.

– Eles vivem aí. Devem saber de muita coisa. – Disse o tigunar antes de mergulhar em direção ao adolescente vulkânico.

Esguio e muito bom nadador, Marimbas alcança o moleque e o traz à tona, onde busca manter sua cabeça para fora dágua.

– Me ajuda aqui com o moleque! – Gritou o tigunar.

Wheat nada em direção aos dois e revez com Marimbas o socorro, pois o negão já estava exausto. Pouco depois, já tinham conseguido nadar até a margem, onde subiram numa pedra larga e plana para tentar reanimar o garoto, que devia ter uns 13 ou 14 anos. Após algumas manobras, o jovem vulkânico começa a vomitar água e dar sinais de vida. O tigunar então amarra as mãos e pés do moleque enquanto ele ainda está se recuperando do afogamento, e começa a balbuciar algumas palavras em seu idioma desconhecido, parecendo bem assustado. Na verdade, já estava até tremendo de medo.

Eles agoram estavam ao nível do Mar de Hill, centenas de metros abaixo do resto do grupo, no alto das escarpas. Não havia praias por ali, apenas o paredão da Chapada, e as encostas pedregosas. Tomaram cada um uma dose da Poção de Virgo que carregavam, de forma a amenizar os danos sofridos na queda.

Enquanto isso, no alto da chapada, Ferro também tinha subido até a entrada da gruta:

– Achou alguma coisa, campeão?

Haia tinha investigado o interior da caverna em que os jovens de sua raça estavam, da entrada até o poço onde se jogaram. Só tinha achado restos de comida e alguns artefatos que pareciam pertencer aos moleques, tais como estilingues partidos, espadas de madeira, pontas de flecha e peles de animais. Provavelmente aquele era um esconderijo.

– Manda o Merlin vir aqui! Gritou Haia, de dentro: – Por enquanto só achei lixo. Mas os caras foram atrás dos moleques, e se jogaram num rio subterrâneo dentro da caverna.

Quando o necromante da Bruma chegou ao local, começou a investigar as paredes e o chão de pedra, até achar uma mancha de sangue no local. Era o que precisava. Tocando na mancha, mastigou a raiz de Cidália e começou a ter visões. Não era a mesma coisa de quando tinha a cabeça para ver as memórias do defunto, mas o sangue deveria servir para indicar algo. Quando despertou do transe, caminhou instintivamente até uma passagem estreita, meio escondida, na mesma caverna. Era uma passagem bem acidentada, que levava a uma galeria ainda mais profunda.

– Dois deles passaram por aqui há pouco tempo. – Informou Merlin.

– Temos que achar os caras. Puta que o pariu! Perdemos os dois arqueiros… – Lamentou Ferro, pensando no que fazer: – Andressa, pode rastreá-los, princesa?

Sem desmontar, a sacerdotisa começa a meditar até que entra em transe.  De volta à consciência, ela avisa:

– Eles estão lá em baixo, à beira dágua. Conseguiram pegar um jovem vulkânico. Mas não temos como chegar lá com os cavalos.

– Escalada monstra… – Avaliou Ferro: – Eu e Gian vamos ter que descer, pois somos os mais ágeis. Puta que pariu, campeão!

– Bora então, Ferro. – Anuiu o cavaleiro de Sunnig

– Os de cintura dura ficam aqui, tomando conta dos cavalos. – Comandou Ferro.

Seriam algumas horas escalando com alguma dificuldade até que os dois alcançassem a área indicada por Andressa. Quando enfim se encontraram, Ferro lançou uma corda para que eles pudessem sair da pedra onde estavam, à beira dágua. Depois, tiveram de fazer um esforço da porra para carregar o moleque amarrado paredão acima. Wheat notou que o líder da missão estava suando pesado, e quase não soltava suas clássicas piadas.

– Porra negão, não dá pra tu subir essa porra sozinho não? – Resmungou Fero, enquanto se fodia para içar o moleque na corda, junto com Gian.

– Aí, Ferrão… Essa parada de Gigantrix tinha que ter licença renovada todo ano, meu amigo… Ia fazer bem pra você, cara. – Zoou Wheat.

– Que o bom Hagalaz nos afaste desse triste destino, meu consagrado… – Rogou Ferro.

Puxar o tigunar acima era uma tarefa cada vez mais inglória. Naquele momento, porém, sua costela quebrada impedia Marimbas de fazer mais força para escalar. O mesmo valia para Wheat, que no entanto era bem mais leve que o negão. E o moleque amarrado também não era pesado, mas às vezes se debatia.

– Porra, galera! Não tomaram café hoje não? – Grita Ferro, já exausto de tanto puxar as cargas para cima.

A tarde já estava no fim quando chegaram a uma região menos íngreme. Mais algumas horas de caminhada, chegaram aonde estava o resto do grupo.

– Alguém pode falar com essa porra de moleque? – Questionou Wheat.

– Posso conversar com ele nos sonhos. Basta dar um cházinho pra ele dormir.

– Manda ver, Jojo. – Gostou Haia.

Donna preparou o chá, mas o moleque se recusou a beber, sentindo a maldade. Haia, que era o único dali que entendia rudimentos do idioma selvagem dos vulkânicos, gritou, apontando para sua espada e para a caneca de chá me seguida:

– Trink ode stirb!

Wheat então armou uma flecha e encostou na cabeça do moleque, que começou a chorar. Mas logo entendeu e tomou o chá de Jorjina, que tentou acalmá-lo, apontando para Merlin, que observava a tudo sempre calado:

– É pro seu bem, fio. Senão aquele cara ali ia cortar sua cabecinha pra falar com você de outra forma…

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