114. O labirinto do Veroforte

Antes: 113. Arley e Myla Yumanotz

Àquela altura, Suva já percorria o primeiro corredor do enorme labirinto de paredes de pedra, avistando à frente suas encruzilhadas geometricamente dispostas em quatro direções, e que pelo menos ali pareciam intermináveis. Apesar da largura e altura razoável dos corredores, o clima era claustrofóbico, o que era agravado pela iluminação precária dos poucos archotes espalhados aqui e ali.

Com muita cautela, e já completamente suarento, o campeão de Joy Divile avançou seguindo em linha reta, ignorando as oções à esquerda ou direita no caminho, que surgiam pelo menos a cada vinte metros. Ele estava ali por uma questão pessoal. A missão era secundária. Sentia em seu íntimo que tinha nascido pra ganhar aquele cinturão. Um objetivo de vida. Não tinha medo de nada ali, e ainda levava uma carga generosa de poeira cristal, só para garante.

Depois de andar bastante em linha reta, sem achar nada, Suva parou numa encruzilhada e observou atentamente ao redor. Apenas corredores, intermináveis, numa penumbra que sempre terminava em escuridão total. Pegou uma das tochas que estava acesa, presa na parede, e continuou andando em linha reta por mais um tempo, e nada. Aquele labirinto era realmente enervante. De saco cheio já, resolveu guinar à esquerda, seguiu adiante mais um tempo, e virou à direita, meio a esmo.

Suva continuou andando em linha reta por um tempo, até que viu à sua frente uma grande mancha de sangue atravessando o corredor. Olhou com cuidado e percebeu que alguém tinha arrastado algo grande, sangrando, da esquerda para a direita. Resolveu guinar no sentido contrário ao arrasto, para ver de onde vinha aquilo. O rastro de sangue seguia à esquerda, dobrava a direita, depois esquerda de novo e seguia reto até desembocar em uma câmara circular com cerca de quatro metros de diâmetro, onde um obelisco de pedra branca tinha sido colocado no centro. Ao lado, uma enorme cabeça de gargo, decepada à corte seco, ainda minava sangue.

Impressionado com a cena, Suva percebeu também que havia o desenho de uma chave gravada em baixo relevo no obelisco de pedra. Mas não havia a chave. Se houve, alguém já tinha pegado. Decidiu continuar andando, e dobrou à esquerda na primeira encruzilhada. Passou mais dois cruzamentos, virou à direita. E aí seguiu reto, até que finalmente achou o que queria. Um guerreiro de raça ileana, bem mais baixo que ele, mas de perfil forte e atarracado, parado numa das encruzilhadas. Quando se viram, nenhum quis conversa. A porrada lambeu imediata.

Com grande agilidade, o ileano consegue golpear Suva no braço, o que corta a pele do negão e lhe arranca sangue. Irritado, o tigunar devolve a porrada, também provocando um talho no ombro do home, que se alerta. Aproveitando a surpresa, Suva tenta agarrá-lo para uma queda, mas o baixinho é ligeiro, e consegue escapar. Mas o campeão de Joy Divile continua indo pra cima e acerta-lhe outro golpe, dessa vez no outro braço.

Cansados da explosão inicial da luta, os dois circulam um tempo, se estudando. Mas Suva se recupera mais rápido, e logo aproveita a situação para lançar o baixinho ao chão com uma cotovelada brutal. Agachado, o ileano vira lenha para o negão, que decepa sua cabeça num golpe só.

Suva revista os pertences do guerreiro ileano, que ele não consegue reconhecer qual reino representava. Pela cara de índio, devia ser um daqueles pardieiros do Oriente Esquecido. Pendurada na cintura do cara, ele acha uma chave vermelha, do mesmo formato daquela que tinha sido levada do obelisco. Ele devia estar procurando a porta vermelha. E era o que Suva precisava fazer. Antes, porém, escondeu a chave dentro da cueca.

Àquela altura, Suva parecia um selvagem. Tinha mais de 200 kg de puro músculo, 8% de gordura corporal. Suava abundantemente, e quase nunca tomava banho. Sua aparência era fétida, repugnante. Criado no Cantão de Divile, linha de frente da Hokhe. Estava ali pra ganhar, e não ia aceitar empate. Se tivesse de perder, melhor nem sair dali daquela merda. Mas agora ele precisava achar a porta vermelha. Ou Xpeditus. Ou Pet (que ele não sabia que tinha sido fatiado). Ou Mortagwan. Porque agora era ele que tinha uma chave, e portanto, logicamente, era um alvo.

Enquanto caminhava, procurando a porta, Suva pensou que se achasse seus companheiros, talvez fosse uma boa estratégia se juntarem para pegar todas as chaves que pudessem, atacando os demais na vantagem numérica. E aí pensou que talvez esse grupo já existisse, mas era inimigo. Só via covardia e sacanagem em todo lugar.

Naquele mesmo momento, porém, pelo menos um competidor não pensava assim. Stonehand, o campeão de Saravessa e protegido de Ighan, o Mestiço, era o primeiro lutador a abrir uma das oito portas que davam acesso aos ringues da etapa final do torneio. E ele chega arrastando o cadáver de um gargo adulto decapitado. Aclamado pelo povo que se aglomerava ao redor do fosso, e aplaudido pela torcida cada vez mais embriagada e pervertida nos camarotes, ele poderia descansar até conhecer seu adversário.

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