118. O primeiro duelo do Veroforte
Stonehand, na arena dos Verofortes em Dankel
Antes: 117. Suva Kaun encontra Xpeditus
Após ser saudado efusivamente pelo público, até porque era o primeiro campeão de um reino oriental a chegar ao ringue, Xanrok brandiu seu enorme machado de guerra e caminhou confiante pela passarela que conduzia até o ringue de pedra. Lá, o protegido de Ighan, Rei de Saravessa e usurpador de Viktoria, autoproclamado Imperador do Oriente, o aguardava impávido como uma rocha. Stonehand era um verdadeiro monstro de dois metros de altura, absurdamente largo, com mãos exageradmente grossas. Suas armas eram duas pesadas manoplas de metal desconhecido, cravejadas de pontas, que ele usava como um tipo fatal de luva, assim como escudo.
A fase literal de mata-mata do Veroforte ia começar, para delírio da galera que se aglomerava ao redor do fosso de lama. Até Renê, o “playboy”, tinha dado uma pausa na putaria só pra assistir.
Quando chegou ao ringue, o tigunar de Runa ainda teve tempo de saudar novamente o público, inflamando a torcida. Stonehand permanecia ali imóvel, no centro da arena. Quando Xanrok avançou na direção dele, e soltou um potente machadada lateral, o brutamontes apenas bloqueou o golpe com o antebraço, sem muito esforço, e aproveitou a curta distância para descer um soco fortíssimo no topo da cuca do tigunar, de cima pra baixo, que o fez apagar em pé antes de desabar.
A galera vibrou com o desfecho relâmpago. Xanrok não teve a menor chance. Poupando a vida do rival, se sobrevivesse àquele violento cascudo que poderia inclusive deixá-lo permanentemente incapacitado, Stonehand apenas arremessou seu corpo no fosso de lama, como tinha feito anteriormente com o gargo, provocando nova gritaria da torcida. Humilhado, o escudeiro de Xanrok logo saltou sobre o fosso para resgatar o companheiro e levá-lo de volta à Runa o mais rápido possível.
Alheio à excitação geral, Stonehand caminha mecanicamente pela passarela que levava ao ringue da semifinal, onde mais uma vez teria de esperar por um oponente. Pelo jeito, dessa vez teria de esperar bastante, pois nenhum dos dois oponentes que poderiam enfrentá-lo tinha ainda aparecido no ringue das quartas. Kundahar, de Cibel, e o vulkânico de Venez, por sua vez, aguardavam seus oponentes do outro lado da chave. Como tinham assistido de local privilegiado ao atropelo de Stonehand, certamente estavam impressionados. E ainda restavam quatro vagas.
Não exatamente cansado de toda aquela putaria nos camarotes, Arley observou atentamente como eram as saídas do local, e o esquema de vigilância. Ele poderia ir embora, pois Pet Xueiz estava morto. Os guardas que os vigiavam permanecia fora, os pajens dentro do recinto. Barbeij ficava do outro lado do Desfiladeiro de Áden, cerca de 50 km. Fugir dali furtivamente, a pé, era sem condição. Enquanto ainda era chupado, Haia também pensou em arranjar alguma confusão com um venegasco, mas temia ir preso e foder a missão. E enquanto Mortagwan estivesse lá dentro, ele não podia sair dali sem levantar suspeitas. Ou seja, tava tudo bom demais pra tentar algo que resultaria certamente em sanhaço.
Cerca de trinta guerreiros, de todas as partes de Asgaehart, tinham entrado ali. Três esperavam nos ringues, pelo menos dez já tinham sido arremessados no fosso, mortos ou feridos. Certamente haveriam outros mortos no labirinto. E restavam quatro vagas nas quartas de final. Para uma dezena de competidores que ainda procuravam as chaves do labirinto.
Enquanto estava mijando na área de nojo que servia aos camarotes, Ipa Bier lembrou-se da missão. Ali tava bom, mas se não voltassem com uma boa desculpa por não terem feito nada, estariam fodidos. Na verdade, Ipa nem queria mais tanto assim achar a família de Janus, nem tesouro, nem nada. E ainda teriam de carregar os companheiros pra casa, se saíssem fodidos do labirinto. Maior preguiça disso. As chances eram baixíssimas, dado o pouco sucesso da missão até ali. O que ele queria era ficar no camarote até o torneio acabar, aproveitando toda aquela regaria. Aliás, o torneio podia nem terminar. Que se foda quem seria o campeão. “Maior guerreiro de Asgaehart” meu ovo. A festa era muito melhor. Duro ia ser explicar isso na Clave.
Quando Ipa voltou ao salão, questionou o pajem, que àquela altura já enrolava a língua pra falar:
– O que Wilsu aceitaria pra deixar a gente entrar no dia da festa?
– Nada. Wilsu é o maior puxa-saco dos Senadores. Puxa-saco safado!
– Ele deve ter rabo preso com alguém. Fazer algo que não devia…
– Nada. Ele mora ali na portaria, o miserável. Muito de vez em quando, vai ver as putas na taberna.
– Será que alguma dessas meninas aqui conhece ele?
– Nada. Essas aqui vieram da Jubo Ket. Cobram caro. Wilsu só pega as da rua.
– Aquilo foi outro tempo. Acabou. – Lamentou Ipa, enquanto olhava ao redor para decidir qual delas atacaria. Voltou ao salão, conversou com algumas prostitutas, tentou obter informações, até que teve uma ideia, e resolver subornar uma delas, que lhe chamou a atenção pela beleza e presença, da raça agunar.
– Tenho um trabalho pra você hoje à noite. Será muito bem recompensada. Dez moedas de ouro. Topa?
– Nem sei o que é, mas se forem 15 eu já aceitei. – Concordou a prostituta, negociando.
– Estamos combinados então. O serviço é fácil: um cliente só. Quando acabar a festa aqui, eu te procuro.
Agora Ipa teria de convencer o resto do grupo do plano. Merlin estava deslocado ali, com certeza toparia. Arley e Haia estavam se divertindo. Mas o mais difícil agora ele sabia que era convencer a si mesmo.
Continua…
