143. O Manto de Hagalaz

Templo de Hagalaz, entre Darklands e Terras Altas

Antes: 142. Haia e Merlin resgatados

Weiss Bier enrou na câmara ressabiado e tocou no cristal azul incrustado na pedra. Sentiu sua forte vibração, e sentiu-se bem. Olhou para a tumba de pedra negra ao centro e tentou mover sua tampa, que era bem pesada. Não precisou abrir tudo para ver que não havia um corpo ali dentro. Apenas um manto com capuz, de cor preta.

Somente quando o arqueiro de Joy Divile pegou o manto pela abertura da tumba, percebeu que o tecido de sua parte interna emitia um brilho diferente, mágico, como se tivesse pequenas estrelas iluminando a mais negra escuridão. Mais do que isso, percebeu que sua mão desaparecia quando tentava tocar essa superfície interna, como se tivesse ultrapassado um portal entre mundos, mas podia tirá-la de lá quando a movia de volta para nossa realidade.

Naquele momento, percebeu que tinha sido agraciado pelo destino. Estar ali, sem qualquer questão pessoal, apenas para substituir o irmão quebrado, de repente fez todo o sentido. Aquele manto era pra ser seu, como se já tivesse sido um dia e fosse pra sempre. Quando finalmente o vestiu por cima de suas roupas ainda molhadas, sua confiança pareceu turbinada. E então Weiss colocou o capuz. E tomou o maior susto de sua vida. Como num passe de mágica, foi levado a um mundo completamente diferente de onde estava, mas estranhamente familiar.

Não havia um sol no céu, que era de um escuro profundo iluminado apenas por uma miríade de estrelas, algumas até bem grandes. Mas estava em um local plano, deserto, onde não havia água, nem qualquer vegetação aparente. Apenas terra e rocha inerte. Meio apreensivo, tirou o capuz. Então voltou para onde estava antes, na câmara dentro da rocha. Recolocou o capuz. Voltou ao limbo escuro. Caminhou alguns passos naquele deserto para o lado. Tirou o capuz, e se viu mergulhado nas águas do Mar do Hill, quase se afogando com o susto. E aí parou de se debater e calmamente vestiu o capuz. De volta ao limbo. E que alívio. Mais do que isso, tinha entendido a primeira coisa daquela dimensão que em breve se tornaria o lugar mais familiar para Weiss Bier: sua lógica especial em relação à dimensão real onde vivia.

Já bem longe dali, o resto do grupo era conduzido pelos golfinhos que tinham feito amizade com Andressa de Aquitan. Seria uma viagem longa, mas até agradável, para os mares que banhavam Flamme, quando o grupo foi resgatado por um barco de pescadores aquitanos. Saudados como heróis sobreviventes de Vitiferralis, o que era raro, Haia Kahn e Melvis Merlin foram promovidos à patente de Gargo. Agora eram oficiais da cavalaria negra. Já Weiss Bier tornou a vestir o capuz e simplesmente percorreu em linha reta atravessando deserto daquele limbo na direção da sua Joy Divile. Vez ou outra, tirava o capuz com cuidado, para avaliar a direção. Quando se achou pelos arredores das Darklands, tirou o capuz de vez e seguiu a pé pelas estradas que conhecia bem.

Em Flamme, Andressa pagou a toda sua equipe os kabutz prometidos, mas continuava insatisfeita, pois dessa vez tinha perdido Mortagwan. Mas também parecia traumatizada, e dessa vez não pensava em voltar lá. Pelo menos por enquanto.

Assim que se recuperou, Haia Kahn lembrou do acordo que tinha com Ferro e viajou de Flamme até Van Hal para falar com a família do falecido Gigantrix. Somente lá descobriu que Toni não teve apenas uma mulher, mas várias, em diversos locais. Então lembrou-se que Toni tinha lhe mencionado um certo tio Binus, em Luke. Sem perder mais tempo, partiu novamente, dessa vez para a cidadela costeira no Mar do Norte. O torreão da famíia Ferro se localizava perto do porto, bem na região central de Luke. Quando chegou ao local, um guarda quetionou o que ele queria ali.

– Sou Haia Kahn, e procuro por Binus. Assunto a ser tratado com ele. – Informou o cavaleiro da Bruma.

O guarda manda um pajem anunciar o visitante. Pouco depois, Binus Ferro aparece numa sacada da construção, meio rude:

– O que você quer, cavaleiro Dokhe?

– Eu e Toni Ferro, além de cavaleiros, éramos amigos. E em nossa última missão ele me prometeu apresentar sua prima Kiara. Infelizmente ele não está mais entre nós e presto minhas condolências à família. De qualquer forma, vim aqui no intuito de conhecê-la.

– Qual a sua patente na cavalaria, guerreiro?

– Sou um Gargo, senhor.

– Um oficial… Justo o que eu procurava para minha filha mais velha. Entre por favor, cavaleiro. Então tu conheceste aquele vagabundo preguiçoso do Toni. Conte-me mais sobre o que aquele cretino lhe prometeu…

Enquanto isso, em Joy Divile, Weiss Bier procurava manter discrição sobre o manto que tinha achado naquela cripta, e não parava um minuto de pensar em Imperatrix. O mago supremo talvez fosse o único que pudesse lhe orientar sobre aquele enorme poder. Como era proverbial, naquele mesma noite o arqueiro sonharia com o mestre de todos os colegiados.

À beira de um rio muito caudaloso, que ele logo percebeu ser o Celtik, na altura de Yaztrik, Weiss perguntou à Imperatrix:

– Mestre, onde está o que eu preciso encontrar?

O mago supremo então apontou para o alto de uma montanha no planalto velga, a nordeste de Darklands, que era parte das terras do Condado de Princevere.

– Há um velho mosteiro de sacerdotes de Hagalaz naquela colina. Eles estão esperando você. Mas lembre-se: tua flecha sempre chegará mais rápido que seus pensamentos. Você quis assim.

Quando acordou, o arqueiro tinha entendido o recado. E a flechada do velho mestre. Mas agora sabia o que fazer.

Continua…

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