123. Segue o Mata-Mata

Yag Tzin, ileano da Bavária.

Antes: 122. She’s like the wind

Enquanto Suva já estva na final, Xpeditus passava pela quarta ou quinta vez pelo rastro de sangue de gargo no chão de um dos corredores do labirinto. Já estava até coagulado. Esquerda, direita, reto, direita, de forma mecânica e meio maníaca. Àquela altura, seu corpo já estava num modo de resposta automática. Acabou achando a porta de pedra marrom, que também já tinha sido aberta. Foi quando finalmente pareceu compreender a geometria do labirinto. Após todos os outros competidores.

Com base na localização da porta vermelha e da porta marrom, Xpeditus foi testando todos os corredores daquele perímetro, na direção da parede que dava acesso ao lado exterior. Mas aquilo era óbvio para qualquer um que não fosse tão burro quanto três jumentos puxando uma carga de pedra. Seguindo pelas margens o labirinto, o Para Hyba vai passando por uma porta atrás da outra, de diferentes cores. No trajeto, ele também passa por alguns cadáveres estirados no chão, entre eles o gaulês Guillon de Fler, decepa a cabeça de dois deles e as carrega como souvenir.

Quando finalmente encontrou a porta de reluzente pedra verde, Xpeditus percebeu que ainda não estava sozinho. Aguardando no local, da mesma forma que ele tinha feito logo no início em frente à porta vermelha, estava um guerreiro de raça ileana. Quando o sujeito vê Xpeditus, se anima, dá uma espreguiçada e sorri pra ele mostrando seus dentes pretos. Ele falava rápido numa língua que parecia o bávaro, incompreensível para o Para Hyba (como aliás eram para ele todas as línguas que não fossem o velga).

Xpeditus larga as duas cabeças no chão e avança para lutar. O ileano era pequeno, mas também era forte e muito ágil. Ainda sentindo o braço furado, o campeão de Aquitan encontra um adversário à altura, alternando situações de vantagem contra o oponente nos primeiros momentos. A briga se estende sem que ninguém consiga ferir o rival de forma relevante, por um bom tempo. A diferença, ali, foi que Xpeditus tinha cheirado a poeira naquele dia. Quando começou a faltar gás para o pobre ileano, Xpeditus acertou-lhe uma sequência fatal de golpes, que terminou com a cabeça do oriental rolando pelo chão.

Como de praxe, Xpeditus revista o defunto, tratando de confiscar suas moedas de ouro e prata, que eram bem poucas. Ele então usa a chave verde para destrancar a porta. Assim que pisa na passarela, o guerreiro da Para Hyba ergue os braços para saudar a galera, e arremessa as duas cabeças que tinha decepado anteriormente no fosso, gritando como um animal.

Agora todos os oito finalistas eram conhecidos. Quatro deles inclusive já estavam mortos ou quase: o agunar Xanrok, de Runa, provavelmente tetraplégico após tomar um cascudo de Stonehand; Kundahar, de Cibel, decapitado por Lizander; e a própria amazona e Akilon de Venez, mortos por Suva Kaun, campeão de Joy Divile e representante de Van Hal. Mortagwan, que parecia ferida, era a única que ainda não tinha lutado. Ainda. Seu oponente tinha acabado de chegar: Xpeditus, o Para Hyba.

No ringue da semifinal, Stonehand contorcia o rosto deformado de raiva e rasgava uma de suas vestes, olhando fixamente para Suva, que se mantinha completamente impassível, aguardando no platô central decisivo, embora seu coração batesse a mais de duzentos pelo efeito da poeira. Estava no limte do limite. Enquanto isso, no camarote, o acompanhante do campeão de Saravessa, típico bárbaro alamano, já não disfarçava a hostilidade contra Ipa Bier, escudeiro de Suva. De longe, parecendo bêbado, o sujeito começou a gritar, na direção do velga:

– Your fucking nigger will be destroyed, man!

Naquele clima que ia guinando rapidamente da orgia para a anomia, outro representante dos Reinos Bárbaros, um vilando de Treva, esse visivelmente bêbado, ostensivamente começou a fazer gestos desafiando Ipa para uma luta ali mesmo, no que foi contido pela guarda dos senadores. A barra estava pesando. Na verdade, os senadores liderados por Boquisosi tinham certeza de que Stonehand ou algum dos aliados do Rei Mestiço iria vencer a competição. Mas agora um tigunar de Joy Divile, que apenas recentemente tinha se tornado um protetorado de Van Hal, parecia um sério candidato a estragar seus planos. Suva estava lá quando o Rei Hagen consagrou a Duquesa Arien, irmã da gigantrix Diana Divile.

Mortagwan se surpreende com a chegada de Xpeditus, e propõe para ele uma luta desarmada, para aumentar as chances de que o derrotado sobreviva.

– Não. – Disse o Para Hyba, concluindo:

– Se morrer, morreu.

A vilanda então desembainha a espada e faz um cumprimento para o oponente:

– A escolha é sua.

Xpeditus então ajeita o saco por baixo da armadura e parte para a porrada. Ele aproveita a mobilidade reduzida da adversária para golpeá-la no flanco deficiente, tirando sangue da amazona. Ainda sob efeito da poeira, o cavaleiro da Hokhe avança sem parar contra Mortagwan, sem deixá-la respirar. Mas a citroyana resiste, e começa a equilibrar a luta, que vai perdendo o ritmo inicial.

Dando sinais de cansaço, os oponentes passam um tempo se estudando, e circulando. A torcida começa a vaiar, impiedosamente. Como eram representantes de reinos aliados (Aquitan e Darklands), pairava a suspeita de marmelada. Xpeditus se emputece e novamente machuca a cavala:

– Grita! Felas da puta! – Berra o Para Hyba para a torcida.

Em seguida, o campeão de Aquitan acerta uma porrada forte que arremessa Mortagwan ao chão. Ela tenta se levantar, mas Xpeditus aproveita a chance para agarrá-la pela cintura e cravá-la no chão de pedra, o que faz a amazona apagar. E a galera explodir. Se não fosse pelo elmo, que se rachou na queda, era vala. Mas o Para Hyba percebeu que a vilanda ainda respirava. Colocou a oponente desmaiada sobre os ombros e deu dois tapas na bunda de Mortagwan, enquanto girava no ringue e a exibia para a torcida, que vibrava com ele. Logo depois da performance, Xpeditus lançou a amazona para Haia, que tinha descido ao fosso para pegá-la.

– Puta que o pariu, Para Hyba! – Reclamou Haia, fazendo cara de contrariado.

Quando olhou ao redor, Xpeditus percebeu que Stonehand não parava de apontar em sua direção, babando de raiva, enquanto o aguardava no ringue da semifinal. Com suas manoplas gigantes, começou a bater sinistras palmas metálicas, como se quisesse intimidar o rival com aquele barulho sombrio. O Para Hyba nem conversou, partindo pra dentro com sua espada.

– Come on to hell! – Berrou Stonehand, fazendo guarda.

No camarote, o bêbado que o acompanhava exclamou:

– This is the co main event of the evening!

Na primeira trocação, o Para Hyba logo tomou uma porrada no ombro pra ficar esperto. E depois outra no peito. E outra de raspão na cabeça. Se tivesse entrado era lona. Mas, assim como na luta anterior, Xpeditus conseguiu resistir, equilibrar as coisas, e a passagem de tempo lhe era vantajosa. A torcida pareceu não acreditar quando o gigante de mãos de pedra começou a dar visíveis sinais de cansaço. E aí o Para Hyba cresceu.

Acuando o protegido do Rei Mestiço na beira do ringue, Xpeditus acertou um golpe que rasgou seu abdomen. Incrédulo, Stonehand pela primeira vez na luta tentou se esquivar, mas acabou derrubado. E o Para Hyba não desperdicou a oportunidade de rasgar a goela do campeão do Saravessa, que vomitou sangue até cair. Mais uma vez, Xpeditus arranca a cabeça do adversário e a arremessa para a galera, que delira a não mais poder.

“O cinturão vem pra casa”, pensou Haia satisfeito enquanto carregava Mortagwan no colo, a quem tinha acabado de servir uma dose da Poção de Virgo.

O primeiro cinturão do Veroforte seria levado para um dos reinos velgas: Van Hal ou Aquitan.

Continua…

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