111. Antes do labirinto

Antes: 110. Haia e o Pajem

Assim que derrota o guardião e atravessa a pesada porta de madeira localizada no fundo do primeiro túnel do desafio dos Verofortes, Suva Kaun Dikristus, tigunar suado, campeão de Joy Divile, adentra uma grande câmara interna circular com uns 10 metros de raio e 6 de altura, com teto em formato de abóbada. Há uma porta similar no outro lado do recinto. Porém, também há ali um enorme touro protegido por placas de armadura rodando em círculos psicopaticamente. Ao sentir a presença do intruso, o bicho para e começa a fungar com raiva, antes de partir desenfreado para o ataque. Aquele era apenas o segundo desafio para quem desejasse se tornar o Veroforte.

Suva brande seu montante e tenta se esquivar para contragolpear o touro, mas acaba desequilibrado e cai no chão, sem conseguir acertar o bicho. Com um rolamento ágil, o tigunar se levanta, a tempo de ver o animal novamente em desabalada carreira em sua direção, pronto para lhe furar com os chifres protegidos por afiadas ponteiras metálicas. Dessa vez, ele consegue se desviar com agilidade, e crava o montante na goela do touro, numa brecha entre duas placas.

Deixando o animal estrebuchando no chão, Suva se aproxima da outra porta, onde começou a escutar um ruído vindo do outro lado, que ele logo identificou com o estalar de pesados chicotes. Uma chicotada. Duas. Um breve intervalo. Três, quatro, cinco seguidas. O som era alto, intimidante. Quando abriu a porta, deu de cara com uma caverna enorme, escura em sua maior parte, iluminada apenas por um grande círculo central de archotes cravados no chão como lanças, além de uma escadaria de pedra ao fundo também iluminada por tochas. Mas o que mais chamava atenção de Suva ali, obviamente, era a porra de um Gigante capturado nos confins do Oriente Esquecido, uma criatura humanóide monstruosa, com mais de quatro metros de altura. Era ela que brandia um enorme chicote de couro.

Somente após alguns segundos, Suva notou que o monstro não estava sozinho. Fora do círculo, ao lado da escadaria, um sujeito pequeno com manto e capuz escuro olhava para baixo, de braços cruzados, na penumbra. Quando uma voz meio sussurrada apareceu do nada em sua mente, o tigunar percebeu que o encapuzado sabia se comuncar mentalmente. E, se sabia telepatia, e o Gigante que estava ali ao seu lado ainda não tinha lhe trucidado, então devia saber mais coisas.

“Esta é a prova final para acesso ao labirinto” – Anunciou a voz na cabeça de Suva, antes de continuar a explicar o desafio:

“Você pode escolher entre lutar contra ele, ou tentar suportar duas chicotadas aplicadas pelo Gigante”.

Suva engoliu em seco. Queria lutar. Aceitar as chicotadas era humilhante demais. Sem falar o risco. Mas, como lutador racional que era, ele também tinha certeza de que suas chances de suportar apenas dois golpes era bem maior do que vencer o Gigante numa luta encarniçada naquela caverna. Provavelmente já sairia dali estropiado, o que reduziria muito suas chances de título. O encapuzado concluiu as regras:

“Se você decidir lutar, e perder, o Gigante ainda vai abusar sexualmente de você antes de matá-lo, ou mesmo morto”.

Agora Suva entendeu que não tinha nem o que pensar:

“Nesse caso eu vou de chicotadas”

Resignado, Suva se apresenta no círculo cerimonial iluminado no centro da caverna.

“Incline-se” – Orienta a voz.

O negão oferece as costas ao Gigante, quase sem querer. A primeira chicotada acerta sua dorsal em cheio, o que lhe arremessa ao chão. O forte impacto das enormes tiras de couro reforçado também danifica a parte anterior de seu uniforme Hokhe, o que expõe parte de sua pele à segunda chicotada. Quando o Gigante se prepara para o novo golpe, Suva inclina-se ligeiramente para tentar proteger o flanco exposto, mas não adianta. A lapada vioenta dilacera sua carne, e ele chega a ranger os dentes para suportar a dor, ao mesmo tempo em que cai novamente. agora de joelhos. Com a boca inicialmente espumando de raiva, o tigunar logo entende que sobreviveu e passa a saborear mais um gostinho de vitória, no que era abolutamente viciado. O encapuzado então reconhece seu triunfo:

“Parabéns, guerreiro. Você é digno de entrar no labirinto. Uma vez lá dentro, esteja avisado: só há oito saídas para a fase final da competição. Em pares, elas levam a quatro ringues, onde serão realizadas as quartas de final do torneio. Quem chegar primeiro, poderá descansar para esperar o rival. Mas, para abrir a porta de cada uma destas saídas, antes será preciso encontrar uma das oito chaves. Agora suba estas escadarias e prepare-se para o verdadeiro desafio”.

Suva se levanta, dá uma olhada para o Gigante, que parece hipnotizado, e segue adiante pelo caminho de tochas que avança em degraus cavados na pedra. Ao fim da escadaria, ele alcança mais uma porta de madeira encravada na pedra. A partir dali, o jogo era outro.

Pouco tempo depois que Suva deixou aquela caverna, Pet Xueiz chegou ao mesmo lugar. Com o touro na fase anterior, não tinha perdido tempo, mas a luta com o primeiro guardão tinha sido mais demorada.

“Luta ou chicotada?”

– Chicotada, claro.

O vulkânico marombado também vai ao chão com a primeira lambada, que chega a arder na alma, além de arrebentar suas vestes de proteção. Com dificuldade, pois ainda sentia os efeitos do feitiço de Mortagwan, se levantou para receber a segunda. Dessa vez não teve sorte. No estalo, a corda do chicote praticamente lhe serrou as costas, abrindo um enorme e profundo corte em diagonal que lhe fez espatifar de cara no chão, e logo o mataria por hemorragia.

Ainda preso ao primeiro desafio, Xpeditus resolveu esperar um longo tempo de olhos abertos antes de se levantar para lutar novamente contra o guardião. Tinha levado dois nocautes consecutivos e aprendido a lição. Quando sentiu que suas forças tinham retornado, deu um salto repentino e partiu para cima do oponente como um ogro desgovernado. Dessa vez, derrubou e matou seu oponente com facilidade, cravando-lhe a lâmina no pescoço. Finalmente passara do desafio. Bem estropiado, mas passou.

Continua…

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